A Amiga Genial,
de Elena Ferrante
Normalmente desconfia-se de escritores que atingem fama nos
nossos dias pois os media criam e destroem, da noite para o dia, mitos e gente
fantástica que nem sabemos de onde vêm e o porque da sua popularidade.
Mesmo assim, como antes de recusar convém experimentar, foi
com o espírito aberto que comprei o primeiro livro da tetralogia de Elena
Ferrante. Não foi tão às cegas quanto isso pois alguém, cujo bom gosto pelas
letras eu reconheço sem sombras de dúvida, mo aconselhou e aqui vou eu…
Primeiro, a escritora: a Senhora Elena Ferrante foge
da luz dos holofotes, desconhece-se a sua verdadeira identidade, só dá
entrevistas (muito poucas) por e-mail e, para além de ter nascido em 1943, ter
uma formação em Estudos Clássicos, ensinar (ou ter ensinado) tudo o mais que se
diz sobre ela pertence ao mundo da especulação.
Segundo, a obra: vou no segundo volume, mas tudo
indica, que vou continuar. O primeiro, “A Amiga Genial”, narra uma história de
bairro na Nápoles dos anos 50 e 60, a amizade entre 2 crianças desde a sua
infância num ambiente de pobreza, onde predominam a hostilidade, a desigualdade e o
machismo. É numa Itália do pós-guerra, numa época de conflitos ideológicos
entre direita e esquerda, que todo o enredo se desenvolve e em que as crianças
crescem sem o mais elementar direito que lhes assiste que é a instrução. Tal
qual o nosso Portugal da época, estudar era só para uns poucos eleitos e tirar
a 4ª classe já era muito bom…
E, como regra geral, as raparigas ficavam de fora. Numa família, que na
época eram mais numerosas do que as de hoje, se os pais conseguiam por um filho
a seguir estudos para além do básico, escolhia-se o rapaz, mesmo que fosse
menos talhado para tal. Entre nós, alguns lembrar-se-ão com certeza de casos
desse género.
Mas esta obra não é só sobre a dificuldade de se instruírem. É também um
livro sobre a vida difícil daquelas mulheres, a violência doméstica que sobre
elas se abatia como um processo normal de existir, o excesso de trabalho, os
muitos filhos.
“Mas naquela ocasião vi nitidamente as mães de família do bairro velho.
Eram nervosas eram submissas. Iam caladas, de lábios apertados e ombros descaídos,
ou gritavam insultos terríveis aos filhos que as atormentavam. Arrastavam-se,
magríssimas, com os olhos e as faces encovadas, ou com traseiros largos,
artelhos inchados, peitos pesados, com os sacos das compras, e as crianças
pequenas agarradas às saias a pedirem colo. E, santo Deus, tinham mais dez, no
máximo mais vinte anos do que eu. No entanto, pareciam ter perdido os traços
femininos …. Tinham sido devoradas pelo corpo dos maridos, dos pais, dos
irmãos, aos quais acabavam sempre por se assemelhar, ou pelos trabalhos, ou
pela chegada da velhice, da doença. Quando principiava essa transformação? Com
o trabalho doméstico? Com as gravidezes? Com as pauladas?”
Em conclusão, a obra é um retrato honesto da condição feminina num
universo machista e violento. No entanto, não sentimos ao longo da leitura que
a autora pretenda hastear esta bandeira e ser condescendente com as suas
personagens. Pelo contrário, deixa-as moverem-se de forma natural, com todas as
suas qualidades e defeitos, num esforço de sobrevivência num mundo difícil.
Marília Pinho
Comentários
- Tenho que ler Elena Ferrante. Será depois deste livro.
Mas entretanto surgem duas ou três prioridades e a Ferrante leva com dois ou três livros em cima. E fica esquecida no limbo de outras leituras que se vão sucedendo. Até que um qualquer outro rebate me leve a declarar novamente: - Tenho que ler a Ferrante.
O texto da Marília voltou a despertar-me o interesse e a necessidade: desta vez vai mesmo ser verdade. Vou ler a Ferrante. Mas vai ter que ser depois das autárquicas.
Entretanto reparei num termo que a Marília refere, a propósito da Amiga Genial: machismo. Ora, eu prefiro o conceito de sociedade patriarcal, usado pelo Boaventura Sousa Santos. Acho tratar-se de uma ideia mais abrangente, sendo o machismo uma consequência, entre muitas outras. Mas deixo a zaragata para depois da leitura.
nelson