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(Este texto destina-se ao Volume 3 de “Exílios”, em fase de preparação pela AEP61-74)

 

As Sombras do Tempo (Exílios, 2º andamento)

       A narrativa acerca de factos ocorridos passado mais de meio século é sempre uma montagem do espírito de quem os vivenciou. Materiais diversos aí concorrem, desde realidades olhadas de longe a realidades da imaginação. E omissões também – umas intencionais, outras simples obra do tempo: Esse Grande Escultor, como lhe chamou Marguerite Yourcenar. O regresso às memórias da deserção sempre me trouxe um sentimento, algures entre o luto que ficou por fazer e um passado que tenha ficado por passar.

       A consciência de que a imposição boçal da presença do colonizador era, por si só, uma agressão aos povos naturais, implicou sempre, para mim, a certeza de uma outra história, de liberdades, que embora suspensa mantinha a promessa de se cumprir.

       Em 1968 – ou seria 69? – encontrava-me numa unidade militar de infantaria, em Abrantes, integrado numa companhia que, concluída a fase final do período de treino militar, que aí decorria, partiria em breve rumo à Guiné, onde se travava uma das frentes da guerra colonial. Escusando-me aos favores bem intencionados da família –, conservadora e afeta ao regime – para junto de “gente influente” tentar livrar-me dos riscos e perda de tempo que a tropa e a guerra constituíam, tinha sido inicialmente mobilizado para Angola. Mas a espectativa de uma comissão mais curta, na Guiné – como normalmente acontecia, devido à dureza extrema das condições que a guerra aí revestia – e também a partida antecipada, que permitia ganhos de tempo, tinham-me levado a solicitar a troca com alguém que preferisse a Angola que me tinha calhado em sorte. Pedido que, por razões evidentes, havia de ser facilmente satisfeito. A preparação do grupo de combate que, supostamente, durante os próximos dois anos iria ser a minha companhia, quase exclusiva, seguia adiantada e aproximava-se do seu termo; e a data da partida, a bordo do velho “Niassa”, encontrava-se também já aprazada.

       Em Paris, pouco tempo antes tinha sido Maio; e, em Portugal, Salazar tinha caído da cadeira. Nos EUA o exemplo de Rosa Parks, na década anterior, ao recusar ceder o seu lugar, num transporte público, a um passageiro branco, – ao contrário do que deveria acontecer, por ele ser branco e ela ser negra – tinha começado a dar frutos: os BLack Panters, Ângela Davis e outros mantinham a sociedade estadunidense a ferro e fogo, pelo direito dos negros à plena cidadania. Martin Luther King já tinha sido assassinado pela mesma causa. Por cá, o país destacava-se por uma das mais elevadas taxas de analfabetismo da Europa, assessorado pelo zelo da censura, e pouco ou nada disto se sabia. E, embora o tempo fosse de promessas, a vida hermética dos quartéis não permitia que chegassem à tropa mais do que vagos rumores do pouco que, por “portas e travessas” circulava no exterior. À noite, na caserna, o coirão estafado dos homens atirava-se, de forma sonâmbula, para cima da enxerga e já não dava pelo “toque a silêncio” do corneteiro de serviço. – Amanhã era mais um dia e havia que recuperar forças. A “integridade da pátria era sagrada e a defesa do legado dos nossos valorosos antepassados” – conforme se ouvia em cada discurso oficial – exigia todo o empenho e dedicação na preparação dos candidatos a novos heróis.

       Alguns contactos fugazes, com gente-sombra, próxima da oposição, tinham já semeado a dúvida acerca da legitimidade da guerra que o regime mantinha em África. E, naquele tempo, quando se tinha vinte e poucos anos, a legitimidade era construída por cada um. Mais por via de um cristianismo secular, arejado pelo Vaticano II – de que me mantinha ainda próximo, – do que por via de outros critérios normalmente designados por “política”, tinha chegado já a um primeiro plano de conclusões que retiravam qualquer razão ao colonizador, na guerra que teimava em manter. E a minha simpatia inclinava-se decididamente para o lado dos guerrilheiros que, nas matas africanas, lutavam pela liberdade dos seus povos.

       Ir ou não ir? – Fui. A guerra colonial, nesse tempo, por obra da propaganda desenvolvida pelo regime não possuía ainda a evidência desse anátema: ser “colonial”. Porque não havia colónias, claro! – De províncias ultramarinas se tratava e Portugal estendia-se do Minho a Timor. Mas uma dúvida nunca vem só e à primeira juntou-se uma segunda: se a razão estava do lado dos movimentos de libertação, porque não ser então consequente e oferecer-lhes também o meu contributo, em vez de me limitar a um virar de costas? – A decisão não resulta sempre da eliminação da dúvida e, muitas vezes, é necessário decidir convivendo com ela. Cerca de um ano de guerra, se não me tinha esclarecido todas as dúvidas tinha-me pelo menos ensinado de que lado, nela, eu não deveria estar. E também onde terminava o meu país e começavam terras alheias.

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       A rotura distingue-se de uma simples mudança quando, em nós, sentimos quebrar algo que nos liga a um determinado tempo e existência; deixando a certeza de que será para sempre. Foi assim que aconteceu numa manhã de fim de verão quando, encontrando-me em Portugal, em gozo de licença, alguém desconhecido me bateu à porta e perguntou: vamos? – e eu respondi: vamos.

      Lisboa-Bissau-Farim-Bissau-Lisboa-Paris. Foi o trajeto da minha deserção. De barco, de jangada, de Dacota (avião militar), de avião, de carro, de comboio e a pé. Em finais de 69 – ou 70 ? – encontrava-me já em Paris. Não recordo qual seria o mês mas fumegavam ainda as cinzas de Maio/68 e pouco tempo depois começava a nevar. Para trás tinha ficado tudo.

       Mantenho uma ideia vaga de ter começado, por essa altura, a perder a noção de algo que até aí dava pelo nome de “Pátria”. Ou, então, a dar-lhe outros sentidos. A Pátria era agora cada vez menos um local, e cada vez mais um sentimento novo, nunca antes experimentado: fui percebendo que talvez se tratasse de liberdade. A minha e a dos outros. A CIMAD – uma ONG que entre outras coisas dava apoio a párias – tinha-me arranjado trabalho na Renault – à la chaîne, por turnos – num antigo complexo da indústria automóvel, em Billancourt (arredores de Paris), que há muito já não existe. Um grupo de amigos deu-me casa. Nesse tempo, Paris era ainda o princípio de todos os futuros. E, na fábrica, a ideia de classe operária fazia também sentido quando um grupo de operários roubava dez minutos ao período em que a chaînearretava” (parava), para o período de almoço, e tomava decisões que eram imediatamente comunicadas às chefias para vigorarem. Na cantina, cada mesa era uma “barca de Noé”: negros, brancos, amarelos, espanhóis, portugueses, argelinos, marroquinos, senegaleses, turcos, islâmicos, cristãos, homens, mulheres, “outros” e mais alguns. E, à la chaîne, éramos todos o Chaplin dos “Tempos Modernos”. Juntamente com a fileira de carros, em esqueleto, que ao longo da sua marcha iam ganhando forma, deslizavam também línguas, lugares, passados e pessoas diferentes. E, embora ninguém se encontrasse ali por razões de turismo, a diversidade do mundo chegava a cada um trazida por todos os outros. Creio ter começado aí o meu enraizado sentimento de rejeição por “turismo”.

       Para os dias de folga havia St. Michel, a Masperot e os alfarrabistas das margens do Sena. Onde se compravam, por preços incrivelmente baixos, os “livres de poche” – que por isso mesmo cabiam nos bolsos – e alimentavam as viagens entre casa e local de trabalho, nessas salas de leitura móveis que eram o metro e o comboio sub-urbano. Marx, Mao, Engels, Lenine, Sartre, Beauvoir, Camus – que em Lisboa não havia ou então custavam os “olhos da cara”, transacionados por “baixo do balcão” da velha “Barata”, na Avenida de Roma em Lisboa, – viajavam connosco ao ritmo dos horários dos turnos da fábrica. E havia também o “bidonville de St. Denis” (bairro-de-lata da região de Paris), habitado por emigrantes, muitos dos quais portugueses, com “bocas-de-sapo” (Citroen topo de gama) estacionados à porta de barracas, em caminhos-lixeira, para nos lembrarem, em permanência, quem éramos. E continuamos a ser. – Nas próximas “vacanças”, em Portugal, o nosso ego iria impar com a inveja do vizinho, ao olhar a nossa “voiture” paga com muitos dias a batatas sem azeite.

       Sentia-me cada vez mais do “país de todos os outros” e cada vez menos do meu. E quando, por razões de militância política – em que entretanto me envolvera – vim a Portugal, encontrei o que Alexandre O´Neill descrevia:

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

(…)

Rebanho pelo medo perseguido
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido.

ALEXANDRE O’NEILL, (1962) Lisboa

       As pessoas arrastavam-se com um ar macambúzio e triste. E desconfiado. Como hoje voltam a ter; e julgo que não seja apenas por causa da pandemia. Por isso, por vezes dou comigo a pensar que talvez seja tempo de novas “deserções” e de voltar a dizer: “vamos”. –  E de “passar a salto” novas fronteiras.

Nelson Anjos

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