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Foi no tempo da peste

que aquele homem agreste,
os lábios oprimidos, de tão juntos,
mostrou gostar de defuntos
e se pôs a predicar:
aqui ninguém morreu.
Essa gripezinha não vai me pegar,
com minha história gloriosa
não tem nada que possa me deter.
Vamos escolher seguir em frente.
A economia não pode parar.

Foi no tempo da peste
que aquele homem agreste
deu o beijo da morte:
e tombou Marielle,
e tombou Bebiano,
e tombou Adriano,
e então ele saiu para abraçar o povo.
De novo
cuspiu,
beijou,
vociferou.
E cada perdigoto fez defunto tombar.
Aqui não aconteceu nada.
Cada um para sua casa.
Aqui ninguém morreu.
E se morreu foi acidente,
ou foi o acaso.
O único caso suspeito é o meu.
Quem mandou me matar
e falhou?
E tinham mesmo que morrer trinta mil.
Sem uma guerra civil,
o que será de nós?

Foi no tempo da peste, repito,
que aquele homem agreste, com os lábios tão juntos
nos obrigou a contar defuntos,
para dar de ombros no fim do dia,
com uma piada,
com uma mentira,
com uma risada sinistra,
enquanto na beira do túmulo você chorava
e corpos se amontoavam
em containers,
em sacos,
em valas comunitárias,
em frigoríficos.
Ele dizia: isso logo passa.
Não tem pandemia.

Foi no tempo da peste, o tempo de hoje,
quando o céu arvorou-se
a chover esperança,
que ele vinha e gritava:
Trabalhar!
Trabalhar se não tudo cai no meu colo.
Todo mundo há de morrer um dia.
Quem há de temer a chuva?
Bota uma capa e vem para chuva também.
O que importa é a economia.
E eu juro, havia vozes que diziam:
Amém.

Foi no tempo da peste,
num domingo,
que ele subiu na caminhonete
e disse:
Vamos acabar com a bagunça
eu tenho o exército
e vocês contem comigo
Eu mato.
Eu atiro.
Eu não negocio.
Contem com o seu presidente.
E tossia.
E morria.
E matava aos poucos.
E eu morria também.
E eu juro que eu ouvia:
Amém.

Foi no tempo da peste,
as pessoas tinham fome.
As pessoas não tinham comida.
As pessoas não tinham gás.
As pessoas só podiam era olhar a tevê.
Ou olhar para trás.
E ver
Satanás nos olhos do Messias:
Vocês querem que eu faça o quê?
Todo mundo vai morrer um dia,
ele dizia.
E dava as costas.
E falava da sua caneta.
Dos seus filhos.
E ia se afastando
e grunhindo baixo
arrastando o rabo
com seu cheiro putrefato.
Com seu orgulho de atleta.
E repetindo:
Só vão morrer os velhos.

Foi no tempo da peste,
a cornucópia de mentiras do homem agreste
infectava as crianças com ranho
e elas se riam dele.
E davam apelidos ao palhaço da tevê
E diziam Bozinho,
Bonorinho
Bolsonarinho
e se riam.
E imitavam o palhaço da tevê.
E as crianças logo cedo morriam também
daquele vírus que só matava velhinhos.

Foi no tempo da peste,
na hora mais dura,
que ele dizia:
E daí? Não foi nada disso.
Tem muita mentira.
Porque ninguém morreu.
Ontem estávamos voando.
Éramos a primeira economia.
E ninguém ia nos deter.
Minha filha,
a culpa é da China
dos comunistas.
O povo está comigo.
E eu vou abraçá-los.
Porque o povo sou eu.
E caem.
Eu sinto que caem e eu ouço e eu gosto.
Mais cinco mil nessa fossa.
E é tudo mentira.
E sempre mentira.
Fake News é a nova bossa nova.
O covid é o coração do Brasil.

Foi no tempo da peste,
foi hoje cedo,
que ninguém morreu.
Morreu só um.
Morreram cem.
Morreram mil.
Morreram dois
três
quatro
cinco mil.
E mais quinhentos depois.
E daí?
Não sou coveiro.
Não sou messias.
Não sou presidente.
Não sou nem gente.
A constituição sou eu.

Foi no tempo da peste
e não vieram tanques
e não vieram deuses
e não vieram anjos
os terroristas não vieram
nem a extrema esquerda o sequestrou
e nem ninguém meteu-lhe uma bala na testa
não teve festa na cobertura
não teve churrasco de formatura
não teve orgia na casa de cultura
e nem unicórnios vieram
porque
aparentemente
a esperança era uma cama vazia
sem oxigênio
num hospital apinhado de corpos
com uma tevê
em que passava
mais um discurso do presidente
morrendo
te fazendo morrer
no tempo contínuo da peste.

Necromancia tropical -Wilson Alves Bezerra 

 

 

Pressupostamente deveríamos falar de livros que já tivemos oportunidade de ler, mas, neste caso, vou falar de um livro que não li (ainda…).

Para começar é um livro de Poemas, o que não é o meu forte, da autoria de um senhor do qual só ouvi falar há umas semanas num programa da antena 2. Ouvi-o ler alguns enxertos da sua obra e percebi nela uma dureza que nos incomoda, mas que coincide com a realidade do seu país.

Wilson Alves Bezerra, seu nome, é poeta, escritor e tradutor, professor universitário, doutorado em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

As circunstâncias muito particulares em que se encontra o Brasil desde a eleição de Bolsonaro e a forma tenebrosa com que este tem tratado a pandemia, levou-o a escrever esta obra que arrepia.  Os números falam por si e já são tantos milhares as vítimas desta política assassina que nos faz lembrar aquela frase: um morto é uma tragédia um milhão de mortos é uma estatística.

Li três textos (ou Poemas em Prosa) e acabo por concordar com a forma como o livro foi caracterizado: duro!

Segundo o autor, começou como um projeto de poesia falado (de voz). No início seria uma crítica aos discursos, atitudes e políticas de Jair Bolsonaro. Tomou outra direção com a pandemia tornando-se num grito de alerta ao grau do absurdo e do inaceitável que a situação atingiu.

Da primeira parte, o poema “Cavalgadura” mostra-nos um presidente em que muitos ainda teimam em acreditar apesar dos seus incitamentos à violência, ao estado na mão dos militares, às armas para todos…Da segunda fase, “Esse Ar” é mesmo o ar, oxigénio, que muitos não conseguem ter para poder sobreviver à doença e morrerem por falta de uma política de saúde que poderia salvar muita gente.

Wilson Alves Bezerra denuncia a forma como se tenta tornar “normal” toda esta dura realidade (só estão morrendo os velhos, vai passar logo, é só uma gripezinha…), responsabilizar os que são responsáveis e lembrar que a arte e a poesia têm o seu papel de resistência ao que se passa, para acordar os espíritos mais adormecidos. Confessa que é uma obra em progresso e que mais trabalhos serão introduzidos com a evolução da situação

Que outra poesia seja possível no Brasil, em breve!

 

Marília Pinho


Comentários

A democracia, tal como qualquer outro sistema, só faz sentido, na minha opinião, entendida como um processo, onde conflituam dinâmicas de avanço e dinâmicas de retrocesso. Até que este potencial de conflito se esvazie e ceda lugar a um ciclo de caminhos novos. São as roturas, as mudanças de paradigma. As revoluções, quando as reformas já não produzem soluções.
Sempre pensei que o espaço de confronto democrático, mesmo num tempo de retrocesso, assegurasse, no mínimo, a impossibilidade de fenómenos do tipo Bolsonaro. Ou Thrump. Ou outras variantes. Penso cada vez mais que não, que a democracia se encontra já vazia de soluções, e em rota avançada de decadência, eventualmente irrecuperável. Desconheço o que se possa seguir. A história mostra que períodos houve em que, findos estes, se sucederam outros piores. Mas também o contrário. O brilho de civilizações antigas, como a suméria, ou a egípcia, não conseguiram ultrapassar os seus limites e sucumbiram à barbárie. O mesmo viria a suceder mais tarde com Atenas e Roma.
Mas também é verdade que, séculos mais tarde, mais uma vez novas luzes se voltaram a acender. E que tudo isto sempre foi obra dos homens.
Por mim, que se remende a roupa e os sapatos enquanto ainda forem utilizáveis. Quando deixarem de o ser, adquira-se roupa nova. Claro que, como se sabe, o novo é sempre uma carga de trabalhos … ! É a vida. – Um dia destes falarei aqui sobre isso.
nelson

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