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“Ficámos a fazer os pratos durante um bocado, a Lydia a divertir-nos com a conversa do costume, o Tommy a fritar mexilhões e camarões em gordura quente – o movimento habitual de uma cozinha com muito que fazer. Depois a noiva voltou a aparecer na porta de vaivém, que tinha ficado aberta. Era loura e estava muito bonita no seu vestido branco virginal. Disse qualquer coisa assim rapidamente ao ouvido do chefe; de repente Bobby começou-se a rir de orelha a orelha, e reparei na pele bronzeada e nos pés de galinha nos cantos dos olhos. A seguir ela foi-se outra vez embora, mas bobby, a tremer visivelmente, virou-se para mim, gritou «Tony! Toma conta disto», e saiu apressado pela porta das traseiras.

Só esta incumbência já era um grande acontecimento dentro das nossas funções. Receber ordem para trabalhar no grelhador cheio, tomar o leme mesmo que só por alguns minutos – era a realização de um sonho. Mas a curiosidade tomou conta de todos os que estavam na cozinha. Tínhamos de ir ver.

Havia uma área para guardar o lixo, rodeada por um muro, mesmo ao lado da janela em frente do lava-loiças. O muro escondia dos carros no estacionamento os sacos do lixo e uma data de bidões de lixo orgânico que o restaurante vendia a um chiqueiro do Cabo. Num ápice todos nós, Tommy, Lydia, o novo lavador de loiça e eu – fomos espreitar pela janela, e vimos mesmo à nossa frente, Bobby a meter por trás na noiva, com grande estardalhaço. Ela inclinava-se para a frente, muito prestável, em cima de um bidão de 250 litros, a saia levantada acima das coxas. O avental de Bobby estava puxado para cima, pousado nas costas dela, enquanto ele a bombava furiosamente. Os olhos da rapariga rolavam e a boca murmurava «Sim... sim... bom...bom...».

Enquanto o noivo dela e a família mastigavam alegremente as postas de linguado e os mexilhões fritos, apenas a alguns metros de distância, na sala de jantar do Dreadnaught, ali estava a noiva afogueada a levar um inesperado presente de um completo desconhecido.

Foi naquele momento que eu percebi, pela primeira vez, que queria ser um chefe.”

  

O texto autobiográfico do Anthony Bourdain sobre o seu (infelizmente curto) percurso no submundo da restauração, é uma janela aberta para o que apenas supúnhamos que acontece dentro das cozinhas dos restaurantes por esse mundo fora. Todo o livro relata histórias de alcool, drogas, sexo e tudo o que, à primeira vista, não rima com cozinha, restaurante, gourmet... Anthony Bourdain narra com ironia e humor a sua aprendizagem e crescimento na profissão.

O que mais me atraiu foi imaginar qual será a revelação mais chocante para o leitor deste excerto: se a noiva que aceita esta prenda e que se dá ao direito de recebê-la no decorrer da boda no dia do seu casamento. Ou, por outro lado, o pouco cuidado que o  cozinheiro revela pela comida dos outros, ao contrário da preocupação que tem para com o que ele come.

Para mim, o único motivo de espanto é o lugar escolhido para a refeição, não a dos familiares, mas a da noiva e do chef... Por muito direito que todos tenhamos de comer as refeições que melhor nos aprover, causou-me alguma perplexidade não ter havido melhor localização para o ato!

Rita Anjos





Comentários

Não havia nexexidade! Penxo que apenas o xaudojo Cónego Remédios estaria à altura de comentar o inxólito da xituaxão xxx.

nelson anjos

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