Cemitério de Pianos
José Luís Peixoto
Não tenho dúvidas em afirmar que José
Luís Peixoto é um dos escritores contemporâneos cuja escrita mais me
fascina. Com nítidas influências de Lobo Antunes e, principalmente de Faulkner,
adopta a técnica de múltiplos narradores que confere à escrita uma intemporalidade
encantadora. O tempo sai claramente vencido. Avô, pai e filho, uma mesma vida;
as mesmas angustias, que são as da gente simples, as de todos nós. "Éramos
perpétuos uns nos outros", afirma o filho de Francisco.
A obra baseia-se na vida de um maratonista
português que morreu, dramaticamente, ao quilómetro 29 da maratona dos Jogos
Olímpicos de Estocolmo, em 1912. Carpinteiro de Profissão, Francisco Lázaro era
filho e neto de carpinteiros. Nasceu no dia em que o pai morreu, como viria a
suceder ao seu filho.
Memórias de vidas repetidas formam
círculos concêntricos, fazendo-nos olhar a vida como um carrossel de
factos que, imperiais, dominam o destino e subjugam a existência. Ao longo de
toda a obra, predomina a beleza que só a tristeza pode dar às palavras. O
sentir da gente simples, os prazeres e as dores de quem vive à procura da
música nunca encontrada dos pianos avariados. A vida como cemitério da música.
E um maratonista que corre até à exaustão em busca de um sentido (que não
existe) para os círculos concêntricos.
Maria, operária fabril, passava horas
lendo romances de amor no cemitério de pianos (espécie de arrecadação onde se
guardavam pianos que ficaram por consertar). Maria procura nos livros o sonho
que não existe. Mas procura e assim vive; entre sonhos perdidos e musica que
não sai dos pianos; esperanças adiadas que não perdidas. Sonhos que são o
conforto e o alimento da vida. Maria lê; e quem lê foge sempre de algo; talvez
do medo, talvez das memórias, talvez de alguém. Mas vive; refugiando-se num
mundo novo, mas mantendo a esperança.
Sempre a esperança do maratonista que
corre como vive: à procura do sentido da vida e em fuga; fuga da culpa e do
medo, os grandes inimigos da vida: ninguém vive só a sua vida; vive também a
dos outros porque as suas atitudes os afectam e condicionam.
No meio de tudo isto, que interessa quem
vive e em que tempo? O momento presente encerra todo o passado. É Francisco
quem o diz na primeira pessoa: "todo o tempo, anos e décadas que vivi, que
não vivi, que viverei e que não viverei, existem neste momento". Passado,
presente e futuro num único e poderoso agora.
Pedro Mendes
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