A FÁBRICA
DE CRETINOS DIGITAIS
Segue nas linhas abaixo o artigo completo retirado da BBC NEWS WORLD
sobre o mais recente livro do neurocientista Michel Desmurget, “A Fábrica de
cretinos digitais”, tendo como enfoque a primeira geração, desde que há testes,
que possui um QI inferior ao dos pais.
Não li o livro, mas a simples leitura deste artigo causa-nos, no mínimo,
alguma apreensão. Vem-nos imediatamente à cabeça a pergunta: será que isto é
pontual, é só esta geração, ou estamos perante um ponto de viragem, o início de
um qualquer processo de declínio? Sabemos que a evolução da humanidade em todos
os sentidos, o intelecto como o mais marcante, nunca foi uma progressão linear,
teve sempre altos e baixos ao longo de toda a história. E todos sabemos também
o que isso acarretou em termos de bem ou mau estar para as sociedades e para os
indivíduos. O próprio autor, lembrando o “Admirável Mundo Novo” de Aldous
Huxley, avança com um cenário futuro possível se entretanto não houver a
correcção necessária no uso do digital.
Quinteiro
Geração
digital': por que, pela 1ª vez, filhos têm QI inferior ao dos pais
- Irene Hernández
Velasco
- Especial para BBC
News Mundo
30 Outubro
2020
Vários
estudos têm mostrado que, quando o uso de televisão ou videogame aumenta, o QI
diminui, afirma o neurocientista Michel Desmurget
A Fábrica de Cretinos Digitais. Este é o título do último livro do neurocientista
francês Michel Desmurget, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da
França, em que apresenta, com dados concretos e de forma conclusiva, como os
dispositivos digitais estão afetando seriamente — e para o mal — o
desenvolvimento neural de crianças e jovens.
As evidências são palpáveis: já há um tempo que o testes de QI têm apontado
que as novas gerações são menos inteligentes que anteriores.
Desmurget acumula vasta publicação científica e já passou por centros de
pesquisa renomados como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a
Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.
Seu livro se tornou um best-seller gigantesco na França. Veja abaixo
trechos da entrevista com ele.
BBC News Mundo: Os jovens de hoje são a primeira geração da história com um
QI (Quociente de Inteligência) mais baixo do que a última?
Neurocientista Michel Desmurget acredita que infância de hoje está exposta a uma "orgia digital"
E, ao fazer isso, os pesquisadores observaram em muitas partes do mundo que
o QI aumentou de geração em geração. Isso foi chamado de 'efeito Flynn', em
referência ao psicólogo americano que descreveu esse fenômeno. Mas
recentemente, essa tendência começou a se reverter em vários países.
É verdade que o QI é fortemente afetado por fatores como o sistema de
saúde, o sistema escolar, a nutrição, etc. Mas se considerarmos os países onde
os fatores socioeconômicos têm sido bastante estáveis por décadas, o 'efeito
Flynn' começa a diminuir.
Nesses países, os "nativos digitais" são os primeiros filhos a
ter QI inferior ao dos pais. É uma tendência que foi documentada na Noruega,
Dinamarca, Finlândia, Holanda, França, etc.
BBC News Mundo: E o que está causando essa diminuição no QI?
Os principais alicerces da nossa inteligência são afetados: linguagem,
concentração, memória, cultura (definida como um corpo de conhecimento que nos
ajuda a organizar e compreender o mundo). Em última análise, esses impactos
levam a uma queda significativa no desempenho acadêmico.
BBC News Mundo: E por que o uso de dispositivos digitais causa tudo
isso?
BBC News Mundo: Que dano exatamente as telas causam ao sistema
neurológico?
Observou-se que o tempo gasto em frente a uma tela para fins recreativos
atrasa a maturação anatômica e funcional do cérebro em várias redes cognitivas
relacionadas à linguagem e à atenção.
Deve-se ressaltar que nem todas as atividades alimentam a construção do
cérebro com a mesma eficiência.
BBC News Mundo: O que isso quer dizer?
Mas nada dura para sempre. O potencial para a plasticidade cerebral é
extremo durante a infância e adolescência. Depois, ele começa a desaparecer.
Ele não vai embora, mas se torna muito menos eficiente.
O cérebro pode ser comparado a uma massa de modelar. No início, é úmida e
fácil de esculpir. Mas, com o tempo, fica mais seca e muito mais difícil de
modelar. O problema com as telas é que elas alteram o desenvolvimento do
cérebro de nossos filhos e o empobrecem.
BBC News Mundo: Todas as telas são igualmente prejudiciais?
Os alunos devem aprender habilidades e ferramentas básicas de informática?
Claro. Da mesma forma, pode a tecnologia digital ser uma ferramenta relevante
no arsenal pedagógico dos professores? Claro, se faz parte de um projeto
educacional estruturado e se o uso de um determinado software promove
efetivamente a transmissão do conhecimento.
Porém, quando uma tela é colocada nas mãos de uma criança ou adolescente,
quase sempre prevalecem os usos recreativos mais empobrecedores. Isso inclui,
em ordem de importância: televisão, que continua sendo a tela número um de
todas as idades (filmes, séries, clipes, etc.); depois os videogames
(principalmente de ação e violentos) e, finalmente, na adolescência, um frenesi
de autoexposição inútil nas redes sociais.
Uma criança de 2 anos passa quase três horas por dia em frente às telas, em média
Isso significa que antes de completar 18 anos, nossos filhos terão passado
o equivalente a 30 anos letivos em frente às telas ou, se preferir, 16 anos
trabalhando em tempo integral!
É simplesmente insano e irresponsável.
BBC News Mundo: Quanto tempo as crianças devem passar em frente a
telas?
Alguns estudos mostram que é mais fácil para crianças e adolescentes
seguirem as regras sobre telas quando sua razão de ser é explicada e discutida
com eles. A partir daí, a ideia geral é simples: em qualquer idade, o mínimo é
o melhor.
Além dessa regra geral, diretrizes mais específicas podem ser fornecidas
com base na idade da criança. Antes dos seis anos, o ideal é não ter telas (o
que não significa que de vez em quando você não possa assistir a desenhos com
seus filhos).
Quanto mais cedo forem expostos, maiores serão os impactos negativos e o
risco de consumo excessivo subsequente.
A partir dos seis anos, se os conteúdos forem adaptados e o sono
preservado, o tempo em frente a tela pode chegar até meia hora ou até uma hora
por dia, sem uma influência negativa apreciável.
Outras regras relevantes: sem telas pela manhã antes de ir para a escola,
nada à noite antes de ir para a cama ou quando estiver com outras pessoas. E,
acima de tudo, sem telas no quarto.
Mas é difícil dizer aos nossos filhos que as telas são um problema quando
nós, como pais, estamos constantemente conectados aos nossos smartphones ou
consoles de jogos.
BBC News Mundo: Por que muitos pais desconhecem os perigos das telas?
Mas não é surpreendente. A indústria digital gera bilhões de dólares em
lucros a cada ano. E, obviamente, crianças e adolescentes são um recurso muito
lucrativo. E para empresas que valem bilhões de dólares, é fácil encontrar
cientistas complacentes e lobistas dedicados.
Empresas digitais contratam especialistas para explicar como os jogadores inteligentes são e como é bom jogar videogame
Recentemente, uma psicóloga, supostamente especialista em videogames,
explicou em vários meios de comunicação que esses jogos têm efeitos positivos,
que não devem ser demonizados, que não jogá-los pode ser até uma desvantagem
para o futuro de uma criança, que os jogos mais violentos podem ter ações
terapêuticas e ser capaz de aplacar a raiva dos jogadores, etc.
O problema é que nenhum dos jornalistas que entrevistaram esse
"especialista" mencionou que ela trabalhava para a indústria de
videogames. E este é apenas um exemplo entre muitos descritos em meu livro.
Isso não é algo novo: já aconteceu no passado com o tabaco, aquecimento
global, pesticidas, açúcar, etc.
Mas acho que há espaço para esperança. Com o tempo, a realidade se torna
cada vez mais difícil de negar.
BBC News Mundo: Há estudos que afirmam, por exemplo, que os videogames
ajudam a obter melhores resultados académicos…
Essa ideia é uma verdadeira obra-prima de propaganda. Baseia-se
principalmente em alguns estudos isolados com dados imprecisos, que são
publicados em periódicos secundários, pois muitas vezes se contradizem.
Em uma interessante pesquisa experimental, consoles de jogos foram dados a
crianças que iam bem na escola. Depois de quatro meses, elas passaram mais
tempo jogando e menos fazendo o dever de casa. Suas notas caíram cerca de 5% (o
que é muito em apenas quatro meses!).
Em outro estudo, as crianças tiveram que aprender uma lista de palavras.
Uma hora depois, algumas puderam jogar um jogo de corrida de carros. Duas horas
depois, foram para a cama.
Na manhã seguinte, as crianças que não jogaram lembravam cerca de 80% da
aula em comparação com 50% das que jogaram.
Os autores descobriram que brincar interferia no sono e na memorização.
BBC News Mundo: Como o Sr. acha que os membros dessa geração digital
serão quando se tornarem adultos?
Vários estudos indicam que, ao contrário das crenças comuns, eles não são
muito bons com computadores. Um relatório da União Europeia explica que a baixa
competência digital impede a adoção de tecnologias educacionais nas escolas.
Vários países estão começando a legislar contra o uso das telas
Outros estudos também indicam que eles não são muito eficientes no
processamento e entendimento da vasta quantidade de informações disponíveis na
internet.
Então, o que resta? Eles são obviamente bons para usar aplicativos digitais
básicos, comprar produtos online, baixar músicas e filmes, etc.
Para mim, essas crianças se assemelham às descritas por Aldous Huxley em
seu famoso romance distópico Admirável Mundo Novo: atordoadas por
entretenimento bobo, privadas de linguagem, incapazes de refletir sobre o
mundo, mas felizes com sua sina.
BBC News Mundo: Alguns países estão começando a legislar contra o uso
de telas?
Na China, as autoridades tomaram medidas drásticas para regulamentar o
consumo de videogames por menores: crianças e adolescentes não podem mais
brincar à noite (entre 22h e 8h) ou ultrapassar 90 minutos de exposição diária
durante a semana (180 minutos nos finais de semana e férias escolares).
BBC News Mundo: O Sr. acredita que é bom que existam leis que protegem
as crianças das telas?
Acho que uma campanha de informação justa sobre o impacto das telas no
desenvolvimento com diretrizes claras seria um bom começo: nada de telas para
crianças de até seis anos de idade e não mais do que 30-60 minutos por dia.
BBC News Mundo: Se essa orgia digital, como você a define, não para, o que
podemos esperar?
Os alfas frequentarão escolas particulares caras com professores humanos
"reais". Já os gamas irão para escolas públicas virtuais com suporte
humano limitado, onde serão alimentados com uma pseudo-linguagem semelhante à
"novilíngua" de (George) Orwell (em 1984) e aprenderão as
habilidades básicas de técnicos de médio ou baixo nível (projeções econômicas
dizem que este tipo de empregos serão super-representados na força de trabalho
de amanhã).
Um mundo triste em que, como disse o sociólogo Neil Postman, eles vão se
divertir até a morte. Um mundo no qual, através do acesso constante e
debilitante ao entretenimento, eles aprenderão a amar sua servidão. Desculpe
por não ser mais otimista.
Talvez (e espero que sim) eu esteja errado. Mas simplesmente não há
desculpa para o que estamos fazendo com nossos filhos e como estamos colocando
em risco seu futuro e desenvolvimento.
Comentários
nelson
Em primeiro lugar há que igualar urgentemente os quocientes por que nos medimos (e ter em conta toda as cambiantes humanas imensuráveis). Não é justo medir apenas a inteligência quando sabemos que o ser humano cresce e se desenvolve nas dimensões social, emocional, criativa, ... Pareceu-me que o autor faz todo o desenvolvimento depender do QI e isso, parece-me, é extremamente redutor.
Em segundo lugar o recurso a experiências em que os jovens que usaram videojogos não foram capazes de decorar tantas palavras como os que não jogaram, vem dar a primazia ao "estudo/decoreba" que não é, de todo, o estudo útil, capaz de desenvolver destrezas e capacidades naquelas pessoas.
Em terceiro (não é último, mas para não me alongar) a distinção entre escolas públicas e privadas... as escolas são feitas por quem lá está dentro. Na escola privada os alunos poderão estar entregues a um presunto com olhos, um professor desinteressado e desinteressante ao passo que, mesmo com recursos escassos, na escola pública o professor retire todo o partido da arte de aprender. Esta distribuição de docentes entre público e privado é tão aleatória como a sorte dos alunos ao início de cada ano letivo quando conhecem os professores que lhes calharam.
Para rematar, é assustadora a renúncia de todos os educadores (pais, tios, irmãos, professores...) perante o gigante digital. É o equivalente aos pais que dão tudo o que as criancinhas pedem para não ter que as ouvir gritar, a mãe que não dá uma "nalgada" para o filho não chorar, o filho que escolhe comer fast food diariamente porque se assim não for não vai comer nada. Os educadores renunciaram à educação mas continuaram a produzir crianças.
Em última análise concordo que sim, vingará a máxima "felizes os ignorantes".