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 (…) Tal problema é o da difusão da cultura musical no povo. Dizemos cultura musical no povo e não cultura musical popular, porque é nessa distinção que reside, precisamente, o nó da questão. O que vulgarmente se chama a cultura popular não pode, evidentemente, consistir num abaixamento da cultura ao nível do povo, mas no levantamento deste às alturas daquela. Tratando-se de cultura musical, os fundamentos de uma séria política desta arte devem consistir não em servir ao povo exclusivamente aquilo que ele está de há muito habituado a ouvir, e que nem sempre é do melhor, mas em esforçarmo-nos por o trazermos ao conhecimento e à aceitação do muito que ele não conhece e do melhor que o engenho humano tem criado. (…)

Fernando Lopes-Graça, 20/4/1940, Talia, Euterpe e Terpsicore

 

Assim pensava Lopes-Graça há 80 anos. Aliás, o próprio operacionalizou, durante a sua vida, um enriquecimento da cultura verdadeiramente popular, com todo o trabalho de arranjo, orquestração e harmonização que levou a cabo a partir daquilo que de mais genuíno o povo lhe ofereceu, levando a cultura do povo (e não a cultura popular) às mais importantes salas de concerto do país, e do mundo.

E o povo? A sua música foi deixando de existir, de servir as funções que lhe cabiam desde tempos imemoriais, e foi sendo substituída por aquilo que, em determinada altura, se convencionou chamar “pimba”, mas que hoje, tristemente, se converteu numa espécie de “mainstream” que, inclusivamente, ganhou a designação de música popular portuguesa. Falo, não só, dos grupinhos de baile que animam as festarolas pelas aldeias do país, mas também dos artistas de méritos duvidosos que inundam as programações dos canais de televisão generalistas (esse meio de comunicação e divulgação cultural por excelência, mas cativo das regras do lucro e da audiência), onde incluo os Carreiras, os Piçarras, as Deslandes, os Agires e mais uma série de gente que, não cabendo no vago rótulo “pimba”, fariam, não obstante,  um maior favor à cultura nacional se optassem por outra via profissional.

E o ensino? Hão-de existir mentes iluminadas que ofereçam às crianças e jovens nos “templos do saber” deste país algo para além do lixo sonoro com que rádios e televisões nos brindam. Sim, mas por cada professor ou educador que tenta alargar horizontes, existem outros cem que se limitam a replicar numa sala de aula o espaço musical do programa do Goucha ou do Baião. Perfeito…

Numa nota de optimismo, deixo duas sugestões musicais que me parecem ser capazes de, como sugere Lopes-Graça, um levantamento do povo às alturas. São elas O Gajo e o Filho da Mãe.  

 Francisco Anjos

Comentários

Fui lendo Lopes Graça ao longo dos anos. Os primeiros textos, há já muito tempo; 40 anos, talvez. E durante muito tempo apreciei mais a sua obra literária que a musical.
A questão da qualidade, em estética, é uma matéria extremamente delicada. O “bom”, o “mau”, o “bonito”, o “feio”; tudo isso depende das referências – no sentido mais lato – que forem adotadas. E também do sujeito que avalia (a subjetividade).
Para mim, em arte, independentemente da que se trate, terá de haver sempre potencial de desassossego, de inquietação, capacidade para despertar, desvelar, surpreender. Espantar –, como a filosofia.
Viktor Shklovsky, citado por Mário de Carvalho em “Letras sem Tretas”, diz que a técnica da arte está em tornar os objetos “não familiares”. Ainda aqui voltarei.

nelson anjos
Francisco Anjos disse…
Parece-me que a ideia lançada por Fernando Lopes-Graça no excerto apresentado vai exactamente ao encontro do "potencial de desassossego, de inquietação, capacidade para despertar, desvelar, surpreender". Claro que se trata apenas de um pedaço de um texto maior e com ideias mais desenvolvidas, mas, em linhas gerais, o repto lançado no mesmo é, precisamente, o de alargar horizontes com recurso a universos artísticos desconhecidos pelo cidadão médio (desassossego, inquietação), sendo que aqui a responsabilidade cabe principalmente a quem educa e a quem divulga (as minhas maiores críticas) e a quem produz. Por outro lado, devo dizer que a ideia da subjectividade na mensurabilidade da qualidade em arte dependendo de quem a avalia, é um argumento pelo qual nunca tive grande simpatia. Concedo quanto à subjectividade do gosto (gostos não se discutem), já que este tem uma dimensão afectiva relacionada com a experiência de vida e enquadramento socio-cultural do indivíduo, que influencia, inevitavelmente, as ressonâncias artísticas de cada um. Já quando se fala de qualidade, não consigo concordar. Não me atrevo a falar de áreas artísticas que não domino, mas em música existem parâmetros razoavelmente mensuráveis de complexidade, riqueza e proporções estéticas capazes de diferenciar o génio do medíocre e todas as nuances intermédias. Se assim não fosse, de que outra forma seria possível classificar Bach, Beethoven, Ravi Shankar, Zeca Afonso, Louis Armstrong, The Beatles, Amália ou Mozart como referências de génio nos seus universos?

As notas são como as cerejas: atrás de uma vem outra. E, por vezes, um ramo com várias. Que é assim … uma espécie de acorde de cerejas. Foi precisamente ao folhear um dos volumes do Lopes Graça – Musicália – que dei com um pequeno texto de crítica a um ensaio de Francine Benoit, precisamente sobre o papel do acorde em música. E lá estava um sublinhado, já com uns bons anos: ”(…) de uma maneira geral a largueza de vistas não é o atributo mais notável dos nossos pedagogos. (…)”
Já em tempos me tinha cruzado com Francine Benoit, não a propósito de música mas no âmbito de uma pesquisa sobre sexualidades de mulheres da primeira metade do século passado. E dei com uma tese de Maria Margarida da Silva Braga, supostamente sobre matéria musical, de 2013, mas que vai também aos segredos da sexualidade feminina. E que carateriza Benoit como “queer”. Julgo que, em 1936, ano de que data o ensaio, chamar-lhe-iam lésbica. Na melhor das hipóteses. Na pior, “fufa”, “fersureira”, ou simplesmente desavergonhada. Era o “Portugal profundo”. Que, nessa altura, era todo ele. E tudo isto a propósito de um acorde. A tese de Margarida Braga encontra-se na internet. É interessante.
nelson anjos
Entretanto fui folhear mais uns sublinhados, tentando encontrar algo relacionado com qualidade e sua mensurabilidade, em arte – referidos no texto do Francisco – assim como correlativos como sejam o valor. O assunto é bicudo e todos fogem dele como o diabo da cruz.
Dos que tenho na minha biblioteca, entre outros Susan Sontag, Walter Benjamim, Bronowski, João Cochofel, sobre o assunto dizem nada. Pelo menos que me tenha merecido a atenção de um sublinhado a quando da sua leitura. Adorno remete a produção artística para o campo do mercado e das suas leis, que lhe fixam o preço. É o mais objetivo de todos os critérios. José Carlos Pereira, referindo-se principalmente à esfera das chamadas belas-artes, começa por dizer em O Valor da Arte (Edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2016, Lisboa) que “(…) Avaliar uma obra de arte é uma tarefa complexa (…)”. Não posso estar mais de acordo, quer se trate da arte tutelada por Talia, por Terpsicore ou por Euterpe. (Que, como se sabe, é a musa inspiradora dos tocadores de cavaquinho 😊). Mais adiante, na mesma obra, Carlos Pereira adianta ainda: “ (…) À legítima pergunta que muitos colocam acerca de uma possível avaliação de uma obra de arte, é aceitável responder que a mesma resulta da articulação de valores artísticos, e estéticos, com valores de mercado, variando no tempo a predominância de uns ou de outros, assim como da lógica funcional da sua fixação (…)”. Percebeste? – eu também não.
(Só para terminar: a Introdução à Estética, de João José Cochofel, continua a constituir uma leitura interessante).
nelson anjos

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