O Sindicalismo
Português e a Nova Questão Social
O
livro ‘O
Sindicalismo Português e a Nova Questão Social’, organizado por Elísio
Estanque e Hermes Augusto Costa, representa um esforço de diálogo entre a
prática académica e a experiência quotidiana dos actores do mundo sindical.
Resulta do seminário com o mesmo título realizado na Faculdade de Economia da
Universidade de Coimbra em janeiro de 2008. Ao longo das três partes da obra é
colocado em debate o sindicalismo português, os problemas e desafios com que se
depara, e as suas estratégias perante a forte ofensiva neoliberal.
A
primeira parte – Abordagens teóricas e transformações sociais do sindicalismo –
compreende dois capítulos. No primeiro capítulo, Do enquadramento teórico do sindicalismo às respostas pragmáticas,
Hermes Augusto Costa detém-se primeiramente sobre o papel e a missão histórica
do sindicalismo. Dá conta das definições e papéis dos sindicatos e apresenta as
teorias, conceitos e tipologias existentes. Trata-se de uma síntese a partir da
qual é possível traçar o estado da arte da reflexão teórica sobre o
sindicalismo.
A
última parte do capítulo é dedicada às perspectivas do movimento sindical. Na
sua opinião, o estado actual do sindicalismo português pode ser aferido a
partir da confiança depositada nos sindicatos, dos sinais de renovação
efectivos e da influência dos sindicatos na sociedade. Identifica ideias-chave
para a reconfiguração do movimento sindical, dando especial destaque ao reforço
da capacidade organizativa dos sindicatos, sublinhando a necessidade de mais
democracia interna nestas estruturas e de serem fomentadas alianças duradouras
com outras organizações da sociedade civil, como é o caso dos movimentos socio-laborais.
No
segundo capítulo - Trabalho, sindicalismo
e acção colectiva: desafio no contexto de crise, Elísio Estanque refere um
conjunto de factores que têm um impacto particular nas relações de trabalho e
nos processos produtivos. Reflecte sobre a sociedade portuguesa e, situando-a
num contexto mais vasto de crise europeia e global, analisa as questões do
sindicalismo e da acção colectiva. Lança novos elementos para a discussão,
sublinhando o papel homogeneizador que a degradação do estatuto do emprego pode
desempenhar na configuração de novas identidades e na revitalização da acção
colectiva. Apresenta a hipótese que o actual contexto de crise pode,
“precisamente porque o sistema social tem horror ao vazio, galvanizar de novo
as multidões que se sentem ressentidas e desprotegidas” (pág. 61). Ressalta a
exigência de novas respostas sindicais, em rede e articuladas na escala
transnacional, e a necessidade de o sindicalismo reinventar-se a si próprio
como um sindicalismo de movimento social global, no interior do qual novos
actores e modos de ação inovadores encontram lugar.
A
segunda parte da obra – O sindicalismo
visto pelos sindicalistas – reúne os contributos de líderes sindicais e as
intervenções resultantes do debate realizado. Os dois primeiros textos – da
responsabilidade de Eduardo Chagas (Federação Europeia dos Trabalhadores dos
Transportes/ETF) e de Carlos Silva (ex-presidente do Sindicato dos Bancários do
Centro, atual líder da UGT) respetivamente – são uma síntese da perspectiva
sindical a partir de uma vertente sectorial: o sector dos transportes e o
sector bancário.
No
capítulo 3, Eduardo Chagas retrata alguns dos principais problemas e desafios
associados ao sector dos transportes, os constrangimentos com que se debate o
sindicalismo neste sector, reforçando a necessidade de encontrar respostas e
tomar iniciativas. Na sua perspectiva, a consolidação de um sindicalismo
transnacional é absolutamente prioritária para que haja capacidade de resposta
perante as exigências do mercado global.
No
capítulo 4, Carlos Silva fornece o seu testemunho sobre o papel do sindicalismo
de proposição no sector bancário, referindo-se ao sindicato dos bancários como
um caso particular que foge às tendências de decréscimo das taxas de
sindicalização. Atribui este facto à capacidade de reorganização que os
sindicatos deste sector têm vindo a demonstrar e que se reflecte numa maior
capacidade de afirmação e de negociação.
Os
capítulos 5 e 6 reúnem, respectivamente, os contributos dos secretários –
gerais das duas centrais sindicais portuguesas: a União Geral de Trabalhadores
(UGT) e a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP). No capítulo
5, João Proença (ex-UGT) dá ênfase à necessidade de humanização das relações
laborais. Sublinha as alterações nos processos de trabalho, nomeadamente as
múltiplas formas de contrato, o peso das multinacionais na economia e a pressão
que exercem no sentido da desregulação. Enfatiza a urgência da luta pelo
trabalho digno, no seio da qual a negociação colectiva desempenha um papel
central. Uma das suas maiores preocupações é a preservação do modelo social
europeu, quer em termos da defesa de direitos quer no que concerne à melhoria
da competitividade da economia e dos salários. À luz destas considerações
analisa a questão da flexibilidade e da precariedade laboral em Portugal,
sublinhando a necessidade de encontrar mecanismos de adaptabilidade negociada
das condições de trabalho.
No
capítulo 6, Manuel Carvalho da Silva (ex-CGTP) defende a necessidade de
reforçar a centralidade do trabalho na nossa sociedade. O movimento sindical é,
sem dúvida, um elemento essencial para tal, e, mesmo reconhecendo a existência
de uma crise do sindicalismo, não pode ser negado o papel fundamental que este
continua a desempenhar na construção e reformulação de solidariedades.
Considera que estamos perante a “desfocagem do valor do trabalho e do lugar do
trabalho”, a que se soma a dinâmica do individualismo, concorrendo ambas para a
construção de um sentimento de indiferença. Relativamente ao futuro dos
sindicatos, considera que estes enfrentam problemas de ordem diversa e refere a
necessidade da acção sindical “a partir do concreto no local de trabalho”,
focando as questões da representação e da acção. Outra questão que considera
prioritária é a da situação dos trabalhadores precários, a sua organização e os
posicionamentos dos sindicatos. Ressalvando a especificidade do movimento
sindical, aponta para a necessidade de, neste campo e em outros, estabelecer
alianças e fomentar a articulação com outros movimentos sociais.
O
último capítulo da segunda parte reúne os contributos de vários participantes,
docentes, estudantes e sindicalistas. As questões colocadas são abrangentes e
prendem-se com o tema da crise e renovação do sindicalismo, principalmente em
termos da missão presente e futura do movimento sindical, da sua agenda
política e estratégica, passando pela questão da introdução das novas
tecnologias no repertório de ação.
A
terceira parte – Contributos para um
sindicato ideal – subdivide-se em dois capítulos. No capítulo 8 - Um
sindicato ideal é possível! (?) - Olinda Lousã questiona as possibilidades de
construção de uma organização sindical ideal, baseando-se na sua experiência de
sindicalista e na produção teórica existente. Fornece uma matriz para uma
melhoria qualitativa dos serviços sindicais, sendo, nesse sentido, um
contributo de índole pragmática. Aponta um conjunto de condições para a
implementação do sindicato ideal e reflecte sobre a relação entre este e as
lutas que tem de travar, bem como sobre a importância do e – sindicalismo.
Considera que o sindicato ideal fornece alternativas à inevitabilidade
difundida.
A
conclusão - Condições para um
sindicalismo com futuro - recupera muitas das ideias lançadas nos capítulos
anteriores e fornece as linhas mestras para a reflexão em torno da questão
sindical, bem como linhas de acção para o reforço do papel dos sindicatos e
para a sua renovação. Os organizadores frisam algo bem evidente: o sindicalismo
não pode fugir à mudança. Este livro tem o mérito de contribuir para a
articulação entre a universidade e o mundo sindical, entre realidade e teoria.
Dá conta das inúmeras interrogações que se colocam actualmente acerca dos objectivos,
da força e do potencial do sindicalismo face aos desafios impostos pela
globalização neoliberal, e fornece elementos e reflexões fundamentais para
repensar e redireccionar o movimento sindical, tanto nacional como
internacionalmente. De certa forma, a obra apresentada constitui um sinal
inquestionável da abertura do sindicalismo à sociedade.
Este
livro, muito embora coloque o enfoque no presente e no futuro do movimento
sindical português, debate questões que facilmente encontram transposição para
outros contextos geográficos. A crise do sindicalismo, não obstante as nuances
de cariz nacional, é consensualmente aceite e coloca desafios de peso às
estruturas sindicais de todo o mundo. Acompanhando as metamorfoses cada vez
mais aceleradas do mundo do trabalho, o movimento sindical a nível mundial
debate-se com forças que agridem sistematicamente a classe trabalhadora. O
debate apresentado ao longo deste livro ajuda-nos a reflectir sobre obstáculos
e soluções, sobre questões que ultrapassam as barreiras geográficas e que se
colocam como desafios ao movimento sindical em termos globais.
Pedro
Mendes
Comentários
Deixo aqui a opinião do Manuel Carvalho da Silva, que também partilho, sobre o tema, que retirei de um livro que brevemente aqui trarei: “ (…) Poderemos então dizer que, no plano geral, o movimento sindical também partilha com outros atores coletivos, numa situação de certa similitude com o cenário onde nasceu e se foi afirmando, a busca de caminhos e/ou sistemas alternativos (…)”.
Trata-se de uma crise de modelo, reflexo da crise mais geral porque passam as instituições criadas no quadro das “sociedades modernas”. O mundo mudou. No entanto as democracias e as suas instituições – estado, modo de governação, família – e todas as demais mantém a fisionomia e o tamanho com que nasceram. É próprio de tudo o que é vivo crescer e desenvolver-se. Quando assim não acontece estiola e morre. Entretanto sobrevive como anão(ã). É o estado em que nos encontramos.
nelson anjos