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Em 1980, Chico Buarque lança o seu álbum Vida, no qual se inclui a canção Eu te Amo, cuja letra podem ler abaixo.

 Eu te Amo

Chico Buarque

 

Ah, se já perdemos a noção da hora,
Se juntos já jogamos tudo fora,
Me conta agora como hei de partir.
Se, ao te conhecer dei pra sonhar, fiz tantos desvarios,
Rompi com o mundo, queimei meus navios.
Me diz pra onde é que inda posso ir.
Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas,
Diz com que pernas eu devo seguir.
Se entornaste a nossa sorte pelo chão,
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu.
Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu.
Como, se nos amamos feito dois pagãos,
Teus seios inda estão nas minhas mãos,
Me explica com que cara eu vou sair.
Não, acho que estás te fazendo de tonta.
Te dei meus olhos pra tomares conta,
Agora conta como hei de partir.

       

Foi só mais um momento de génio do Chico Buarque como escritor de canções. Apenas mais um dia no escritório.

Virando a página, creio que estão familiarizados com as marcas de roupa e acessórios que se conseguem adquirir a bons preços nas feiras de todo o país. Por exemplo, podemos comprar uns belos ténis da Nice, ou um fato de treino da Ardidas, e para as senhoras, uma malinha da Doce & Cabana. Ora, foi mais ou menos isso que Tozé Brito nos ofereceu em 1982 quando, no seu álbum Adeus até ao meu regresso, incluiu uma obra prima da contrafacção, a canção que dá pelo nome Diz-me. Ei-la em todo o seu esplendor:

  

Diz-me

Tozé Brito

 

Como vou sair daqui agora,

Se o teu corpo já moldou o meu colchão.

Como o teu peito, noite fora,

Se moldou sempre à minha mão.

Como vou partir, se aqui agora,

Sob o travesseiro desta cama,

A tua camisa de noite

Se abraçou ao meu pijama.

Diz-me como posso eu ir-me embora,

Se aprendi contigo a não chorar.

Como vou sair porta fora,

Vida fora, sem lembrar

A dor que bebemos gelada,

Os nossos silêncios num cinzeiro.

Como vou esquecer o teu rosto,

O teu gosto, o teu cheiro.

Como vou partir daqui agora,

Se o meu corpo ama quase em segredo.

Trago nas costas os caminhos

Que me rasgaste com os dedos.

Diz-me como posso partir.

 

Para aqueles que não tenham reparado nas semelhanças, dissequemos um pouco estas duas canções. Ponto número um: Chico Buarque insiste, ao longo da canção, na ideia expressa nos versos:

 

Me conta agora como hei de partir

Me diz pra onde é que inda posso ir

Me explica com que cara eu vou sair

 

Tozé Brito, num arroubo de originalidade, pontua a sua canção com os versos:

 

Como vou sair daqui agora,

Como vou partir, se aqui agora,

Como vou partir daqui agora,

 

                Mas as semelhanças não se ficam por aqui. Atentem nos versos que se seguem, o primeiro de Chico Buarque, acompanhado em seguida pelo seu equivalente da marca branca Tozé Brito:

Teus seios inda estão nas minhas mãos

Como o teu peito, noite fora,

Se moldou sempre à minha mão.

 

Ou já agora…

 

Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

A tua camisa de noite

Se abraçou ao meu pijama.

 

E para terminar, uma vez que Tozé Brito não quis deixar qualquer dúvida sobre a originalidade da sua criação, ao verso final de Chico Buarque:

 

Agora conta como hei de partir

 

Tozé responde com um inédito:

 

Diz-me como posso partir.

                Desculpem, mesmo usando luvas e pinças para mexer nisto que aqui temos, tive necessidade de ir à casa-de-banho regurgitar.

                Porque me fui lembrar hoje de falar no assunto? Devo dizer que não conheço profundamente a obra de Tozé Brito, mas tropecei nesta canção há uns anos, e sendo bastante conhecedor de Chico Buarque, a semelhança saltou-me de imediato ao ouvido. Entretanto, mais recentemente, vi uma entrevista do Rui Veloso, na qual ele se queixava do facto de o Tozé Brito, na qualidade de presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, ter vindo a público já mais do que uma vez defender alegados plagiadores. Dizia o Tozé, entre outras pérolas, que era quase impossível provar um plágio na música, e também (a minha favorita) que não existe plágio quando a canção tem um espírito próprio. Está giro… Neste caso que hoje vos apresentei, no entanto, não existe plágio musical ou literário, mas que o espírito da canção de Chico Buarque foi gatunado, ai isso foi.

                Agora se me dão licença, terei de parar porque acabei de ter uma ideia genial para um conto infantil e quero começar já a escrever. Trata-se da história de três galinhas. Uma que constrói uma capoeira de palha, outra constrói de madeira, e a terceira constrói em tijolos e cimento. Nisto vem a raposa má e começa a soprar…

 Francisco Anjos

 


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