Avançar para o conteúdo principal

 



Metamorfose de uma palavra

 (...)

   A diferença essencial entre aquela cultura do passado e o entretenimento de hoje é que os produtos daquela pretendiam transcender o tempo presente, durar, continuar vivos nas gerações futuras, enquanto os produtos deste são fabricados para ser consumidos nesse instante e desaparecer, como os biscoitos ou as pipocas. Tolstói, Thomas Mann, tal como Joyce e Faulkner escreviam livros que pretendiam derrotar a morte, sobreviver aos seus autores, continuar a atrair e a fascinar leitores nos tempos futuros. As telenovelas brasileiras e os filmes de Bollywood. como os concertos de Shakira, não pretendem durar mais do que o tempo da sua apresentação e desaparecer para deixar espaço a outros produtos igualmente bem-sucedidos e efémeros. A cultura é diversão e o que não é diversão não é cultura.

(...)

    Para esta nova cultura são essenciais a produção industrial massiva e o êxito comercial. A distinção entre preço e valor eclipsou-se e as duas coisas são agora uma só, em que o primeiro absorveu e anulou o segundo. O que tem êxito e se vende é bom e o que fracassa e não conquista o público é mau. O único valor é o comercial. O desaparecimento da velha cultura implicou o desaparecimento do velho conceito de valor. O único valor existente é agora aquele que o mercado fixa.

(...)

 (Mario Vargas Llosa, (2012), A civilização do espetáculo, Quetzal Editores)

  

    Aqui está uma proposta de leitura e reflexão muito pertinente num momento em que os agentes culturais (entre outras classes profissionais) se queixam dos efeitos nefastos da pandemia no sector do espectáculo.

    Neste livro, Mario Vargas Llosa apresenta-nos o seu pensamento sobre a "cultura", a sua evolução, o papel fulcral que a religião desempenhou na mesma, o poder do dinheiro na sua transformação e como, à boleia da democratização, a cultura caiu numa espiral de banalização, "superficialização", uma metamorfose que alargou o próprio significado da palavra "cultura" de modo a integrar obras de criação humana que, há 200 anos, provavelmente nunca teriam lugar no conceito elitista mais restrito da cultura. Vargas Llosa apresenta várias ideias, nem todas me convencem em pleno, mas no excerto que aqui transcrevi, pouca coisa eu apontaria. 

    Não sei se os criadores do passado procuravam deliberadamente a imortalidade através da sua obra. A verdade é que vários deles o conseguiram. Já os criadores do presente (ou a maioria deles) fazem cultura adequada ao mundo em que vivem: descartável, rápido, superficial, imediato. Por isso mesmo acredito, como Vargas Llosa, que a obra cultural de "fast food" não conseguirá transcender a morte dos seus autores (nem mesmo o mero tempo de vida destes).

    Acerca da dicotomia valor/preço, muito há também a dizer, e a leitura do livro de Vargas Llosa será muito mais esclarecedora do que qualquer ideia breve que eu aqui exponha. Deixo no entanto uma questão: Na minha qualidade de leigo em matéria de pintura, se eu achar feio um quadro de Pollock, o seu valor baixa só porque eu, um analfabruto na matéria, dei a minha opinião?

Francisco Anjos



Comentários

Mensagens populares deste blogue

  Os professores portugueses não sabem ensinar Ricardo Araújo Pereira Expresso – 20 janeiro 2023     Enquanto professora não tenho outro remédio senão concordar com as sábias palavras do Ricardo Araújo Pereira. Assim, o que aqui se propõe é o documento MUSAI – Medidas Universais de Suporte à Aprendizagem e Inclusão, para o aluno João Costa. Peca por tardio, mas, uma vez que nos dias que correm, é praticamente impossível reter alunos (vulgo «chumbar»), consideremos que este aluno se encontra ao nível de um primeiro ciclo do ensino básico. Segue-se o documento:   Rita Anjos           Ano Letivo 2022 / 2023 Monitorização e Avaliação da eficácia das MEDIDAS UNIVERSAIS DE SUPORTE À APRENDIZAGEM E INCLUSÃO - MUSAI (Artigo 20.º do Decreto-lei n.º 54/2018, de 6 de julho)   Nome ...
 Hoje, como outros dias e momentos, surgem na mente todos os idosos espalhados pelos lares de Portugal e não só. Fazer comparações? Só quem tenha trabalhado fora do país nos mesmos e tendo regressado a casa, ou seja Portugal, tenha continuado a exercer as mesmas funções. Assim poderá opinar sobre a complexidade desta matéria: os idosos! Já não basta serem empurrados para o confinamento entre quatro paredes, chega o confinamento de uma pandemia chamada covid-19, que os condiciona a uma existência sem 'vida', sem alternativa para outras saídas. As famílias, em geral, já não têm tempo para deles cuidar; cansados por um dia de trabalho, a correria para ir buscar os filhos à escola ou a outras actividades, seguido de outros afazeres domésticos, já não tem paciência ou disposição para cuidar dos seus idosos. No entanto, ainda há quem tenha essa responsabilidade, e custe o que custar, cuidam dos mesmos. Estaremos a ser egoístas?  Estamos a afastar do nosso convívio pessoas com sabedo...
  Regresso a Eduardo Lourenço        Quando não me parece esperável o tal rasgo de génio nalgum dos tais “10 Melhores Livros do Ano”, todos os anos anunciados pelas editoras mediadas pela última palavra dos “críticos literários”, que justifique o seu custo, mas principalmente o tempo exigido para a sua leitura, refugio-me nos de sempre: Eça, Camilo, Aquilino.        O exaurido discurso dos líderes partidários, em campanha, leva-me a atitude idêntica. E fui uma vez mais desembocar em Eduardo Lourenço, para intervalar a leitura de Uma Teoria da Democracia Complexa de Daniel Innerarity. Que desde já recomendo. “ (…) Sejamos lúcidos: a campanha presidencial passada, por mais curta que seja a nossa memória cívica, se alguma coisa demonstrou foi que não havia, nem há, nenhuma Esquerda em Portugal que possa ser sujeito de um projeto político, económico e social com aquele mínimo de coerência e de credibilidade capaz de enc...