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“O que, porém, mais completamente imprimia àquele gabinete um portentoso carácter de civilização eram, sobre as suas peanhas de carvalho, os grandes aparelhos, facilitadores do pensamento- a máquina de escrever, os autocopistas, o telegrafo Morse, o fonógrafo, o telefone, o teatrofone, outros ainda, todos com metais luzidios, todos com longos fios. Constantemente sons curtos e secos retiniam no ar morno daquele santuário. Tique, tique, tique! Dlim, dlim, dlim! Craque, craque, craque! Trrre, trrre, trrre !... Era o meu amigo comunicando. Todos esses fios mergulhados em forças universais transmitiam forças universais.”

Contos de Eça de Queiroz

 

 

A minha neta Mariana, 14 anos feitos em outubro, aluna do 9º ano, nas férias do Natal trouxe um dos contos de Eça para ler.

Com uma expressão de puro desânimo repetia várias vezes: Não sou capaz de ler isto, não sou capaz de ler isto, não sou capaz de ler isto… e pronto! lá vai a avozinha ajudar.

Sentadas junto à lareira num destes dias frios, dispus-me a provar-lhe que ela era capaz, sim, Senhor, e que até iria adorar lê-lo. Livro aberto cá vamos nós aterrar no conto “Civilização”. Tinha sido este o indicado pela professora. Apesar de já o ter lido há muito anos (tenho uma edição antiga provavelmente dos meus tempos de estudante) já não me recordava nada (nem precisava, pois ia lê-lo) e não foi difícil reconhecer logo no primeiro parágrafo: “Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome é Jacinto) que nasceu num palácio, com quarenta contos de renda em pingues terras de pão, azeite e gado”. Isso! Estávamos sobre o embrião de “A Cidade e as Serras”.

Mas logo aí, nestas palavras, a Mariana tropeçou: Quarenta contos de renda!? Pingues terras de pão, azeite e gado?! E fomos por aí fora devagarinho pois quase tudo era novidade para ela: Schopenhauer?! Eclesiastes?!... e ainda estávamos na primeira página.

Com o correr da tarde as coisas foram melhorando, não a dificuldade do texto para os seus 14 anos, mas conseguimos algum ritmo e chegámos ao fim das 33 páginas compreendendo o conto na sua essência: a valorização da natureza e da vida simples da aldeia em detrimento da vida civilizada e complicada das cidades (mensagem difícil de entender pelos nossos adolescentes cujas vidas giram à volta de telemóveis, smartphones, iPhones, tablets, iPads, playstations, colunas, auscultadores, auriculares, com fios, sem fios…)

Contudo, a minha surpresa é a escolha do conto: não pela sua qualidade que é indiscutível, mas pela dificuldade que os alunos têm em compreendê-lo necessitando de uma muleta. Aquilo que eu pensei que conseguiria caiu por terra: julgava eu que, depois desta leitura, as Marianas do 9º ano por este país fora iriam adorar a escrita de Eça mas, pelo contrário, sentem alívio pela missão cumprida e rezam para que não lhes caia outra igual em cima nos próximos tempos.

Poderei estar perante uma situação singular, mas não acredito.

 

Marília Pinho

Comentários

O testemunho da Marília sobre a experiência do primeiro encontro de Mariana com a escrita de Eça, tem algo em comum com o poste anterior do Quinteiro – A Fábrica de Cretinos Digitais. Num e noutro é evidente o clássico confronto – ou desencontro – de gerações, um fenómeno tão velho quanto a humanidade.
Há quatro mil anos atrás, algures em Ur, na longínqua Suméria, um jovem atravessava a toda a brida as ruas poeirentas da cidade, para impressionar as raparigas, num carro de duas rodas puxado por um cavalo. Um coro de vozes levantou-se: – “Esta juventude de agora não quer outra coisa senão andar de carro. Qualquer dia já nem sequer têm força nas pernas para andar a pé!”.
Pior ainda, como se tal não bastasse, para fazer contas esses jovens utilizavam uma “máquina de calcular”. Uma modernice da altura, constituída por esferas, chamada ábaco. Que apenas servia para dispensar o cérebro do esforço do cálculo. Como sempre, faziam orelhas moucas às advertências das avós: – “Olhem que assim, a fazerem tudo com o ábaco, qualquer dia já não sabem utilizar as tabuinhas de barro para fazer contas!” – Pois sim, tá bem abelha! Se tenho um moderníssimo ábaco, porque carga de água ei-de estar a esforçar a cabeça e, ainda por cima, a correr o risco de me enganar? – O mundo é como é.
Claro que eu também gosto de Eça. Dos “antigos” é o meu preferido. Logo seguido de Camilo e, mais para a frente, Aquilino. Mas apenas voltei a eles muitos anos mais tarde, depois da primeira leitura, feita pela obrigação de cumprir programas escolares. E depois de ter lido muitos outros. Talvez a Mariana, daqui a vinte anos, volte a lembrar-se de Eça. Ele merece e ela também.
A crítica aos Cretinos Digitais tem o abono científico da baixa do QI relativamente à geração anterior. Ainda assim, vale a pena refletir no seguinte: o QI é um coeficiente técnico, datado, definido na base de um conjunto de fatores valorizados no quadro da nossa civilização no seu estádio atual, para uso dela e nela. E amanhã poderá não ser assim. Um novo QI poderá valorizar outros aspetos, mais importantes para viver numa outra realidade.
Tenho consciência de ter acabado de fazer um exercício arriscado, normalmente designado por “advogado do diabo” 😊.

nelson
marilia Pinho disse…
Comecei a ler Eça aos 18 anos quando entrei para a faculdade (à exceção do texto que constava no livro de português do liceu “Alma Pátria -Pátria Alma”) e voltei a reler há meia dúzia de anos e desta vez não teve qualquer comparação possível. É preciso alguma maturidade para se absorver a sua escrita e tirar dela o gozo que merece.
Sobre os “velhinhos” também considero-o o melhor mas depois colocaria logo de seguida o Aquilino… são gostos!!!
Voltando à experiência da Mariana: Senti que ela não estava preparada para o texto e o meu receio é que tal a desanime. Parece-me que haveria outros contos mais fáceis como introdução e levaria ao gosto pela leitura. Não sei se foi escolha da sua professora ou se faz parte do program a nível nacional. Se for este o caso, certamente teremos muitos adolescentes desiludidos e frustrados por este país fora..
Rita Anjos disse…
As Marianas precisam de professores que lhes deem alternativas e lhes digam que daqui a dez anos o Eça vai ser o máximo e que daqui a vinte anos o Eça vai ser uma epifania!
Os programas indicam leituras e autores mas o professores podem e devem tornar esses conteúdos interessantes. Um professor que seja uma seca há de ser efetivamente uma seca a falar sobre videojogos, culinária, sexo, Eça ou qualquer outro assunto!
Valham-nos as avós com tempo e paciência...

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