Em Abril fique em casa
“Aqui, Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. As
Forças Armadas Portuguesas apelam a todos os habitantes da cidade de Lisboa no
sentido de se recolherem a suas casas, nas quais se devem conservar com a
máxima calma.”
Foram estas as primeiras palavras dirigidas aos cidadãos de Lisboa – o resto era paisagem – pela nossa democracia nascente, às primeiras horas da madrugada do dia 25 de abril de 1974. Desde os primeiros momentos de vida que a nossa democracia deu sinais de saúde débil, levando os seus cuidadores a uma presença maternal quase permanente: cuidado com o sol e com as correntes de ar!
Fique em casa! – o aviso, feito por
militares, era ordem para se levar a sério e cumprir sem perguntas escusadas. Como
eram de resto, então, todas as perguntas. Política! – aquilo era coisa para
profissionais e trazia já consigo, na hora do parto, plano de confinamento
incluído, com todos os limites devidamente estabelecidos. O MFA (Movimento das
Forças Armadas) propunha-se trazer à pátria um novo alento, incluindo alguma
liberdade. Que – já se vê – não podia ser excessiva. Coisa para tomar às
colheres, como o xarope para a tosse. Com moderação. Não se tratava de um
qualquer reviralho com povo e tudo à mistura. Não. Aquilo era coisa de gente
séria, para fazer com regras e principalmente nada de excessos. Conforme se
percebia de imediato, pelo tom da voz de comando que chegava do outro lado,
trazida pelas ondas da rádio. Democracia sim, mas com conta, peso e medida. FIQUE
EM CASA! – era a primeira palavra de ordem com que nascia a nossa democracia.
Aconteceu porém que, este povo, que “não
só não se governa como não se deixa governar”, como há cerca de dois milénios havia
já concluído o conquistador romano, conseguiu escapulir-se por portas e janelas,
deixadas descuidadamente abertas, e durante os primeiros tempos andou à solta
pelas ruas, cometendo desacatos e desafiando a nova ordem que, de início sem
sucesso, se pretendia teimosamente impor. Era a democracia a brincar à
liberdade. Após porfiados esforços lá a conseguiram conter. Domaram-na e
educaram-na. Foi encerrada numa casa devidamente preparada para o efeito,
dotada das mais inovadoras regras de segurança recomendadas, e por lá permanece
até hoje. Obesa, de tanto tempo sentada. E definhando a cada dia que passa, sedenta
do ar e do sol da rua. Virgem de quase meio século, confinada a uma clausura de
disciplina dura, envelheceu antes de ter sido jovem. Dizem que está madura: eu
penso que está podre. Nunca cresceu e, para não passar fome vive hoje de
favores. Que vai adoçando com suspiros nostálgicos de passados gloriosos.
Para tornar mais suportáveis estas
memórias ambíguas, embora se celebre no dia 25 criou uma data mítica com que de
facto preenche as suas fantasias eróticas nas noites de 24 para 25 de abril: o “25(24)”
de Abril. (Foi aliás a este sentimento e a esta data – o 25(24) de Abril – que o
Presidente da Assembleia Municipal do município onde moro – Miranda do Corvo –
deu expressão, na sessão solene de 25 de Abril de 2018, numa inesquecível
intervenção, ao lembrar que “a ditadura não tinha tido apenas coisas más, mas
também coisas boas” – conforme noticiou então o jornal da terra. E também que
“Portugal tinha necessidade das colónias”).
Eduardo Lourenço, que nos conhecia como
poucos, deixou escrito sobre nós, no seu “Labirinto da Saudade”:
“(…) Nem a
cegueira colonialista desvairada dos Kaúlza e companhia, nem a aposta
neocolonialista de Spínola, nem a determinação firme do anticolonialista
coerente Melo Antunes, foram vividas em termos de autoconsciência e
responsabilização cívica pela maioria dos portugueses. Num dos momentos de
maior transcendência da história nacional, os Portugueses estiveram ausentes de
si mesmos, como ausentes estiveram, mas na maioria “felizes” com essa ausência,
durante as quatro décadas do que uma grande minoria chamava “fascismo”, mas que
era para um povo de longa tradição de passividade cívica apenas “o governo
legal” da Nação. (…)
(…) Exemplar
como revolução metropolitana que derruba quatro décadas de poder autoritário e
semitotalitário com flores no cano das espingardas, a revolução de Abril não
eclode com o propósito consciente de pôr um termo absoluto à imagem de Portugal
colonizador exemplar mas para dentro dela encontrar uma solução à portuguesa,
igualmente exemplar, de descolonização. Essa perspetiva ilusória não fazia
parte apenas da política que o nome de Spínola tentou encarnar, mas de gente
como Mário Soares e sobretudo como Almeida Santos, este último convencido, ao
que parece, que um Portugal democrático era conciliável com uma
descolonização com permanência branca consistente em África (…)”. (Lourenço,
Eduardo, O Labirinto da Saudade, Lisboa, Gradiva, 2000, pp. 48, 49).
Fica a sugestão: se quer conhecer melhor
o Portugal do século XX – mas também o deste primeiro quartel do século XXI – não
deixe de ler Eduardo Lourenço. E, principalmente, se é “Português que se preza”
não festeje o 25 de Abril: festeje antes o 25(24) de Abril. – Nunca se sabe para
onde as coisas podem virar e, afinal … “a ditadura não teve apenas coisas más.”
nelson anjos
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