O ópio da “democracia” (mas … eu voto em ANA GOMES, de preferência de lábios vermelhos e salto alto)
“
(…) Para além de reduzir o peso de Marcelo como tutor inquestionado do regime,
o objetivo destas eleições será o de impedir que a
extrema-direita passe a ser o rosto da oposição, sentada num segundo lugar nas
presidenciais. (…)”
(Oliveira, Daniel (2020), Manifesto nº5, 2ª série)
Há já algum tempo que, em épocas de período
eleitoral – um dos serviços mínimos a que se encontra confinada a “democracia” –,
o dilema que se me coloca deixou de ser, não tanto em quem, ou em que partido
votar, mas antes, se votar em branco ou não votar. De facto, numa “democracia”
que se mantém com o tamanho com que nasceu, reduzida a uma estrutura
burocrática preenchida por formalidades e rituais, e onde os que deveriam ser os
seus principais protagonistas – os cidadãos – se encontram votados ao desemprego
cívico, não desempenha o voto outro papel que não seja o de droga. (Numa das
suas obras de referência – As Origens do Totalitarismo – Hannah Arendt defende
que a burocratização do poder conduz à despersonalização dos cidadãos e, como
consequência disso, ao totalitarismo. Mais ainda, que o regime totalitário,
muito embora o seu caráter criminoso, contou, em muitos casos ao longo da
história, com o apoio das massas.)
Com efeitos equivalentes aos que se manifestam
nos chamados toxicodependentes – períodos de euforia e satisfação alternando
com períodos de abulia, sonolência e ressaca – nas atuais condições o voto
desempenha, no corpo social, o papel de ópio, no mesmo sentido em que Marx
chamou à religião o “ópio do povo”. Onde a sequência dos ciclos eleitorais
configura o que corresponde aquilo que normalmente designamos por
toxicodependência. Quer sociedade quer indivíduo são iludidos por um falso
sentimento de liberdade. Mais ainda: tal como sucede com o comércio da droga,
propriamente dita – onde o vendedor é também muitas vezes simultaneamente
consumidor –, no caso do Estado tem-se vindo a assistir ao desenvolvimento progressivo
de fenómeno idêntico. A alienação, por parte do Estado, de um leque cada vez
maior de funções de administração, mas também políticas – conforme o faz notar
José Reis em entrevista publicada no nº5 da revista Manifesto (2ª série)
–, em favor de agentes estranhos, como o sejam Bruxelas, as multinacionais de
consultoria, os escritórios de advogados e o outsourcing em geral, circunscreve
cada vez mais o campo de escolha dos cidadãos a pormenores. Porque escolhas de
maior alcance, já nem ele próprio – Estado – dispõe de autonomia para fazer. A
sua droga é essa panóplia de interpostos sujeitos que o têm vindo a substituir.
Com o ritual eleitoral a colocar-se assim, não poucas vezes, ao nível da
pacóvia praxe académica de gosto kitsch.
Como se tal não bastasse, há ainda essa
ambiguidade macabra insinuada na palavra “urna” – caixa onde os eleitores
depositam o seu voto, mas também onde se acomodam os defuntos para a última
morada. Ou o óbito anunciado desta “democracia”. Nunca,
como nos tempos que correm, o folclore associado ao ritual eleitoral do voto,
despido do que lhe daria sentido e legitimidade efetiva – escolha feita por
cidadãos informados e, principalmente, implicados na construção dos caminhos
propostos a sufrágio – terá tido vizinhança tão próxima das cerimónias fúnebres.
(Por “cidadãos informados”, para o que interessa neste texto, entendo, como
mínimo, cidadãos que saibam o que são e capazes de distinguir as principais
correntes políticas – social democracia, liberalismo, socialismo, extrema
esquerda, extrema direita, democracia, ditadura – crise climática e economia
sustentável e ainda quais as origens e consequências das desigualdades sociais.
Coisa que, miseravelmente, quase meio século de “democracia” ainda não
conseguiu). Uma vez mais, nas mesas das secções de voto irão estar as “caras do
costume”, de sorrisos mornos e o ar conspícuo –, quais cangalheiros – que a
circunstância exige. Faltando apenas, para completar o cenário de casa
mortuária em dia de velório, o cheiro a cera das velas em combustão lenta. Tal
como a “democracia”.
A ala mais progressista do PS – manta de
retalhos onde nem todos os retalhos são de mau pano – beneficiaria de condições
favoráveis para arejar a casa de um bafio salazarista antigo. Quer autárquico
quer central. Uma vigorosa vassourada nuns quantos Salazares e Venturas
do “PS de interior”, e no lixo miúdo acumulado nas costuras – a clientela do
costume, a cunha rasca para o “empreguito” e outros favores, a fila de boys,
filhos e afilhados – seria, em minha opinião, o mínimo a exigir a quem queira
contar para o campo da esquerda. E seria também, neste início de ano, um desejável
“começar de novo”, como dizia Miguel Portas e cantava Simone. Enquanto
há vida há esperança. E se ao menos este programa mínimo fosse conseguido já
teria valido a pena a candidatura de Ana Gomes. E eu ter saído de casa.
Nelson Anjos
Comentários
Não tenho certeza e é difícil reunir provas, mas era capaz de jurar que 98% das salas de aulas deste país não ouviram falar sobre eleições presidenciais nas semanas que antecederam as ditas. E se de tal assunto se falou, terá sido para consolar as crianças e professores com um dia extra de férias na segunda-feira 25, "porque as mesas de voto vão estar aqui na escola e depois vai ser preciso um dia para arrumar isto tudo".
De facto a palavra "urna" é infeliz, mas retrata perfeitamente este modelo em que nem sequer se consegue dencantar o voto eletrónico...