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EXÍLIOS

Prelúdio (ou o homem como obscenidade)

      Quer a descrição e a economia de palavras, por parte de uns, quer o excesso delas, por parte de outros, que fizeram notícia da morte de Marcelino da Mata, ocorrida recentemente, mostra a incomodidade com que o país continua a lidar com os aspetos mais negros do seu passado colonial. Natural da Guiné-Bissau, produto da engenharia de guerra de Spínola, Marcelino da Mata foi um dos mais condecorados militares do exército português.

       Nos finais da década de sessenta, do século passado, calcorreei também os mesmos trilhos que ele e a sua tropa, nas matas do norte da então Província Ultramarina da Guiné: Farim, Cuntima, Saliquinhedim, Lamel. Ouvi o fogo do outro lado. Ripostei. E ouvi também os “Roncos” – grupo de milícia creio que por ele formado, quando era ainda cabo, ou sargento – falarem da prática, entre outras, de cortar as orelhas aos inimigos mortos na guerra. Eram exibidas como troféu mas serviam também como prova do “trabalho” realizado. As autoridades militares coloniais pagavam “por orelha”.

       O esquecimento não é possível nem desejável. Mas, para lá dos limites da palavra como virtude, – o domínio do inominável – resta apenas o homem como obscenidade ou o silêncio. Com a primeira confrontou-se, por exemplo, Primo Levi, em “Se Isto é um Homem”. Viria a suicidar-se. Ou o 27 de maio, em Angola. Dilolwa suicidou-se também.

       Opto pelo silêncio. Ainda assim arrisco lembrar, aos que se apressam a julgar Marcelino da Mata e os seus homens, pelos crimes cometidos, a necessidade de não esquecerem também os mandantes e o sistema em nome e às ordens do qual agiam, e por quem eram pagos. ”Por orelha”. E, já agora, para que do balanço de responsabilidades não fique esquecida qualquer parcela, lembre-se também a cumplicidade silenciosa de um povo ignorante e aviltado, pactuante a troco de pouco – como continua a sê-lo – que afinal, segundo estudo publicado pelo “Público” de 18-02-2021, não terá convivido assim tão mal com a própria PIDE – a Polícia Política de Defesa do Estado – junto de quem mendigava a “cunha” e de quem não desdenhava favores. É dessa massa que se fazem os juízes mais severos.

 

*****

Exílios

(1º andamento)

       Com o objetivo de divulgar o conhecimento do que foi a experiência do exílio, dos que, ao longo dos anos de guerra colonial – 1961/1974 – optaram por essa via, a AEP61-74, Associação de Exilados Políticos Portugueses publicou dois volumes onde se reúnem relatos de jovens que, solidários com os povos das então colónias, se colocaram do lado daqueles, recusando a guerra que pretendia perpetuar a sua servidão (AEP61-74 Associação de Exilados Políticos Portugueses, Exílios (2 vols), Lisboa, 2017).

 

       Também testemunha desses tempos, aqui deixo algumas considerações –, de divergência umas, de concordância outras. As palavras de abertura do Prefácio, da autoria de Rui Bebiano, admito que por desfocagem do leitor, parecem-me carregar ainda a acusação do regime, em vez da sua rejeição e desmontagem da sua lógica: “É dúbia, esquiva, quase sempre marginal, a condição do desertor.” Por outro lado, a tentativa de compreensão da realidade em análise que, circunscrita ao período de 1961/74 e desligada da cadeia de acontecimentos que a antecedem, me parece conduzir a um entendimento afunilado desse período. Que, apenas analisado no seu conjunto, e integrado no mesmo contexto de confronto com o regime, que já vinha sendo travado, faz sentido. A guerra colonial e a sua recusa, por parte de sectores cada vez mais amplos da sociedade, não foi um acontecimento isolado, nascido do nada, em 1961.

 

       O “mal” já vinha de trás. A década de cinquenta aproximava-se do seu termo, carregada de incertezas e maus presságios para o regime. Nas presidenciais de 1958 Humberto Delgado, referindo-se a Salazar, tinha sido lapidar na frase que se tornou célebre: “Obviamente demito-o!”. E a carta de D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto, dirigida a Salazar, demarcando-se das estratégias do regime e culminando com a sua saída para um exílio de dez anos, em Espanha, assinalava também a fratura no seio da igreja relativamente à ordem estabelecida. É nessa linha que se inscreve ainda o que viria a ficar conhecido por “revolta da Sé” – uma conspiração protagonizada principalmente por católicos, aliados a meios militares independentes, e organizada a partir da Sé de Lisboa em março de 1959.

 

       1961 viria a confirmar-se um ano fatídico. O assalto ao paquete Santa Maria, por um comando chefiado por Henrique Galvão, deu início a uma sequência de acontecimentos de cujos danos o regime não viria mais a recuperar. A ocupação da fortaleza de S. João Batista de Ajudá, pelo Benim, antiga colónia francesa, foi desvalorizada e aconteceu sem drama. Afinal, tratava-se apenas de um pequeno enclave que a partir de 1680 tinha servido de entreposto ao comércio de escravos. Fadado mais a servir, no futuro, a memória da ignomínia do que a glória. Porém, com a ocupação de Goa, Damão e Dio, por tropas da União Indiana, em finais do mesmo ano, não apenas o mapa do império mas também o imaginário nacional começavam a sofrer os primeiros abalos sérios. Pela mesma altura deu-se também o “Golpe de Beja”, com a tentativa de tomada do quartel, deixando a nu fraturas antigas no seio das forças armadas. Alguns setores da sociedade, confundindo desejo com realidade, apressaram-se a prever o fim próximo do regime. Que a história viria a desmentir, com uma longa guerra colonial de treze anos.

 

       É a esta sequência de acontecimentos que surge associada uma primeira lista de desertores do regime, a quem deve ser feita justiça. Cito apenas os mais conhecidos: D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto, Capitão Henrique Galvão, General Humberto Delgado, Coronel João Varela Gomes, e até a própria filha do mais alto dignitário da PIDE, Ana Maria da Silva Pais, abraçando, pelo lado romântico, a causa da revolução cubana. É inserido neste contexto, e não como gueto à margem da história, que deve ser entendido o fenómeno da deserção das forças coloniais, dos que recusaram a sua participação na guerra e se associaram fraternalmente à luta pela liberdade travada pelos povos das colónias.

 

       O assalto à prisão de S. Paulo, em Luanda, a 4 de fevereiro de 1961, constituiu o tiro de partida da guerra colonial. Em 63 sucedeu-se, na Guiné, o ataque ao quartel de Tite, no sul do território; e, em Moçambique, no ano seguinte, o ataque à povoação de Chai, no distante norte das terras maconde de Cabo Delgado.

     

       Dar o primado à ética, como faz Irene Pimentel, no posfácio à obra em apreço, permite esclarecer a margem de ambiguidade a que alude Rui Bebiano, nas palavras atrás referidas, e reafirmar, sem hesitação, nos tempos confusos que correm, o lado justo da guerra.

 

       A propaganda ideológica do regime, que logrou manter, durante quase meio século, o Portugal ignorante e servil convencido que a pátria se estendia do Minho a Timor e que, cada colónia, posteriormente promovida a província ultramarina, constituía uma parcela inalienável do território nacional, iniciava-se à porta da escola: ”A escola é a sagrada oficina das almas” – assim constava, ainda não há muito tempo, numa lápide existente na parede exterior de uma escola em Viseu. Foi esta a escola, ainda saudosamente recordada por muitos, que Salazar legou ao país.

 

nelson anjos

Comentários

Rita Anjos disse…
"Foi esta escola, ainda saudosamente recordada por muitos, que Salazar legou ao país."
Foi esta frase que me trouxe à lembrança (ia escrever «memória», mas na memória fica o que perdura, e este episódio que lembrei não quero recordar... nem sei porque voltou, teimoso à alembradura), um desacato que vivi há pouco mais de cinco anos:
Sentei-me no lugar que a minha filha ocupava diariamente naquela sala, disposta a ouvir, anotar, adormecer, sobre mais uma reunião de pais, quando uma encarregada de educação, mãe de uma Érica Joana ou Carla Alexandra, colocou à professora a seguinte questão: "Quando é que vai começar a ensinar a história a sério? A minha filha não tem que vir práqui ouvir discursos políticos sobre o Salgueiro Maia, os comunistas e os defensores dos pretos da Guiné." Da professora, passando por todos os pais, ouviu-se um compasso de silêncio incrédulo, perplexo... alguns corajosos tentaram ensiná-la, outros trataram-na como asna que mostrou ser mas, dando seguimento à reunião, ninguém conseguiu derrubar a parede de tijolo à volta daquela criatura. Como a hora já ia avançada, deu-se por terminada a reunião da qual se lavrou a presente ata que, depois de lida, será assinada pela docente e dois representantes dos encarregados de educação.
"Foi esta escola, ainda saudosamente recordada por muitos, que Salazar legou ao país."

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