Morreu
Julian Bream, (…) músico britânico que levou o violão além de suas raízes
espanholas e ajudou a reavivar o alaúde como um instrumento de concerto
moderno.
(Allan Kozinn, “Folha de São Paulo”, 15 de Agosto de
2020)
Fallecido
a los 87 años, fue el principal continuador del legado de Andrés Segovia e
inspiró a una generación de laudistas
(Pablo
L. Rodriguez “El País”, 18 de Agosto de 2020)
La
guitare perd l'un de ses plus grands alliés dans le monde de la musique
classique. Julian Bream, talentueux musicien britannique est décédé
(“Le
Figaro”, 18 de Agosto de 2020)
Concertista
brillante, attivissimo e versatile era apprezzato per la vivacità e la
ricchezza delle sue interpretazioni di un repertorio che copriva 4 secoli dal
1500 ai contemporanei
(“Il
Giornale d’Italia”, 18 de Agosto de 2020)
Britain
had to wait a long time for its great classical guitarist. But the debut at the
Wigmore Hall, London, in November 1951 of Julian Bream proclaimed the arrival
of a seminal figure in the history of the instrument, not just in Britain, but
around the world.
(
“The Guardian”, 15 de Agosto de 2020)
O que têm em comum todas as citações
que antecedem este texto? O mais evidente é que todas se referem à morte, em
Agosto deste ano, de Julian Bream, um dos mais proeminentes guitarristas
clássicos do século XX, ou se preferirmos, sem qualquer exagero, de toda a
história da guitarra clássica. Agora, para os menos atentos, o que estas
citações partilham entre si, é o facto de nenhuma ter origem no país onde, por
acaso, foi construída aquela que é considerada a mais antiga guitarra que tenha
sobrevivido até aos nossos dias. Falo de uma guitarra construída por volta de
1590 em Lisboa, autoria de um luthier português de seu nome Belchior Diaz.
Muito
me teria aprazido incluir uma citação de um meio de comunicação português entre
as notícias provenientes de todo o mundo, dando conta da morte de uma figura
cuja importância é comparável a qualquer gigante de qualquer área do
conhecimento, das artes, do desporto, da política… Enfim, morreu um génio, e eu
pergunto se nesta terra, que tanto se orgulha do seu cosmopolitismo saloio das
Web Summits e outras parolices, não há um jornal ou uma estação de televisão
que faça a mais insignificante referência ao facto de tal figura ter
desaparecido. Não, não há.
Belchior
Diaz ficaria abismado. Vindo de uma época em que Portugal era um ponto central
do comércio, da ciência e da cultura, uma terra em que o próprio Belchior era
“só mais um” extraordinário artesão a viver e a trabalhar em Lisboa,
construindo instrumentos de uma beleza e qualidade do melhor que se fazia na
Europa à época, se por artes mágicas chegasse ao nosso tempo, acharia estranho
que num mundo mil vezes mais globalizado do que o mundo do Renascimento,
nenhuma publicação desta terra mencionasse a morte de uma personalidade de tal
relevo.
Não
quero ser insultuoso para aqueles que, ao lerem este texto, estejam pela
primeira vez a ouvir falar de Julian Bream. Afinal vivemos todos neste país, e
certamente que também me foge o conhecimento sobre personalidades de áreas que
não domino. Simplesmente, apreciaria que os media portugueses deixassem
de alimentar o povo com uma dieta à base de Cristiano Ronaldo e Cristina
Ferreira, e dessem outra atenção àqueles que escolheram não se render ao fácil
e ao vulgar.
Sobre
Julian Bream, e aquilo que ele significa para a música do século XX, uns
parágrafos não chegam. Convido-vos a ouvir e a ler sobre o mestre o mais
depressa que possam. Termino com as palavras com as quais Leo Brouwer (outro
gigante) principia o seu texto de homenagem: “For music lovers (…) sadness has
arrived today. The great Julian Bream is dead.”

Comentários
nelson anjos
Já da tal dieta reclamo dela sempre que posso. Falo não só do Ronaldo e da Cristina Ferreira, mas do futebol e da televisão em geral. De tal modo que à custa disso desenvolvi uma certa alergia, nomeadamente ao futebol, que tem vindo a piorar a cada dia que passa. Começando pelos “hooligans” e pelas claques (veja-se o terrorismo de Alcochete), passando pelos casos de corrupção de tudo e de todos e finalizando nos salários muito acima de absurdos, num país paupérrimo, em que o salário mínimo é 600,00€ e onde continua a haver muitos milhares de pessoas e famílias em pobreza extrema, em alguns casos ainda a passarem fome em certas zonas do Alentejo interior.
A verdade é que as pessoas vêem estes conteúdos e são adeptas deste futebol porque por ignorância ou por interesse de quem os produz, ou por ambos, nunca lhes souberam e quiseram dar outros.
Não é um fenómeno exclusivo do nosso país, passa-se um pouco por todo o mundo. Mas se na televisão a tendência é perder audiências, havendo já quem lhe anuncie um fim próximo, devido aos conteúdos disponibilizados pela internet, grande parte das vezes muito piores e mais perigosos, já no futebol é ao contrário, o cenário tem-se vindo a agravar e está para durar, cada vez com mais presença e impacto. Por exemplo fala-se, o que a ser verdade é deveras preocupante, que a eleição de um certo comentador televisivo de futebol a deputado da república, se deveu sobretudo à massa associativa e aos simpatizantes de um determinado clube de futebol. Pessoalmente, por aquilo que me é dado observar, não me admiraria nada que houvesse alguma verdade nesta afirmação, o que, repito, é realmente muito preocupante.
Quinteiro
Cecília Pedro