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ESTEIROS



“Para os filhos dos homens que nunca foram meninos, escrevi este livro”

 Hoje, 1 de Junho, dia da criança, evoco a obra “Esteiros” de Soeiro Pereira Gomes, um dos livros que redescobri nestas minhas andanças de sindicalista. Chamo também a cena este autor porque, nos últimos dias, foi rodado em Miranda o filme “O Pio dos Mochos”, inspirado num dos seus “contos vermelhos”.

Publicada em 1941, a obra narra a vida de jovens trabalhadores nas margens dos esteiros do Rio Tejo, em Alhandra, que fabricam peças de barro nos telhais. A história centra-se no percurso de Gaitinhas, Maquineta, Malesso, Cocas, Sagui e Gineto, abrindo-nos as portas da sua miséria e do seu sofrimento, arrastando-nos na busca do sonho – única saída para a pobreza e a exclusão – e da liberdade. Vemos estas crianças, os estivadores, os arrais, os descarregadores de carvão no seu trabalho árduo e penoso, situação contrária à das personagens que representam as classes privilegiadas, donas da riqueza. São eles os heróis anónimos de um diálogo entre o humano e a Natureza, a denúncia da injustiça e a busca de redenção, a solidariedade e a denúncia da pobreza e da penúria.

Acompanhamos as personagens ao longo de quatro estações, vivendo as suas preocupações e anseios, partilhando a sua fome e o seu fascínio pela Feira, assistindo aos roubos dos pomares e às aflições das cheias, vendo filmes de cowboys e nadando até à boca do esteiro, percebendo as enormes diferenças entre o mundo das possibilidades e do bem-estar e o mundo das frustrações e das privações. É a história de crianças que ainda não são homens, mas que também já não são crianças: só o sofrimento é o mesmo.

Toda a história é uma espécie de grito contra as injustiças de uma sociedade desigual e aviltante, que condenava os pobres a um destino de escravidão e indignidade. O trabalho infantil e juvenil, hoje felizmente ilegal e de modo geral combatido pelos países desenvolvidos, é um dos temas fundamentais do livro. Não por acaso, o autor dedica a sua obra aos “filhos dos homens que nunca foram meninos”.

Na epígrafe do romance, encontra-se uma alusão velada ao sistema capitalista: “Esteiros. Minúsculos canais, como dedos de mão espalmada, abertos na margem do Tejo. Dedos das mãos avaras dos telhais, que roubam nateiro às águas e vigores à malta. Mãos de lama que só o rio afaga.” Os canais de água, percorridos principalmente por crianças para extrair o barro necessário às olarias, são personificados e assumem características humanas, pois possuem “mãos avaras” que exaurem as forças e a vitalidade daqueles que são obrigados a trabalhar em locais tão insalubres, que provocam a fraqueza e doenças e, em última instância, provocam a velhice precoce e a morte das crianças obrigadas a assumir tarefas e trabalhos que são próprios dos adultos.

O romance, uma das referências mais emblemáticas do movimento neorrealista português, foi de leitura obrigatória nas escolas secundárias portuguesas durante duas décadas. É hoje um livro quase esquecido. No entanto, graças à sua ingenuidade, bravura e simplicidade, Esteiros é um documento marcante da história portuguesa do século XX – e deve ser relido para que não esqueçamos a fotografia amarga desses anos.


“Esteiros resiste até mesmo a esta vontade de apagar da literatura o empenhamento político-social; é precisamente essa a frescura da escrita, essa autenticidade das personagens nas suas condutas e nas suas frases, essa poeticidade flagrante.” (Urbano Tavares Rodrigues)

“A sua miséria e o seu abandono são de repente a sua liberdade e a liberdade pura alegria. [...] Descalços, esfarrapados, famintos, com a mãe a morrer ou o pai desempregado, submetidos por uns tostões à inominável violação de um trabalho animal, estas crianças nunca pedem dó e nunca fazem dó.” (Vasco Pulido Valente)

“Poder-se-á também dizer que um romance sobre crianças condenadas à miséria é singular no panorama literário nacional, despertando emoções particulares. Depois, ou talvez sobretudo, há a componente política. Por razões mais ideológicas do que estéticas, o romance entrou para o cânone escolar, sendo de leitura obrigatória na escola, depois do 25 de Abril, para só sair, talvez ainda por razões ideológicas, passados alguns anos. Por isso, muita gente, mais ou menos jovem, o leu ou, pelo menos, teve obrigação de o ler.” (Carlos Fiolhais)

Pedro Mendes

Comentários

Li este livro, penso eu, antes do 25 Abril. Lembro-me do choque que senti, por toda aquela vivência degradante e incómoda... As desigualdades sociais eram mais que evidentes! Sabemos que ainda hoje é uma realidade que acontece em muitos países, infelizmente. Dói, embrenhar nesta leitura... é uma realidade nua e crua. Diria mais, cruel.
Amado por uns e desamado por outros, acusado de panfletário e de colagem excessivamente partidária, que teria estreitado o seu ângulo de alcance como expressão artística, o neo-realismo foi, ainda assim, - e se a palavra era uma arma - uma arma contra a burguesia do Estado Novo. Para além da obra de Soeiro Pereira Gomes, a que se refere o Pedro, lembro também, das minhas leituras de juventude "Gaibéus" e "Barranco de Cegos" de Alves Redol, entre outros. Muito mais tarde li também Cardoso Pires - por exemplo "Alexandra Alpha" - que, à distância no tempo, me parece leitura a rever.

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