Terras
do Demo
Aquilino Ribeiro
Devo
comparar a leitura de “Terras do Demo” de Aquilino Ribeiro à das que costumo
fazer de títulos de língua inglesa ou francesa. É que posso saber o suficiente
para compreender o que diz o autor, mas passo por cima de muitas palavras
desconhecidas, cujo sentido apenas suponho.
É
claro que, acaso fosse um leitor mais criterioso, postar-me-ia com o dicionário
ao lado e não passaria nenhuma página do romance sem que o tivesse de consultar
várias vezes para depreender o seu verdadeiro significado.
Na
escrita de Mestre Aquilino é essa uma inevitabilidade, que desafia o leitor: o
vocabulário é tão rico, que muitas das palavras por ele utilizadas já devem
estar quase eliminadas do léxico nacional por não haver quem as utilize.
Mas
a leitura de “Terras do Demo” que, em 1919, foi um dos primeiros romances do
jovem Aquilino, impressiona ainda pela qualidade e maturidade do autor, então
com apenas 34 anos.
Situado
na zona geográfica aonde nasceu o autor, o romance decorre de um conhecimento
profundo das suas gentes cujo linguajar replica e cujos valores sociológicos
testemunha. Sobretudo quando descreve as cerimónias religiosas, os enterros e
as festas populares com grande preocupação pelos mais pitorescos detalhes.
Longe
da capital e das preocupações da classe política, essas terras correspondem ao
cu de judas de todos esquecido, mas aonde se mantêm valores cristalizados na
tradição de muitas gerações.
Existe
um servilismo feudal dos que nada têm pelos que ainda são considerados como
fidalgos (apesar da República ter sido implantada há nove anos) e a única forma
de progredir é a dos brasis para aonde se escapulem vagas de emigrantes,
dispostos a regressarem em poses de nababos.
Mas
essas ausências prolongadas têm efeitos complicados: ao Alonso, que andara ao
trapo pelo Rio de Janeiro, já o Brás plantara um cuco no seu ninho. Razão
porque os irmãos da adúltera Zefa se travam de razões com o sedutor, acabando
uns e outros seriamente feridas por pancadas ou navalhadas.
Outra
hipótese é o roubo e foi assim que a Rosa do Gaudêncio arranjou as suas
quarenta moedas de ouro, ao espoliá-las de um distraído almocreve, quando este
passara a noite na pensão do seu pai.
Só
que quem acumula riqueza sem perder os preconceitos da sua anterior pobreza não
a investe, antes a esconde aonde os invejosos à sua volta a não possam
abocanhar. Daí que essa mesma Rosa passe uma vida inteira de grandes provações,
quando elas poderiam ter sido bem menos difíceis de suportar se se tivesse
atrevido a usar o espólio escondido no cepo de madeira aonde se costumava
sentar.
Mas
a terra é também de padres, que fazem filhos e levam as jovens crentes «ao
calvário» sem que ninguém lhes leve a mal as ousadias. Mais do que as
proibições e os preconceitos existe uma aceitação conformada pelas
manifestações da natureza. Até porque não faltam coscuvilheiras dispostas a
servirem de facilitadoras nos encontros clandestinos entre os homens dados á
concupiscência e as ingénuas vítimas condenadas pela sua credulidade. Como por
exemplo Glorinhas, que protagoniza a segunda parte do romance.
Durante
uns anos ela viveu a ilusão de um namoro com o Mioma, o fidalgo da aldeia, que
quase todos afiançam ter cobrado à rapariga a virgindade, até por ele ser dos
primeiros a disso se vangloriar.
Incapaz
de contrariar a vontade da mãe que não o quer ver casado com quem não é do seu
estatuto, ele parte durante um par de anos em visitas pelas capitais europeias.
Ao
regressar já a rapariga se esquiva a novos encontros, até por ter aceite a
proposta do Joaquim Javardo, um agricultor abrutalhado, mas com riqueza
acumulada. A
possibilidade de ver a rapariga a servir de leito ao labrego leva-o a
multiplicar-se em artes de sedução, para o que conta com a ajuda da mais hábil
de entre as alcoviteiras locais. E consegue desfazer o noivado … sem que lho
proponha consigo enquanto asizada alternativa. E, quando, enfim, a tal se
decide acaba por encontrar Glorinhas violada por João Bispo, o atrasado mental,
que há muito cobiçava a prendada vizinha.
É
nesse final aberto que Aquilino deixa o leitor, quando acaba o livro. Com a
violência do ato a corresponder a toda a agressividade latente numa terra
agreste, que só o Demo poderia consagrar...
Pedro Mendes
Comentários
Mas hoje venho a outro assunto. Sem precisar se a esta, se a outras obras do autor, associo a ideia de personagens do nosso velho mundo rural que Aquilino pinta com traços poderosos de uma certa grandeza telúrica, bárbara. Tal como o faz também Alves Redol, por exemplo em “Barranco de Cegos”.
Está claro que a obra romanesca não deve obediências ao rigor do estudo sociológico – no caso, sociologia rural. Mesmo assim, não consigo evitar um certo sentimento de “fraude” – à falta de melhor termo – quando comparo a ruralidade de Aquilino, por exemplo com a de Torga. Em Torga o homem das fragas serranas tem pouco de grandioso. É porco e mesquinho. E a sua valentia não vai além da necessária para uma sacholada na cabeça do vizinho, por causa de cinco minutos a mais de rega na fonte comunitária, ou a pretexto de umas extremas de um pequeno pinhal, que dá mais trabalho do que rendimento. (Lembro não sei que historiador).
Vejamos o que diz Torga do aldeão de Vila Nova (Miranda do Corvo) a que se refere no seu Diário:
Vila Nova, 22 de Janeiro de 1936. “… Estrume da cabeça aos pés. Entre o porco e o dono não há destrinça.”
Em “Terra que já foi Terra”, diz Paulo Monteiro, sobre a agonia de uma aldeia da serra da Lousã (Cerdeira): “Na Cerdeira, dos três derradeiros habitantes, um deles matou a vizinha, e o terceiro habitante, irmão da morta, partiu.”
Ora, esta outra fotografia é bastante diferente da que Aquilino – ou Redol – propõe. E, do que vou conhecendo da realidade, parece-me mais fidedigna. Julgo que, Aquilino e outros, tiveram – vá-se lá saber porquê – a preocupação de produzir grandezas míticas, acerca do nosso meio rural, onde de facto elas nunca existiram. (Mesmo assim – vá-se lá também saber porquê – continuo a gostar de Aquilino.
nelson
(Mas também continuo a gostar de Aquilino).
Torga é, sem dúvida, mais realista em relação ao mundo rural.
Aliás, eu, como habitante das serranias, posso ser, desse facto, testemunha.
"Não posso. Passar a vida assim, a jogar a bisca com o prior, a levantar-me às tantas da madrugada para ir ver um doente ao Gandramás, a ouvir e a contar histórias de caça o resto do tempo, valha eu o que valer, é um destino que não mereço."