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Quando os Cães não Ladram

      “(…) José Calixto é presidente da Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz, da Agência de Desenvolvimento Regional do Alentejo, da Rede Europeia de Cidades do Vinho, da Associação Transfronteiriça Lago Alqueva, do conselho directivo da Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central, do conselho fiscal da Fundação Alentejo, da assembleia geral dos Bombeiros Voluntários de Reguengos de Monsaraz, da mesa da assembleia geral da Federação de Bombeiros Voluntários do Distrito de Évora e, claro está, do conselho de administração da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, dona do lar de Reguengos, onde morreram 17 pessoas. (…)”

(João Miguel Tavares, jornal “Público”, 22 de agosto de 2020)

 

       “(…) O PS, bem o sabemos, tem uma longa tradição na arte de distribuir “jobs for the boys”, de alimentar a criação de redes familiares na administração pública e de alicerçar o seu poder através de laços tribais (…)”.

      "(…) O problema do devorismo dos partidos é um problema sério que devia mobilizar uma discussão séria. Ele existe em todas as instâncias do Estado, embora se revele com maior crueza nas autarquias do interior, onde as assembleias municipais são facilmente domesticadas, onde não há escrutínio da imprensa e onde dizer mal do poder pode travar o acesso a empregos ou a negócios. (…)”

(Manuel Carvalho, jornal “Público”, 22 de agosto de 2020)

 

       “O caso de Reguengos conta a história do Portugal profundo. (…) E um poder central incapaz de confrontar os poderes locais despóticos de que se alimenta. (…)”

(Daniel Oliveira, Expresso, 29 de agosto de 2020)

 

        Mui Ilustre Alteza, Senhor das Terras de Reguengos e Monsaraz

        As notícias sobre os últimos acontecimentos havidos nessa parcela do reino, com mui afã trazidas pelos seus mensageiros, deixaram, como podeis calcular, o meu pobre coração mergulhado no mais negro dos lutos. Não pelos velhos que morreram. Velhos há muitos! A razão da minha profunda tristeza é o facto de não existirem já, por essas terras, fidalgos como antigamente, por quem possais distribuir as árduas tarefas que envolvem o mui nobre e pesado fardo da governança. Onde já se viu, um único súbdito de El-Rei Nosso Senhor, por Vontade de Deus, ter de arcar sobre os seus sacrificados ombros até com tarefas de Bombeiro? Ai terra, terra! – que, de glória, sobra-te apenas a do passado…

        Sabei, Alteza, que pelas invictas terras de Miranda e Corvo que por vontade de El-Rei me couberam, a velha ordem se mantém, guardada com a honra e a nobreza próprios da nossa ilustre linhagem. Espero que a notícia lhe leve algum alento. Temos de tudo: condes, marqueses, duques, e, graças sejam ao Divino, nem cortesãs nos faltam. Temos ainda lacaios, pajens, escravos das mais exóticas proveniências e bobos em abundância. Muito embora, nem tudo é perfeito. Pelo lado do clero vão-se fazendo ouvir algumas queixas. Falta de vocações, falta de dinheiro para flores e velas, sotainas rotas a arrastar penosamente o peso dos anos, para não falar já da ausência de raparigas jovens nas missas, para alegrar a alma e alimentar as fantasias da carne. Enfim… não se pode ter tudo. Os homens de armas também já não são o que eram. Frente ao inimigo limitam-se a uns esgares burlescos, mas jamais passam a atos. A espada é curta e o arco é frouxo. Recorrem à língua para disfarçar insuficiências.

              E o Povo? – tal como aí, cá vai andando. Num sono conformado e de bico calado. Que os empregos e o “subsídio de silêncio” – quer dizer, o ordenado – estão difíceis. Em tempos ainda andou por aí um tal Lopes-Graça – um perigoso agitador social dado à música, – a clamar “Acordai!”; mas aqui preservamos a cultura do “bebemos do mesmo copo/ comemos do mesmo prato/ É uma casa portuguesa com certeza”. E nem sequer os cães do canil ladram, temendo perderem o subsídio para a ração.

De El-Rei que Deus guarde, creia-me Vossa Alteza um fiel servidor

(Barão de Miranda e Corvo, amantíssimo de órfãos, viúvas e pobrezinhos)

nelson anjos

Comentários

Pedro Mendes disse…
"O espírito do homem é feito de maneira que lhe agrada muito mais a mentira do que a verdade. Fazei a experiência: ide à igreja, quando aí estão a pregar. Se o pregador trata de assuntos sérios, o auditório dormita, boceja e enfada-se, mas se, de repente, o zurrador (perdão, o pregador), como aliás é frequente, começa a contar uma história de comadres, toda a gente desperta e presta a maior das atenções.
Como é fácil essa felicidade! Os conhecimentos mais fúteis, como a gramática por exemplo, adquirem-se à custa de grande esforço, enquanto a opinião se forma com grande facilidade, contribuindo tanto ou talvez mais para a felicidade. Se um homem come toucinho rançoso, de que outro nem o cheiro pode suportar, com o mesmo prazer com que comeria ambrósia, que tem isso a ver com a felicidade? Se, pelo contrário, o esturjão causa náuseas a outro, que temos nós com isso? Se uma mulher, horrivelmente feia, parece aos olhos do marido semelhante a Vénus, para o marido é o mesmo do que se ela fosse bela. Se o dono de um mau quadro, besuntado de cinábrio e açafrão, o contempla e admira, convencido de que está a ver uma obra de Apeles ou de Zêuxis, não será mais feliz do que aquele que comprou por elevado preço uma obra destes pintores e que olhará para ela talvez com menos prazer?"

Erasmo de Roterdão, in "Elogio da Loucura" (fala a Loucura)
Bom, agora fiquei a pensar... É para escrever um texto inédito, observações relativas a leituras ou partilhar artigos já escritos?
Pedro Mendes disse…
Cecília, o excerto que transcrevi vai de encontro à ideia que o Nelson pretende expor no texto.
Rita Anjos disse…
... e já agora também para escrever coisas que só conhecemos porque foram ditas e repetidas... cão que ladra não morde... os cães ladram e a caravana passa... Abençoada sabedoria popular! Já que hoje em dia muitos cães ladram baixinho, raramente mordem, e as caravanas a passar fazem engarrafamentos diários... olha lá a porta do Banco de Portugal... a Assembleia da República...
Quinteiro disse…
Atendendo ao sabor medieval do texto, pareceu-me que um comentário em rima estaria adequado:

“QUANDO OS CÃES NÃO LADRAM”

Visteis ladra a ladrar?
Ou ladrará o ladrão?
Não, quem ladra é o cão
Se algo o perturbar.

Não lhes troqueis os papeis,
O cão é para ladrar,
O ladrão para roubar…
O resto já vós sabeis.

Vinde meninos e mães,
Dizei tudo, bem ou mal…
Nunca será bom sinal
Quando não ladram os cães

Rogo-vos que reajam,
Que digam “eu também vi”…
Ninguém quer estar aqui
Quando os cães não ladram.

Quinteiro
Isto está o máximo! Estava a contar ler no fim do poema, "Alexandre O´neil". Ou por aí próximo.

nelson anjos

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