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“A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.”

Caim, José Saramago

 

Em 2009 José Saramago publicou “Caim” e foi alvo de duras críticas. Não era algo de que não estaria à espera depois do sucedido com “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, que o levou a trocar Lisboa por Lanzarote. Por outras palavras: desta vez já sabia ao que ia…

O tom do livro é, em grande parte, cheio de humor. Diverte-nos mas faz-nos pensar, ou não fosse Saramago aquele homem que tinha sempre algo a dizer em tom leve mas com profundidade.

Caim assassina Abel e é condenado por Deus ao exílio. Nesta obra, a vida errática do personagem é aproveitada par pôr a nu a forma como deus (é mesmo assim, sempre com letra minúscula) põe à prova e castiga os seus filhos. Caim viaja, não no tempo mas em vários presentes, e testemunha os factos mais determinantes do “Génesis”: salva Isaac de morrer nas mãos de seu pai Abraão, pois o Anjo encarregado de tal atrasou-se com uma avaria na asa, está em Sodoma e Gomorra quando as cidades são destruídas, trabalhava para Job quando este fica completamente arruinado e os seus 10 filhos morrem,  assiste à destruição da Torre de Babel, dá um mãozinha na construção da arca de Noé, onde acaba por embarcar… e , entretanto, vai discutindo com o criador e pondo em causa o seus juízos e os violentos castigos que acabam por recair sobre os pecadores mas também sobre os justos e inocentes.

(Quem não foi confrontado quando criança com as ilustrações do livro de catequese e outros em que um Deus grande e austero expulsava do paraíso Adão e Eva nus e acabrunhados? E cidades a arderem como castigo divino por os seus filhos não o adorarem o suficiente?

 Luís Fernando Veríssimo num artigo publicado em 2001 escrevia o seguinte sobre o Genesis:

“Não existe, em toda a história da literatura, primeiro capítulo como o do primeiro livro Bíblia. "Genesis" ainda não chegou na metade e já tivemos a criação do mundo e de Adão e Eva, a expulsão destes no Paraíso, o assassinato de Abel por Caim, o Dilúvio, a torre de Babel, Abraão, Ló, a destruição de Sodoma e Gomorra, a história de Esaú e Jacó e personagens suficientes para encher vários romances russos.”

 Este artigo de Luís Fernando Veríssimo é dedicado às figuras desconhecidas da Bíblia, como o caso da mulher de Caim cujo nome ou linhagem não é referido não se sabendo de onde apareceu em contraste com outras descrições exaustivas de descendentes com pouca importância “histórica”.

Acredito plenamente que Saramago tenha lido este texto e tomado a decisão de escrever “Caim”.  E também decidiu outra coisa: a desconhecida mulher de Caim na Bíblia, transforma-se na exuberante Lilith, senhora da cidade e mãe de Enoque. É contrastante estas 2 posições: uma mulher que não conta ou conta pouco, como é habitual na tradição judaico-cristã, e outra que é dona do destino de muitas almas, na versão de Saramago. Boa opção esta!

Vou deixando o meu aviso que pouco sei sobre a Bíblia tirando as histórias que são do conhecimento generalizado dos comuns mortais. Por isso, se nestas poucas linhas aparece alguma asneira, a culpa não é minha.

 

Marília Pinho

Comentários

Em Saramago, onde sempre encontrei vizinhanças muito próximas - não imitações - com o Garcia Marques dos Cem anos de Solidão, existe essa constante que é a convicção de que a evidência da realidade é mentira. A verdade - a velha questão: o que é isso? - reside sempre algures à margem da evidência. Parece ter andado mais próxima dela a ciência do século passado - os Einstein, os Max Planck, os Stephen Hawking e demais companhia - do que a arte em geral, incluindo a literatura.

Não li muito de Saramago: Memorial do Convento, Jangada de Pedra (com algum esforço) e o Evangelho Segundo Jesus Cristo. Este último, no âmbito da preparação do projeto RUA, que tinha entre mãos para o Grupo de Cantares, quando a pandemia veio suspender a agenda.

Aguardemos, para ver o que será possível fazer com os cacos que sobrarem. Se o Saramago ainda por cá andasse teria com certeza imaginação para sugerir uma saída.

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