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Reaccionário com dois cês – Rabugices sobre novos puritanos e outros agelastas

Ricardo Araújo Pereira

 

Como feminista, considero o seguinte: a importância da entrada das mulheres na política reside no facto de as mulheres terem tanto direito a estar na política como os homens. Não é relevante se acrescentam, retiram ou deixam tudo na mesma. Têm o mesmo direito, e é tudo. Qual é a importância da entrada dos negros na política? A mesma. Têm esse direito. No entanto, creio que toda a gente teria achado absurdo que alguém perguntasse a Barack Obama se havia uma forma negra de encarar a política. Assim como não se pergunta a Donald Trump se há uma forma alaranjada de encarar a política. Trump, bem como qualquer outra pessoa cor de laranja, tem o direito de participar na vida política.

 

Não sei escrever sobre política, por isso terei muito pouco a dizer sobre este texto.

Como entendo pouco do assunto, digo apenas que compreendo o ponto de vista do Ricardo ao declarar que toda a gente tem o mesmo direito de participar na vida política, mas só no final deste excerto é que dou o braço a torcer e a mão à palmatória.

Quando ele começa a crónica (cuja leitura na íntegra aconselho vivamente), eu sinto que, enquanto mulher, «não é bem assim, nós temos a nossa palavra a acrescentar, seja na política ou em qualquer outra área». E, como não entendo nada de política, cá dentro de mim, em voz baixa, penso que é óbvio que acrescentamos valor. Tantos anos de luta pelos direitos das mulheres que ainda não são reconhecidos em todos os cantos do mundo, tanta reivindicação, tanto esforço, tanto soutien, em perfeito estado, reduzido a cinzas… como não acrescentamos valor?

Depois ele continua, e desta vez traz os negros e o Barack Obama à baila. A minha indignação cresce. Claro que têm que ver a política com outros olhos, claro que obrigatoriamente terão que encarar a política de outra forma. Enquanto embaixadores da luta pela liberdade e o fim da opressão, todos os negros têm a obrigação de participar na vida política “de uma certa forma”. Esta “certa forma” eu não sei bem qual é, não sou preta e não percebo um boi do panorama político.

Chegamos então à minoria dos alaranjados deste mundo e embora eu sinta o ímpeto de dizer AH, MALDITOS, ESSES É QUE NÃO! Acabo por ter que, como ignorante política que sou, compreender o que diz Ricardo Araújo Pereira desde o início e, dando o braço a torcer e a mão à palmatória, volto a o início e releio!

Finalmente, puxo a brasa à minha sardinha e peço a algum iluminado, tal como João de Deus fez há mais de cem anos, ao escrever a Cartilha Maternal com o objetivo das mães ensinarem os filhos a ler e procurar reduzir os vergonhosos números do analfabetismo em Portugal, alguém que escreva uma cartilha política que esclareça os ignorantes… é que somos muitos e eu tenho vergonha. Ora bolas, não há de ser assim tão complicado!

Rita Anjos

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