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       Gostaria de abordar novamente o tema apresentado pela Rita na sua intervenção de há duas semanas. Recordo que no seu texto, a Rita narrava uma situação em que, numa conferência, se viu confrontada com uma "Professora Doutora" que defendia a ideia de que as crianças deveriam, a bem de um desenvolvimento equilibrado e harmonioso, ser apenas sujeitas a emoções positivas. Este é o tipo de ideias às quais se adequa a qualificação "bullshit", e aparentemente Tolentino Mendoça comunga da minha ideia, se bem que com outra elegância.

    Acreditar que um crescimento harmonioso e equilibrado dispensa a experimentação de emoções negativas é, a meu ver, uma ideia tão absurda como acreditar que a terra é plana. Tanto uma como a outra são teorias desmentíveis por uma mera observação atenta da realidade. Uma criança que não passa por emoções negativas é uma criança que não aprende a perder. É uma criança que, ao longo da sua vida, vai fazer a típica cena "Agora ninguém joga mais porque a bola é minha!!!" sempre que a coisa não lhe correr de feição, é uma criança que vai amuar a cada contrariedade, e acreditar que o mundo está todo contra si, e vai, derradeiramente, frustrar-se porque a vida não lhe dá aquilo que lhe ensinaram que ela merece: Tudo e mais alguma coisa, acrescido deste mundo e do outro, independentemente das suas acções. Enfim, vai permanecer criança a vida toda, no pior que se pode ser em ser criança.

       José Tolentino Mendonça dá algumas boas dicas, para miúdos e graúdos.

Francisco Anjos

       A Casca e a Pérola

 Há que dizer que as estações difíceis se podem tornar fecundas, como as crises se iluminam quando fazemos delas oportunidades. A história da concha e da pérola expressa-o bem. A formação da pérola acontece como um mecanismo de defesa da concha a um invasor, que pode ser desde um parasita, a um fragmento invisível de coral ou a um grão de areia. As conchas perlíferas são aquelas que sofreram uma turbulência. São as conchas feridas. Mas o paciente processo de trabalho interno que se segue — uma pérola leva em média três anos a constituir-se — torna a concha preciosa e única. Também connosco sucede algo semelhante. Como diria o poeta brasileiro Manoel de Barros, a vida é “cheia de casca e de pérola”. As feridas não desvalorizam a vida, antes a maturam, ampliam e aprofundam. Talvez num primeiro momento não estejamos preparados para o reconhecer e prevaleça, sobretudo, a reação ao inesperado da dor ou a urgência de nos protegermos do que parece somente uma ameaça. Na verdade, é sempre um caminho que nos conduz de um lugar a outro, fora e dentro de nós. Um caminho que não vemos logo, de cuja existência ou proveito é fácil descrer. Um caminho que quando nos é apresentado parece, inclusive, abstrato e não percorrível. Um caminho demasiado longo, quando a pressão do que sentimos nos faz esbracejar por uma solução rápida que venha em nosso socorro. Porém, quem aceitou o desafio de percorrer os caminhos da sua reconstrução interior sabe que não é assim.

Esse caminho é feito de etapas que podem receber denominações diferentes, mas, se quisermos, se reconduzem a três (e representam, na verdade, mais tomadas de consciência do que sequências temporais propriamente ditas). Em algum momento devemos rever a nossa ideia sobre a fragilidade, aquela que nos pertence e a dos outros. A fragilidade é a língua falada por toda a criação. Ignorar essa língua é não só renunciar à possibilidade de tocar quotidianamente a vida nas suas minúsculas declinações, de a abraçar na sua forma real, mas é arriscar também não chegar a ouvir o que de mais belo ela tinha para nos dizer. A fragilidade não é um acidente, é uma linguagem comum, uma condição. Tomar consciência disso ensina-nos a julgar menos, a integrar mais harmoniosamente, a cuidar e a contemplar melhor. Outra etapa fundamental é a compreensão de que tudo é dom. A terra onde pousamos os pés e o ar que respiramos; a chuva que parece abreviar os dias ou o sol que os alonga; o silêncio e a palavra; a companhia e a solidão; o enigma e a procura; o princípio e o fim. Como se diz num velho romance de Georges Bernanos, "Que importa? Tudo é Graça." A perceção de que tudo é dom ajuda-nos a vencer a desconfiança em relação à existência e a olhá-la na sua inteireza, em vez de a reduzirmos a um inconclusivo jogo de opostos. Creio que é desse modo que aprendeemos - e é a terceira etapa - a potencialidade generativa do que nos cabe viver. É que não nos custa apenas o pensamento da morte, a que tentamos escapar e mascarar o tempo todo. Não nos desorienta somente o reconhecimento da transitoriedade que faz de nós viajantes e arrendatários mais do que donos. Também nos custa admitir - e fazê-lo com liberdade do fundo da alma - que o verbo nascer seja um verbo ainda para nós, um verbo a ser conjugado a cada instante do nosso itinerário. Preferíamos considerar essa tarefa arrumada e, contudo, é interminável, inacabada, inescusável a ação de nascer. Mas há como que um sobressalto de revitalização, quando aceitamos o incessante desafio a nascer.

 José Tolentino Mendonça (Expresso, 11/5/2021)

Comentários

Rita Anjos disse…
Abençoado seja quem escreve com elegância, graça e poesia!
Continua-se, contudo a eleger crianças mimadas e birrentas para ficar à frente disto... vejam-se Bolsonaros e Trumps. A mim também me espanta!
Tolentino de Mendonça não ocupa os primeiros lugares na minha prateleira de teólogos de estimação, embora por vezes diga coisas muito acertadas. Como é o caso. Mas o meu agnosticismo lida incondicionalmente melhor com Hans Kung, por exemplo, e por cá com Anselmo Borges ou Frei Bento Domingues.
Por outro lado, e como tantas vezes acontece, as considerações do comentador - no caso o Francisco - parecem-me bastante mais transparentes, claras e esclarecedoras da sua opinião, que também subscrevo, do que a crónica do artista principal.

nelson anjos

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