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       Vencer o Medo

       Para dar alguma “pica” ao povão, – e conseguir mais uns votozitos – como sempre acontece em períodos eleitorais, o poder prepara-se para, mais uma vez, lançar das suas janelas algumas mãos cheias de rebuçados. A “bazuca”, que se encontra já reduzida apenas a “vitamina”, não dá para mais. A “democracia” deixou de ser erótica e encontra-se, cada vez mais, próxima da pornografia de vão de escada. E o “viagra” político não resolve tudo. O parlamento e as suas comissões de inquérito aos Ricardos Salgados deste país estão para a “democracia” como a praxe académica pacóvia está para a universidade.  Como dizia o outro: por cá vamos andando! …

       “Para grandes males, grandes remédios”. Em tempos de democracia de “fim da história”, e de medos, – novos e antigos – faz todo o sentido recuperar este convite de Carvalho da Silva a que vençamos o medo (Manuel Carvalho da Silva, Vencer o Medo, Lisboa, Temas e Debates, 2012). Desde logo, o medo de pensar; – uma das mais radicais aventuras, ao que se sabe, apenas ao alcance dos homens.

       Alguns devaneios e rebeldia, próprios da juventude, foram insuficientes para evitar que a nossa “democracia” visse, desde cedo, o seu espaço de crescimento confinado à catacumba parlamentar. Brandos costumes e “respeitinho” nativos, a que se juntaram reverências e salamaleques de salão, importados de latitudes onde ao tempo cheiravam já a bafio, deram por cá lugar ao que seria considerado o último patamar da nossa escalada saloia, rumo ao progresso e à civilização, impondo-se como cânone destinado a jamais ser questionado. Recorde-se, a propósito, a deferência bíblia com que foi tratada a Constituição, por alturas da última campanha para as presidenciais. Daí ser fácil supor o sentimento da mais profunda e perigosa heresia, por parte de quem leia, logo na capa do livro de Carvalho da Silva: 

“Os velhos consensos e submissões que nos trouxeram até aqui têm de ser atirados para o caixote do lixo. Há que encontrar compromissos novos, convergências geradoras de esperança, de confiança, de futuro.”

       Ai! Valha-me Nossa Senhora da Constituição! (uma falta grave na longa lista de “Nossas Senhoras” da nossa cultura religiosa, que desde já se deixa à atenção das competentes entidades eclesiásticas). E logo na capa! Autêntico manifesto “anti-sistema” a que nem André Ventura ainda se atreveu! – Heresia, pois, a exigir auto-de-fé com exorcismo incluído. É o mínimo para a consciência de qualquer “democrata bem formado” ou simples “cidadão de bem”.

       Ironia à parte, não podemos deixar de saudar calorosamente a irreverência que carrega o livro de Manuel Carvalho da Silva, em tempo de credos estabelecidos para sempre e medos de os questionar – como se a grande constante da história não seja a mudança. Coisa que, paradoxalmente, até a direita mais reacionária já percebeu. E a quem não pode ser entregue a reflexão sobre uma nova economia e um novo paradigma social, que defenda o planeta, ou a naturalização da ideia de um pequeno número de multimilionários poder ser detentor de um património igual ao do resto da humanidade. Corajoso e de leitura fácil, sem ceder à facilidade, constitui um convite à leitura e reflexão que vivamente se recomenda. Aqui se transcrevem alguns de um rasto de sublinhados e anotações que ao longo da leitura se foram deixando nas margens do livro:

“ (…) Entretanto, aos que, como eu, assumem que é preciso alcançar outro sistema, digo que não devemos desistir desse objetivo (…)”.

(Mais um que é perigosamente anti-sistema. Já somos dois Manel. Faltam apenas 9.999.998. Ainda não te chamaram populista?)

“(…) o movimento sindical europeu, no seu conjunto, não está a conseguir ser – na minha análise, essencialmente, por falta de autonomia e por contradições na utilização da sua força própria – uma consciência crítica ativa (social e politicamente); raramente age por antecipação, deixando-se conduzir para uma mera função de parceiro das agendas previamente definidas pelo poder político e económico, e é atrelado à credibilização e aplicação de conceitos que não são seus; hesita na exigência de reformas e na necessária afirmação de ruturas; (…)” .

“(…) Estamos desafiados a sermos exigentes nas nossas reivindicações, forçando reformas, sempre sem colocarmos de lado a luta por ruturas e a perspetiva de um outro sistema político mais justo. (…)”

(Cuidado, Manel, com essa insistência obsessiva nas ruturas …)

“(…) O capitalismo não será, seguramente, o último sistema da história da humanidade e a luta consequente dos trabalhadores e dos povos forçará soluções alternativas de progresso para a humanidade. (…)”

       (A menos que a humanidade se extinga antes do capitalismo. É uma hipótese a manter sobre a mesa. Mas, Manel, depois desta declaração anti-sistema não te vislumbro futuro brilhante, a não ser na próxima encarnação… política, bem entendido.)

       Uma autêntica pedrada no pântano, – onde a lenga-lenga sonolenta e a concubinagem político-partidária tomam a designação de “paz social”. E onde a direita do PS é cada vez mais a representação da direita – como dizia ainda Carvalho da Silva, não há muito, em artigo no Público. Nos tempos que correm, Vencer o Medo é de leitura obrigatória. (Claro que, depois dele, o Manel está imunizado relativamente ao risco de puder vir a ser convidado para integrar qualquer governo, por mais “geringonçado” que seja – digo eu).

Nelson Anjos


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