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BRAINDROPPINGS


   George Carlin


"Informo, com satisfação, que há pouca coisa no mundo em que eu acredite. Quando outros comediantes comentam questões políticas, sociais e culturais, apercebo-me de que a maior parte do seu material reflete uma crença subjacente de que, de alguma forma, as coisas foram outrora melhores e que, com um pouco de esforço, poderíamos tudo corrigir. Procuram soluções e torcem por resultados específicos, o que, no meu entender, limita necessariamente o tom e a substância daquilo que dizem. São talentosos e engraçados, mas não são mais do que elementos de uma claque que anseia por um determinado resultado. Já eu, não me sinto assim tão limitado. 

Francamente, estou-me a cagar para o futuro deste país – ou, na verdade, de qualquer outra parte do mundo. Acredito que o destino da humanidade foi traçado há muito tempo (quando os homens de Deus e do dinheiro assumiram o controlo), e hoje limitamo-nos a cumprir o calendário. É isso, precisamente, que eu acho engraçado: o lento escoar pelo ralo de uma espécie outrora promissora, e a crença lamechas e desesperada neste país de que realmente existe algum tipo de “Sonho Americano”, que está guardado em sítio incerto.

A decadência e a desintegração desta cultura são surpreendentemente divertidas, se dela nos desligarmos emocionalmente. Sempre mantive uma distância segura, com a noção de que a ela não pertenço, ela não me inclui nem nunca incluiu. Não me identifico com qualquer grupo, não importa de que natureza for: Planeta, espécie, raça, nação, estado, religião, partido, sindicato, clube, associação de bairro; não tenho interesse em nada disso. Amo e valorizo cada indivíduo que conheço, detesto e desprezo os grupos com os quais eles se identificam e a que pertencem.

Portanto, se encontrar neste livro algo que se assemelhe à defesa de pontos de vista políticos específicos, rejeite essa ideia. O meu interesse em “assuntos” é o de meramente apontar o quão mal nos estamos a sair, e não o de sugerir formas de fazer melhor. Não me confundam com aqueles que sustentam algum tipo de esperança. Eu gosto de descrever as coisas como são, não tenho nenhum interesse em sugerir como “deveriam ser” ou tentar corrigi-las. Eu acredito, sinceramente,  que se achas que há uma solução, então és parte do problema. O meu lema: Que se foda a esperança!

P.S. Caso o leitor se questione, sou um indivíduo alegre com um casamento feliz e uma família unida. A minha carreira tem sido melhor do que eu sonhei, cada vez mais. Sou um optimista pessoal, mas um cético sobre tudo o resto. O que a alguns poderá parecer raiva, nada mais é do que desprezo complacente. Observo a minha espécie com um misto de admiração e pena, e torço pela sua destruição. E, por favor, não confundam o meu ponto de vista com cinismo; os verdadeiros cínicos são aqueles que dizem que “vai correr tudo bem”.

P.P.S. Já agora, se por algum acaso conseguirem resolver todos os problemas, continuo a não querer ser incluído.

 

George Carlin, Brain Droppings, 1997

Tradução: Francisco Anjos

 

Para esta semana, humor. Descobri George Carlin vários anos depois da sua morte (2008), e o personagem descomprometido e abestalhado que criou para transmitir as suas ideias agradou-me. É uma espécie de populista do avesso, que põe um espelho à frente das pessoas e diz “vocês são esta merda!”

Esta introdução ao seu livro “Brain Droppings” (algo como “Excrementos Cerebrais”), serve bem, no geral, como apresentação ao trabalho e à postura pública de Carlin. Existe, evidentemente, algum exagero (importante no discurso humorístico) no desprezo que Carlin manifesta pela espécie humana, mas é difícil não partilhar do seu pessimismo ao observar o mundo à nossa volta. Portugal continua um país de chicos-espertos fura-filas a tomar vacinas fora da vez e a organizar festanças privadas em tempos de confinamento, a Europa continua a consistir num jogo de egos nacionais, onde o populismo de extrema direita racista alastra, como se não tivéssemos tido uma guerra mundial há escassos 80 anos, provocada por essa mesma extrema direita, os Estados (des)Unidos recuperam de quatro anos de Trump, culminados com aquela pérola da invasão ao Capitólio, os países sul-americanos continuam iguais a eles próprios, a China continua a sua marcha em direcção ao domínio na economia mundial enquanto reprime os seus cidadãos mais incómodos, África continua à míngua… Vamos lá todos afixar à janela desenhos de arco-íris e continuar a acreditar que “Vamos todos ficar bem”.

 Francisco Anjos

Comentários

Se um dia decidir "atirar a toalha ao chão" utilizarei este texto do George Carlin, como manifesto. Mas, por hora, ainda não cheguei aí.

Agora a sério: todas as sociedades, desde as antigas às modernas, passaram por períodos onde o nilismo se fez ouvir. Que me lembre, o último dos grandes nilistas terá sido Nietzsch. Na atualidade, apesar de todas as ameaças - climáticas, holocausto nuclear, desigualdades sociais - e do aparente impasse para encontrar respostas revolucionárias, ou ao menos inovadoras, surpreendentemente, não me parece que tal tenda a promover a evolução para um tempo de nilismo. Daí que o texto me pareça algo démodé, como diria o Dâmaso do Eça. Ou seja: pouco chique.

Claro que subscrevo o comentário do autor do post.

nelson

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