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A ORAÇÃO DA MESTRA


Senhor! Tu que ensinaste, perdoa que eu ensine; que leve o
nome de mestra, que Tu levaste pela Terra.

Dá-me o amor único de minha escola; que nem a queimadura da
beleza seja capaz de roubar-lhe minha ternura de todos os instantes.

Mestre, faz-me perdurável o fervor e passageiro o desencanto.
Arranca de mim este impuro desejo de justiça que ainda me perturba, a
mesquinha insinuação de protesto que sobe de mim quando me ferem.
Não me doa a incompreensão nem me entristeça o esquecimento das que ensine.

Dá-me o ser mais mãe que as mães, para poder amar e defender
como elas o que não é carne de minha carne. Dá-me que alcance
a fazer de uma de minhas crianças meu verso perfeito e a deixar-lhe
cravada minha mais penetrante melodia, para quando meus lábios não cantem mais.

Mostra-me possível teu Evangelho em meu tempo, para que não
renuncie à batalha de cada dia e de cada hora por ele.

Põe em minha escola democrática o resplendor que se discernia sobre
tua roda de meninos descalços.

Faz-me forte, ainda em meu desvalimento de mulher, e de mulher pobre;
faz-me desprezadora de todo poder que não seja puro, de toda pressão
que não seja a de tua vontade ardente sobre minha vida.

 

 GABRIELA MISTRAL

Nasceu a 07 Abril 1889
(Vicuña, Chile)

Morreu em 10 Janeiro 1957
(Hempstead, Nova Iorque, EUA)

Gabriela Mistral, pseudónimo escolhido de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, foi uma poetisa, educadora, diplomata e feminista chilena, agraciada com o Nobel de Literatura de 1945

 


 Presuntos com olhos

 Tive um professor de linguística, no curso de Professores do 1º ciclo do ensino básico (que saudades da definição «professora primária»… a primeira professora), que, sabendo que eu trabalhava já nessa altura como docente, me perguntou:

- Diga lá honestamente, as suas colegas educadoras, não são todas uns presuntos com olhos?

Oh meu querido e saudoso professor Humberto, eu nem acredito em Deus nem nada, mas rezo fervorosamente esta oração, muitas vezes no ano letivo, na esperança de me manter eternamente aluna dentro da sala onde sou professora.  Na tentativa de ter olhos e nariz e boca e mãos e ouvidos alerta. Procurando contagiar e contagiar-me dos cérebros pensantes e curiosos da minha roda de meninos.

Mas preciso confessar que sim, muitos docentes são de facto presuntos com olhos. E nem preciso estar dentro da escola para o constatar. Basta-me ter filhos na escola, basta-me ver notícias no jornal, basta-me ir a uma conferência destinada a professores. Basta andar com atenção.

Por mais fácil que seja a auto defesa invocando os maus ordenados, os péssimos programas de ensino, os terríveis concursos de colocação, as desastrosas condições do parque escolar… nada justifica a postura do professor, que vê nos alunos mais um objeto de trabalho. Nada justifica que esses alunos sejam tratados como menos do que aquilo que primeiramente são: pessoas.

O professor que não procura o «perdurável fervor e passageiro desencanto» não é mais que vizinha coscuvilheira. O professor que não assume o seu papel na sua «escola democrática», não passa de uma hiena faminta. O professor que não quer «ser mais mãe que as mães» infelizmente é um presunto com olhos.

Rita Anjos

Comentários

O texto de Gabriela Mistral é denso e não suportaria facilmente abordagens ligeiras ou brincalhonas, ainda que de um impúdico cristão secular e, quanto ao mais, agnóstico. Voltarei a ele.
Por agora aproveito a boleia da Rita - o humor também é um assunto profundamente sério - para referir que, apesar de tudo, mais vale um "presunto com olhos" que "um calhau com olhos". Ora, o presunto, tirando os olhos, sempre se come! (Claro que também se pode comer o presunto com os olhos!).
Por outro lado a Rita incorre também numa indisfarçável manifestação de misandria: o professor perguntou-lhe se "as suas colegas educadoras" não eram todas uns presuntos com olhos e, no fim seu texto, com "pézinhos de lã", a Rita conjuga no masculino: "o professor que (...) (...) (...) é um presunto com olhos". Aqui fica para já o meu indignado protesto. Voltarei.

nelson anjos
Rita Anjos disse…
Se no Homem com H grande
Cabe o homem, a mulher, o senhor,
Escreveria de bom grado
O Pê grande no professor.
Mas um professor presunto
O Pê grande não merecia.
É apenas uma minúscula
Não confundir com misandria!
Aos professores é dada uma grande missão: ensinar! Muitas vezes terem de ensinar coisas básicas, que não são habituais no meio familiar, se pensarmos no século passado, ou em outras partes do Mundo. Da escola primária guardo más memórias; mas foi a base para outros patamares de ensino. Mas de toda a fase: 1º e 2ºciclo, 3º, 4º 5º ano, 1º e 2º ano complementar( antigo 7º ano do liceu), ficou bem impressa a marca da minha professora de Matemática. Com ela naveguei pelos números e aprendi a sua lógica. Apesar de hoje, olhar para os cadernos e não perceber 'patavina' do que está nas suas páginas! O que é certo, é que me levou sempre no meu trabalho a fazê-lo com lógica, precisão e a fazer as coisas com método. Sendo ou não crente na existência Divina, os princípios 'morais', ou mesmo a sensibilidade humana, exige que sejamos mentores de uma comunhão universal, para o bem de todas as comunidades. Existem Mulheres e Homens que fazem toda a diferença na sociedade. Outros na base, fazem, mas muitas vezes silenciosamente. Obrigada Rita pela partilha do texto, o qual apreciei a leitura.

Cecília Pedro
correção; Outros na base fazem-no muitas vezes silenciosamente.

Cecília Pedro
“Após meio século de atividade docente em numerosos países e sistemas de ensino superior, apercebi-me da minha crescente incerteza quanto à legitimidade e às verdades fundamentais desta “profissão”. ”
George Steiner inicia assim a Introdução do seu livro “As Lições dos Mestres”. Trata-se de uma abordagem a um conjunto de aspetos centrais presentes no processo ensinar/aprender. Entre outros, a relação mestre/discípulo, que o autor entende tratar-se de uma relação de poder. O uso da memória, desvalorizada em diversos modelos pedagógicos, é outro aspeto tratado por Steiner no processo de aprendizagem. É lembrado – e vem a propósito do texto de Gabriela Mistral – o caso de Jesus de Nazaré, mas também de Sócrates (o outro), que nunca passaram a escrito os seus ensinamentos. O autor ironiza sobre esta situação lembrando mesmo uma anedota corrente nos meios académicos, sobre a inaptidão de ambos para a docência universitária: “nunca publicaram nada”.
Outro aspeto extremamente interessante que Steiner trás a discussão refere-se à forma como foi percepcionada, ao longo da história, a eficácia das estruturas de ensino: escolas e professores. Sobre as primeiras lembra Nietzsche, a quem chama o universitário anti-universidade por excelência. E quanto aos professores lembra o desdém com que Goethe os “considerava”: “Aquele que sabe faz. Aquele que não sabe ensina”. Acrescentando ainda o que atribui a alguns espíritos mais maldosos: “Aquele que não sabe ensinar, ensina nas escolas”. (Este Goethe era mesmo mauzinho, arre! …)
Aqui se deixa a recomendação da leitura, essencialmente a professores.
nelson anjos
Regresso à dúvida de Steiner: “(…) apercebi-me da minha crescente incerteza quanto à legitimidade e às verdades fundamentais desta “profissão”. ”
George Steiner morreu à cerca de um ano. Terá portanto convivido ainda com o essencial do saber mais recente acerca das ciências da vida: biociências, genética. Para o que nos interessa, por exemplo que os homens não nascem iguais e que, para além do testemunho genético recebido através do espermatozoide do pai e do óvulo da mãe, dos maiores ou menores solavancos sofridos a bordo do útero desta, serão tatuados a partir dos primeiros momentos de berço com a marca da envolvente social onde acabam de chegar. Para sempre. Mesmo que mundividências e caminhos possam posteriormente conduzir a mesa de pratas e cristais, aquele que nasceu em berço de tábuas transportará para sempre consigo esse ADN social de origem. Numa miríade de histórias e casos com que o mestre se irá confrontar no ato de ensinar. De forma standardizada, num universo de diferenças. E onde se confrontará também com os seus próprios limites.
Ensinar o quê? – a dar respostas, entendem uns. A fazer perguntas, defendem outros. Seja como for, fazem sentido quer o hino de Gabriela quer a dúvida de Steiner.
nelson anjos
Rita Anjos disse…
É indiferente o que se ensina. O professor pode rever estratégias e métodos para se esmerar a ensinar o que é «misandria», mas o aluno só irá aprender quando precisar de desvendar o significado!
Ensinar vai sempre depender da vontade de aprender, e aí reside a magia que o professor faz: pode ensinar apenas o que é do interesse do aluno; pode tornar apetecíveis os conteúdos; pode proporcionar experiências promotoras de aprendizagens...
Para que exista ensino, tem que acontecer aprendizagem. Mas para acontecer aprendizagem pode haver, ou não, o ensino... o Professor é absolutamente dispensável!
marilia Pinho disse…
Fui professora no ensino superior por 3 anos e depois larguei esse mundo para me dedicar ao que viria a ser a minha vida. Confesso que o fiz com algum alívio pois, apesar de não desgostar de todo, a minha alma nunca foi de professora…
Mas, a partir daí, fiquei uma admiradora incondicional daqueles que nascem para serem professores e são quase tudo aquilo que a Gabriela Mistral pede na sua oração.
Tive a sorte de encontrar alguns pela frente e também de ter sido bafejada pela sorte de uma excecional professora primária ter salvo o percurso académico da minha filha mais nova. Ultimamente acompanhei as aulas on-line dos meus netos em tempo de pandemia espreitando para a sua sala de estudo e ouvindo-os. Posso ser mesmo daquelas pessoas que veem sempre o copo meio cheio, mas achei-os tão dedicados, tão assertivos, tão próximos dos alunos apesar da distância, tão bem preparados que voltei a ficar rendida.
Ó Rita! “Presuntos com olhos”!!!? Se assim o diz, é porque os há…mas espero que sejam muito poucos!
Rita Anjos disse…
Marília, um é demais!
Quinteiro disse…
Esta daria pano não só para mangas mas para um enxoval inteiro. Estou absolutamente convencido de que muitos dos males económicos e sociais que nos afligem nos dias de hoje se devem sobretudo a um défice enorme de educação. Mas concentremo-nos neste ponto, os mestres, só para tentar reforçar o que já foi dito no texto da Rita e comentários.

Nos professores acontece o mesmo que em todos os outros misteres, há os muito bons, os muito maus e uma infinidade de competências entre estes dois extremos.

Eu fui bafejado pela sorte, o meu professor primário era dos muito bons. E todos sabemos como é importante (facilitante) para a nossa aprendizagem futura que os primeiros anos de escola sejam proveitosos e cativantes, que nos transmitam essencialmente que é fácil saber, é fácil aprender. É indubitável que o rigor e a exactidão da informação que se transmite é de extrema importância, mas a forma como se transmite, como se leva o aluno a querer aprender, é tão ou mais importante.

Conseguir passar (aplicar) essa visão da escola e da aprendizagem não é fácil e nem todos o conseguem fazer. É preciso uma certa vocação e sobretudo muito empenho. Todos nós tivemos professores e sabemos que alguns deles não tinham nem uma coisa nem outra.

Quinteiro

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