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“Jobs for the boys?” (ou meninas à sala …)

       O livro de Patricia Silva não é uma crónica de jornal ou de magazine semanal, como o título – “Jobs for the Boys?” – poderia levar a supor. Trata-se de um ensaio sobre os labirínticos processos das nomeações para a administração pública e do seu contributo para a qualidade da democracia que temos. A autora é doutorada em ciência política e exerce como professora e investigadora na Universidade de Aveiro.

     Segundo Patrícia Silva, ao contrário de outras realidades, na Suécia é tal o isolamento entre administração pública e partidos políticos, que não existe tradução possível para a palavra “clientelismo”. Em tal matéria, como se sabe, estamos longe de poder dizer o mesmo sobre o que se passa em Portugal. Para além do que seria legítimo numa situação de normalidade democrática – as forças políticas que constituem o governo nomearem os dirigentes de topo para a administração pública, a fim de assegurar o controlo, por parte da esfera política, da implementação das políticas definidas para cada setor – reina o regabofe normalizado, genericamente conhecido por “jobs for the boys”.

       Quando procurei, no suporte principal da nossa cultura – a língua portuguesa – a melhor solução para a tradução da conhecida (pelas piores razões) expressão anglo-saxónica, a maior dificuldade que tive não foi de escassez, mas sim de abundância de soluções.  A mais óbvia, a simples tradução literal, pareceu-me diminuir o alcance e o essencial do sentido da expressão: “empregos para os rapazes”. E a substituição de “empregos” por “tachos”, esvaiu-se já de significado pela banalização da utilização.  A riquíssima gama de recursos polissémicos oferecida pela nossa língua, levou-me por outros caminhos:

“MENINAS À SALA, CHEGARAM OS MARINHEIROS!”

       Não conheço a origem da expressão, mas remete provavelmente para a cultura dos velhos bares e casas de alterne da zona do Cais do Sodré, da minha (por adoção) velha Lisboa, a cujas honradas(os) trabalhadoras(es) do sexo presto a minha modesta homenagem; e principalmente que me desculpem a associação – apenas por comodidade de expressão – a gente pouco recomendável como é essa do “jobs for the boys”. Expressão de tom a fazer lembrar também essa outra velha instituição da nossa tradição cénica popular lisboeta, a que a pandemia veio igualmente ajudar a fechar portas: a revista à portuguesa.

       Ora, ano de autárquicas é ano de pagamento de fidelidades e serviços prestados e de arregimentar novas servidões. Se na Câmara onde trabalha vir chegar, sem razão aparente, novos elementos à sua repartição – que o volume de trabalho não justifica –, se lhe nomearam um novo chefe a quem terá de ensinar a fazer o serviço, ou se uma nova direção foi criada e povoada por gente que antes era vereadora de vagamente coisa nenhuma, não estranhe: trata-se de “jobs for the boys” (ou girls). Principalmente nos pequenos municípios de interior, a prática generalizada de celebrar os antigos mercados medievais não passa, em boa verdade, de uma redundância. As obrigações de vassalagem partidária, o servilismo e as dependências de tipo feudal, para conseguir, por favor, aquilo que não se consegue por mérito ou por direito, fazem ainda hoje parte do dia-a-dia. A imprensa regional, conservadora e também ela sobrevivendo do subsídio ou da publicação de editais e avisos da Câmara, não dispõe de autonomia que lhe permita o escrutínio de coisa alguma e não tem outra preocupação que não seja manter-se nas boas graças dos poderes instituídos. O interior, despovoado e desprovido de atividade económica geradora de emprego, tem, entre outros, em muitos presidentes de câmara e outros detentores de cargos autárquicos os senhores de substituição de um feudalismo rural tardio, cuja bênção se deve assegurar para conseguir o emprego ou a nomeação desejada, ou desencravar o pequeno negócio que se encontra pendente sempre de mais um papel. Para o pequeno biscate, de que muita gente ainda aí vive, serve até, muitas vezes, o próprio presidente da junta. Às exceções, a devida vénia.

       Em março último foram manchete, na generalidade da imprensa, os resultados do relatório do CPC (Conselho de Prevenção da Corrupção) relativos ao ano de 2020. A maioria das comunicações judiciárias recebidas relacionava-se com corrupção e peculato, com destaque para a administração local, com os municípios na linha da frente. Os números apurados pelo CPC – onde fica por contabilizar a cunha e o pequeno favor, – e todo esse caldo cultural autárquico-partidário de misérias caladas feito, não explicando tudo é um fator decisivo a favorecer e legitimar, aos olhos da opinião pública, os “Chegas”, os “Venturas” e a democracia anémica que temos, feita de cidadãos desinteressados de qualquer intervenção cívica, onde a abstenção é o “partido” que maior número de votos recolhe.

       Conforme lembra Patrícia Silva, a administração pública, logo a seguir ao 25 de Abril, foi preenchida por gente oriunda de partidos políticos, constituídos à pressa para acorrer às necessidades, e nunca mais de lá saiu. A não ser, nalguns casos, para ceder o lugar aos filhos. O PSD foi criado poucos dias antes do primeiro governo provisório tomar posse. E o PS cerca de um ano antes. Começa aqui a grande saga da promiscuidade – ou concubinato, se se preferir – entre administração pública e partidos.

       MENINAS À SALA, CHEGARAM OS MARINHEIROS! – desta vez, armados de “bazuca”. (Que algumas maldosas fake news já adiantam ser curta … e não passar de promessa).

nelson anjos

Comentários

Rita Anjos disse…
Em primeiro lugar urge comentar o que se alevanta! Quando a publicidade é demasiada e quando até dá direito a provérbio... É garantido que se trata apenas e só de uma promessa. Sim, estamos a falar de política!
O meu comentário mais sério leva-me a traspor este formato generalizado de okupação de cargos para a esfera nacional (ou nacionalzinha) uma vez que o artigo foca principalmente os pequenos municípios de interior mas que assim trabalham porque seguem o exemplo dos manos mais velhos e nunca viram fazer diferente (salvo as tais raríssimas exceções).

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