Galveias
José Luís Peixoto
Ela não precisa de nada vindo dele.
A mulher tinha ido à vila na véspera da noite em que a terra esteve para
rebentar, e mais valia que tivesse mesmo rebentado, toda estraçalhada em
pedaços. Porque esperou tanto para lhe dizer? Naqueles dias, quando estavam
calados, ela escondia essa conversa no juízo. Traíra-o com o silêncio, traíra-o
com o barulho da chuva nas telhas.
O irmão aproveitava a cachopa para lhe atirar o dinheiro à cara.
Esse pensamento tinha garras. Arrancava-lhe o estômago da barriga a
sangue-frio, virava-o do avesso, a escorrer ácido, e voltava a arrecadá-lo.
Esse pensamento espetava-lhe uma dessas garras direita ao coração,
atravessava-o; espetava-lhe outra no topo da cabeça e mexia-lhe os miolos até
os transformar em água suja, a ferver.
Foi a minha segunda tentativa no
universo do José Luís Peixoto. Sendo que a primeira incursão não me seduziu,
desta feita entrei decidida pelas ruas de Galveias, conversei (em silêncios)
com as personagens e até cheguei a apaixonar-me um bocadinho pelo autor…
A narrativa é densa, os diálogos são
os estritamente necessários, a tensão estica a corda da primeira à última
folha, mas o que mais me atraiu foi a cadência original entre palavras. Tendo
alguns conhecimentos de música é fácil comparar esta originalidade escrita com
a criação musical: sendo que existem apenas um número limitado de notas
musicais e que a maioria da música produzida hoje tem toda o mesmo sabor e cheiro
(chegando até a haver quem diga que toda a música já foi escrita, o demais são
variações dos temas), é curioso como, de vez em quando, aparece um tema
composto com essas mesmas notas mas entrançadas por algum mágico que as faz
soar novas, com sabor e cheiro diferentes.
José Luís Peixoto escreve assim,
entrança as ideias de uma forma inesperada e mágica. Neste caso deixou o livro
inteiro a cheirar a enxofre e eu gostei!
Rita Anjos
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