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A Casta

       Nalgum momento, face a uma ou outra intervenção pública de Francisco Louçã, que me pareceu de registo mais cordato, terei sido acometido pelo fantasma da “cadeira”; e dar comigo a interrogar-me: será que o assento no Conselho de Estado estará a amolecer o Louçã? Logo agora, que todos são cada vez menos e se avizinham maus tempos? – e murmurei, para comigo mesmo, mais uns quantos “raios e coriscos”.

       A habitual rubrica do Expresso (30-12-2022) – O Estado da Noção – veio sossegar-me. E, se alguma vez fiz eco público das minhas dúvidas, aqui deixo o meu mea culpa. Pode ler-se no semanário, com o título “Casos e casinhos, ou como ser governado por uma casta”, a propósito do rosário de casos “Alexandra Reis” que os diversos executivos têm vindo a desfiar ao longo dos anos, sem pausa entre duas Ave Marias. No princípio era… o princípio:

“(…) Malgrado a polémica historiográfica, vou tomar como aceitável a tese de que a emergência da burguesia moderna se fez em Portugal, ao longo do século XIX, ancorada numa aliança entre o capital comercial e a propriedade fundiária, sob a tutela do Estado. (…)”

       (Não sei se não terá sido ao contrário: O Estado sobe a tutela de uma aliança entre o capital comercial e a propriedade fundiária … etc., etc., etc.. Mas sobre isso, os especialistas que se entendam).

       Excetuando os arremedos da República, ou mais tarde do 25 de Abril, mantemo-nos ainda no … princípio. E Louçã continua certeiro:

“(…) Deixando o nevoeiro sempre capitoso destes casos, proponho-vos a tese de que isto não é o resultado de erros ocasionais, é antes a prova da natureza do nosso regime social, o resultado de uma construção meticulosa de redes de poder, ou de como uma casta se incrustou no uso do Estado. Essa casta é o passado de Portugal e quer ser o nosso futuro.

       Confesso nunca ter consultado o dicionário para saber o significado exato da palavra casta, a havê-lo, e sempre que usei o termo fi-lo com o sentido flexível que as leituras, ao longo dos anos, criaram no meu espírito. Na pesquisa que fiz, a propósito do artigo de Francisco Louçã, e para este breve texto, a fim de precaver qualquer uso menos correto, deparei-me com um vasto campo polissémico que vai da casta das uvas e das características que cada uma confere ao tal precioso néctar, às diversas castas de gado das mais diversas espécies – bovino, suíno, caprino, etc.. E também à compartimentação social que caracteriza diversas sociedades do sudoeste asiático, com destaque para a indiana. Estou certo que não houve qualquer insinuação maldosa, relativa à ancestralidade do nosso Primeiro Ministro, na utilização do termo por Louçã. Por mim, nunca tinha pensado no assunto, mas não descarto, de ânimo leve, a possibilidade de um qualquer distante meme, adquirido por insondável processo de aculturação.

       Mas em frente. Para aprofundamento do estudo do sistema de vasos comunicantes, que Francisco Louçã descreve, abreviadamente, como um trajeto partido-Governo-empresas, somos remetidos para o livro “Os Burgueses”, da sua autoria, em parceria com mais dois colegas – João Teixeira Lopes e Jorge Costa. Não conheço a obra mas vou lê-la.

       Voltarei aqui com a casta, designação que também utilizo com o sentido que suponho em Louçã. Daqui em diante, com o conforto da sua solidariedade semântica.

nelson anjos

Comentários

Unknown disse…
Habituada que estou a ler nas tuas letras a palavra «casta» aplicada a senhores governantes, sempre a interpretei na família semântica das diversas espécies de animais (perdoem-me os ditos).

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