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Mare Nostrum (ou o pântano das autárquicas)

       Mare Nostrum: era a designação dada pelos romanos ao que designamos hoje por Mediterrâneo – o grande lago que ocupa a posição central do que, no século II constituía o Império romano. Denominador comum de histórias e povos tão distintos como eram os que habitavam as margens norte e sul, do extremo ocidental até às terras a oriente, onde se escreviam Novo(s) Testamento(s). Ao longo de milénios ali tinham vindo a confluir, mercadejando, guerreando e pirateando nas suas águas.

       A social-democracia – ou a democracia liberal, se se preferir conceito mais lato – representa hoje, no campo das grandes famílias políticas, o seu Mare Nostrum. No que respeita a Portugal, aí têm vindo a confluir também, alternando períodos de acalmia com pequenas desavenças domésticas, desde os fundadores PS e PSD, até aos mais recentes convertidos PCP e BE, para referir apenas os mais representativos. Nestes últimos, para uns a “democracia avançada” substituiu Marx: quem não se lembra, nas últimas presidenciais, de João Ferreira, um dos mais reverentes defensores da Constituição? – e o BE, particularmente o seu setor de inspiração católica, sempre reivindicou pertença à social-democracia. A nota dissonante é constituída pela extrema direita, resultante da reciclagem de velhos resíduos coloniais e salazaristas, “enriquecidos” – tal como a gasolina – com alguns aditivos mais recentes. Refiro-me ao Chega. O quadro assim constituído poderá, de forma sucinta, designar-se por “O Chega e o outro”. Não existem os “outros”. A falsa pluralidade, servida por diferentes siglas, é um equívoco que urge esclarecer. Tomando como exemplo o município onde moro – Miranda do Corvo, poderia ser qualquer outro, – cada uma das propostas presentes nos outdoors da campanha eleitoral pode ser, no essencial, subscrita por qualquer um dos partidos. O que, no caso da pequena vila ou cidade de interior se torna de entendimento fácil, atendendo à estrutura dos mecanismos de socialização predominantes, alicerçada na troca de favores mútuos, pequenas cumplicidades e compadrios, sorrisos e pancadinhas nas costas. A crítica social e política não existe e foi substituída pela maledicência de café, em surdina. Sobre os grandes problemas atuais – as desigualdades sociais ou o aquecimento global – os poderes autárquicos, confinados ao papel de prestadores de serviços domésticos não têm qualquer opinião. Isso é da política, não lhes diz respeito, e eles aceitam que assim seja.

       Continuamente lavrado e semeado pela história o mediterrâneo continua a produzir novas metáforas. Os que se aventuram hoje na sua travessia, fugindo de um sul que tarda em recuperar da derrota, não poucas vezes, em vez do canto das sereias encontram o destino trágico do naufrágio como fim de viagem. E, a norte, onde esses não chegam, paralelamente outros naufrágios ameaçam, com o passado e a história a fingirem de futuro. Sonâmbula, a Europa preguiça aí, baloiçando-se numa rede de democracias estioladas e pífias, enquanto as extremas direitas, incluindo as de vocação fascista – que sempre por cá estiveram – aproveitam para se instalar de armas e bagagens. Utilizando a metáfora: “vão saindo do armário”. E apresentam-se como alternativa, cada vez mais percecionada e aceite pela opinião pública como “alternativa natural”.

       Sem nada de fundamental que os distinga, para além de aspetos de pormenor que uns e outros pretendem fazer passar por questões de fundo, por cá também, todos, à exceção do Chega, como já atrás se disse, os partidos apresentam-se a eleições, IGUAIS, desde logo na abissal vacuidade de ideias. Obesa, parada e sem qualquer ideia de futuro, em vez de uma barreira a “democracia” que temos vai-se constituindo antes como a “passadeira vermelha” do ordenado mínimo nacional de € 650.00 – o carimbo da desigualdade institucional – a facilitar a passagem triunfal a qualquer Chega. Mais uma vez: como diz Manuel Carvalho da Silva em Vencer o Medo, já abordado em textos anteriores, “Os velhos consensos e submissões que nos trouxeram até aqui têm de ser atirados para o caixote do lixo. Há que encontrar compromissos novos, convergências geradoras de esperança, de confiança, de futuro.” A que se vão somando outras vozes, como por exemplo a de João Camargo (Público on-line, 1 de Julho, 2021) quando diz que a crise climática e os crimes climáticos não serão resolvidos pelas instituições atuais, criadas antes para a manutenção do sistema capitalista. Nada de mais claro!

       O Crepúsculo da Democracia, de Anne Applebaum, – eu prefiro, em tradução livre, A Desertificação da Democracia – não constituindo uma grande reflexão, muito embora o prémio Pulitzer, aborda algumas destas questões, do ponto de vista da direita democrática, onde se inscrevem as simpatias da autora. Leitura que, “apesar dos pesares” se recomenda. Em qualquer período de marketing eleitoral renova-se a pergunta: votar em quê? em quem? – relativamente à campanha em curso responderei na próxima crónica.

nelson anjos


Comentários

Pedro Mendes disse…
No exercício da Política há um princípio que entendo com basilar: jamais nos devemos refugiar nas falsas soluções que o fanatismo oferece, sob pena de colocarmos em causa a nossa caminhada coletiva. Daí insisto em citar (tal como o amigo Nelson faz) Manuel Carvalho da Silva: «é preciso dizer não às inevitabilidades a partir de um princípio bem experimentado: a política é a gestão de alternativas, é um exercício permanente de descoberta de novos rumos de resposta aos problemas que surgem a cada dia».
O poder político, como o vivemos hoje, cada vez mais dirigidos ao poder do dinheiro, de uma força que anula quase o direito de existir... A natureza a desaparecer e mesmo com tudo o que ela nos tem transmitido, através das calamidades que já são reais há muito tempo, pouco se faz para mudar... Num mundo onde predomina o poder do dinheiro, domina o mais forte... A economia não pode ser fixa só pelo consumo desenfreado, que nos fazem acreditar que é a forma certa de viver. Os direitos humanos são postos em risco todos os dias... Somos autodestrutivos.

Cecília Pedro