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Contos Proibidos, Memórias de um PS Desconhecido

Há 25 anos saía "Contos Proibidos, Memórias de um PS Desconhecido". O livro esgotou e nunca mais foi reeditado. O regime não proíbe livros mas faz muito para os esconder.

Ler “Contos Proibidos: Memórias de um PS desconhecido”, de Rui Mateus, – fundador e ex-responsável pelas relações internacionais do PS, até 1986 – faz-nos perceber como é diferente a justiça em Portugal e noutros países da Europa.

 

Escrito em 1996, este livro é um retrato da personalidade de Mário Soares, antes e depois do 25 de Abril. Com laivos de ajuste de contas entre o autor e demais protagonistas socialistas, são abordados, entre outros assuntos, as dinâmicas de apoio internacional ao Partido Socialista e, em particular, a Soares, vindos de países como os EUA, Suécia, Itália, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Líbia, Noruega, Áustria ou Espanha.

 

Soares é descrito como alguém que «tinha uma poderosa rede de influências sobre o aparelho de Estado através da colocação de amigos fiéis em postos-chaves, escolhidos não tanto pela competência mas porque podem permitir a Soares controlar aquilo que ele, efectivamente, nunca descentralizará – o poder» (pp.151-152); «para ele, o Partido Socialista não era um instrumento de transformação do País baseado num ideal generoso, mas sim uma máquina de promoção pessoal» (p.229); e como detendo «duas faces: a do Mário Soares afável, solidário e generoso e a outra, a do arrogante, egocêntrico e autoritário» (p.237).

 

A teia montada em torno de Soares, com um cunhado como tesoureiro do partido, e as lutas internas fratricidas entre novos/velhos militantes (Zenha, Sampaio, Guterres, Cravinho, Arons de Carvalho, etc.), que constantemente ameaçavam a primazia e o protagonismo a Soares, são descritos com minúcia em ‘Contos Proibidos’.

 

Grande parte dos líderes da rede socialista internacional – uma poderosa rede de “entreajuda” europeia que, em boa verdade, só começou a render ao PS depois dos EUA, sobretudo com Carlucci, terem dado o passo decisivo de auxílio a Portugal – foi mais tarde levada à barra dos tribunais e muitos deles condenados, como Bettino Craxi de Itália, envolvidos em escândalos, como Willy Brandt, da Alemanha, ou assassinados como o sueco Olaf Palme.


Seria interessante todos lermos este livro. Relê-lo já será difícil, a não ser que alguém possua esta raridade.
A sua primeira e única edição desapareceu rapidamente do mercado. Trinta mil cópias de uma só vez. Há quem diga que foi comprada ainda antes de ter sido distribuída pelas livrarias. Isto pode ser exagero, mas o facto é que misteriosamente nunca foi feita uma segunda edição, mesmo havendo muita procura. Assim como o livro desapareceu, o paradeiro do seu autor é desconhecido. Há rumores de que emigrou para a Suécia ou para os Estados Unidos.

 

Toda a fugaz cobertura dos media, aquando da publicação do livro, foi em torno do tema da traição e nunca no conteúdo. Rui Mateus chegou a ser entrevistado por Miguel Sousa Tavares na SIC, e a primeira pergunta que este lhe fez foi: Então, como é que se sente na pele de um traidor?

A versão PDF do livro encontra-se em:

http://resistir.info/livros/contos_proibidos_rui_mateus.pdf

Pedro Mendes

Comentários

Encontrava-me a viver fora do país à altura dos acontecimentos relatados; que não acompanhei, desconhecia e ainda não li o livro. Que já inscrevi na minha lista de prioridades. Ainda assim, a matéria referida permite uma primeira abordagem genérica.
O assunto central – um contencioso fratricida – parece-me ser transversal a todos os partidos. De forma mais abrangente, a todas as fratrias. Para nós, descendentes da cultura judaico-cristã, este passado começa logo no Génesis, com o assassinato de Abel pelo seu irmão Caim. E a morte de jesus pelos judeus, em conluio com o poder romano, foi igualmente um fratricídio.
Descendo à terra e ao tempo de hoje, e já que o caso em apreço envolve o PS, – onde Almeida Santos dizia “p´rós amigos tudo, para os outros cumpra-se a lei” – escrevi recentemente, a propósito da minha escolha como eleitor, para as presidenciais, que “o PS é uma manta de retalhos em que nem todos os retalhos são de mau pano”. Acrescento que, para além dessa dimensão horizontal, a estrutura da “manta” tem também uma dimensão vertical: é constituída por várias camadas. Este outro aspeto é também comum à generalidade das fratrias e é normal o último nível encontrar-se já fora da “manta”. Por exemplo, os grupos onde existe uma referência religiosa comum, têm como camada superior essa religião: – o cristianismo para os cristãos, o islamismo para os islâmicos.
Em grupos seculares – como é o caso dos partidos – existem igualmente níveis que intervêm nas orientações e decisões da organização, estando contudo fora dela. Para além dos lóbis de pressão económica lembre-se por exemplo a influência que a maçonaria tem no PS. Onde, para além das disputas em torno da fidelidade às referências doutrinárias e programáticas travam-se também disputas relativas à fidelidade ao “avental”. Na igreja católica existe o Opus Dei; que o jesuíta Wlodimir Ledóchowski dizia tratar-se da “maçonaria cristã”; certamente por dor de cotovelo com a concorrência feita aos jesuítas, eles também com estatuto de “casta superior” no seio da igreja. À semelhança do que acontece com os grupos de narcotráfico, a disputa de um mesmo território de influência dá por vezes origem a conflitos graves. É longo o historial de papas assassinados.
Mostra a realidade que estes estados maiores, constituídos pelos “mais puros dos puros”, são, em regra, mais um fator de degenerescência do que de virtude. O partido, como modelo de organização, permanece hoje igual ao que era há cento e cinquenta anos. Numa sociedade que entretanto sofreu transformações profundas, e mantém um processo de mudança acelerada e desgovernada, à beira de um percurso ladeado de abismos sem proteção: alterações climáticas, ameaça nuclear, desigualdade, pobreza. A que acresce uma diferença de fundo: há cento e cinquenta anos o partido era arauto de mudança, seguia na frente, propunha soluções e desbravava caminhos novos, com todos os riscos que o novo envolve. Hoje segue na retaguarda, a reboque dos acontecimentos, sem um rasgo de criatividade ou de coragem e sem outro objetivo que não seja salvar-se a si mesmo e à tropa fandanga que nele segue pendurada à boleia. Neste cenário de decadência, o partido assemelha-se a uma balsa salva-vidas, onde os últimos ratos se vão disputando os derradeiros restos da dispensa. (Claro que, no afã da disputa, por vezes há ratos que caem à água…). Veja-se já o grotesco espetáculo oferecido pelas clientelas, “chegando-se à frente” e acotovelando-se, procurando chamar a atenção para que não seja esquecida a fatia prometida da “bazuca”. Em géneros ou em cache. O partido é hoje – sem necessidade de caricatura – uma das mais pornográficas instituições da sociedade. Ao contrário da própria família que, apesar de tudo, se tem mostrado capaz de incorporar alguma evolução; ou até mesmo da própria igreja, onde a voz de Francisco, contra uma ainda poderosa barreira de obscurantismo e crenças medievais, se vai fazendo também ouvir, exultando a remar contra a maré.
nelson anjos
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