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 PÁSCOA NA ALDEIA, DE TEIXEIRA DE PASCOAES

Minha aldeia na Páscoa…
Infância, mês de Abril!
Manhã primaveril!
A velha igreja.
Entre as árvores alveja,
Alegre e rumorosa
De povo, luzes, flores…
E, na penumbra dos altares cor-de-rosa.
Rasgados pelo sol os negros véus.
Parece até sorrir a Virgem-Mãe das Dores.
Ressurreição de Deus! (…)
Em pleno azul, erguida
Entre a verde folhagem das uveiras.
Rebrilha a cruz de prata florescida…
Na igreja antiga a rir seu branco riso de cal.
Ébrias de cor, tremulam as bandeiras…
Vede! Jesus lá vai, ao sol de Portugal!
Ei-lo que entra contente nos casais;
E, com amor, visita as rústicas choupanas.
É ele, esse que trouxe aos míseros mortais
As grandes alegrias sobre-humanas.
Lá vai, lá vai, por íngremes caminhos!
Linda manhã, canções de passarinhos!
A campainha toca: Aleluia! Aleluia! (…)
Velhos trabalhadores, por quem sofreu Jesus.
E mães, acalentando os filhos no regaço.
Esperam o COMPASSO…
E, ajoelhando com séria devoção.
Beijam os pés da Cruz.

 

 

 Pode não ser o melhor poema sobre a Páscoa, mas é o que me lembra as minha Páscoas.

Há uma semana, quando não foi possível comemorar como de costume, senti uma grande nostalgia do tempo em que tudo era normal e, ainda mais, dos meus tempos de menina, a viver numa pequena vila do Norte, com uma Páscoa parecida com a do poema de Pascoaes.

Começava muito antes do dia marcado no calendário: era preciso limpar as casas, esfregar o chão com sabão amarelo que cheirava a limpeza, tirar a melhor toalha do baú, estendê-la ao sol e remover alguma nódoa que tivesse tido a ousadia de nela tombar, juntar ovos, muitos ovos, para fazer os bolos e folares, …

Também se tinha de pensar na roupa nova, nos ramos a levar aos padrinhos para receber de volta as amêndoas devidas, no tacho melhorado, em quem se convidar para a mesa, e por aí fora.

Na altura não achava grande piada a este período em si, tirando, eventualmente, a questão da roupa nova, pois havia sempre algum trabalho que sobrava e que me tirava dos meus livros e do meu descanso.

Então o dia de Páscoa era um sufoco!!!

Logo de manhã estendia-se a dita toalha, de linho ou algodão adamascado, sobre a mesa e começava a romaria entre a sala e a cozinha para que tudo estivesse perfeito quando chegasse a cruz, o padre, os acólitos e uma quantidade de miúdos que aproveitavam para recolher doces e amêndoas e tudo que estivesse ao seu alcance das suas mãozitas.

Esperava-se, esperava-se e esperava-se até que, por fim, lá se ouvia a campainha ao longe e, como diz o poema, via-se rebrilhar a cruz de prata florescida. Entravam em tropel até à sala que se tornava pequena por maior que fosse, entoavam os “Aleluia! Aleluia!”, beijava-se a cruz, enchiam-se pequenos copos com vinho do porto, encetava-se o folar e o pão de ló de muitos ovos, e, estando o envelope com a côngrua recolhido entre as pregas da batina do padre, partiam na mesma agitação, pisando as flores que se estendera na entrada e nos caminhos.

E era um sossego! Já o Senhor nos visitara, estávamos beatificados, podíamos respirar e pensar no almoço ou na ceia, nos outros convidados, tirar os sapatos novos que nos apertavam o pé e ter a certeza de que tínhamos um ano pela frente antes que tudo se repetisse. Naquelas idades um ano é tempo que nunca mais acaba...

Mas esses anos foram passando e as coisas alteraram-se: acabaram-se as visitas da Páscoa, desapareceu a cruz da rua, apareceram muitos coelhos de chocolate, fazem-se caças aos ovos nos jardins como os nossos vizinhos mais para o norte da Europa, encomenda-se a comida no restaurante ou no supermercado do bairro e cumprimentamo-nos com votos de “Boa Pascoa” por SMS ou online… Este também é o meu tempo! Já vejo os meus netos daqui a cinquenta anos a lembrarem estes dias e a sentirem a mesma nostalgia que eu sinto agora.

Marília Pinho

Comentários

A Páscoa é assumida pelos cristãos – não sei se por todos os grupos – como a festa mais importante do cristianismo.
Ao meu cristianismo laico não ofende esta visão ingénua, própria de uma mítica simplicidade de aldeia, com que brinca Teixeira de Pascoaes. E que certamente não seria a sua. Já o mesmo não digo – na linha de pensamento de Anselmo Borges – da dimensão infantilizada a que a igreja – com destaque e responsabilidade para a sua hierarquia – ao longo dos seus dois milénios de história reduziu o cristianismo e a sua “Páscoa”.
nelson

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