A Revolução da Música Portuguesa Foi Há 50 anos
(nuno galopim e joão lisboa, Revista Expresso)
Uma Canção é um objeto novo
“Acho que é mesmo uma fruta do tempo.
Coincidiram ali vários aspetos que talvez ajudem a perceber porque comecei por
ir por aí... o Zeca Afonso, o movimento dos ‘baladeiros’... tínhamos discussões
de caixão à cova entre nós por causa daquela prótese criativa que existia na
altura e que era pegar nos livros dos poetas e fazer canções. O debate — que
chegou a levar a cortes de relações — era sobre o que é uma canção. Uma canção
não é uma poesia servir de autocolante para uma música qualquer, é um objeto
novo, uma linguagem diferente. É filha, mesmo no sentido genético, da música e
da palavra. Não há hipótese de fugir a isso e eu insurgia-me contra essa mania
dos livros de poemas (ainda por cima, coisas neorrealistas), e fazer canções a
metro com dois, três acordes, primeira-segunda-e-marcha-atrás, uma melodização
extremamente pobre e, frequentemente, contraditória com o sentido das palavras.
Nem a música nem a poesia precisam de muletas para nada. São duas artes
importantíssimas que existem por si. Depois, acontecem esses encontros e isso
já é outra coisa. Desde a minha adolescência, existia uma ligação quase tão
importante, da minha parte, à música como à poesia. À música enquanto música e
à poesia enquanto poesia”
José Mário Branco- entrevista realizada em 2018.
Os meus
tempos dedicados a leituras têm sido cada vez menores e sem obras relevantes.
As férias acabam por nos desorganizar os dias, ou melhor, a organizá-los de
outra forma. Perdi-me, ultimamente, entre afazeres muito agradáveis mas muito
pouco compatíveis com atividades culturais.
Nesta
perdição, um destes dias topei com a revista do jornal Expresso com o título de
capa “A Revolução da Música Portuguesa Foi Há 50 anos”.
Não foi
novidade para mim mas não tinha consciência que já tivesse passado meio século.
Contudo, fazendo bem as contas, é isso mesmo que dá: meio século.
Lembro-me
bem de um dia, nos finais de 72, caloira no Porto, num dos cafés próximos de
Cedofeita onde costumávamos matar o tempo entre aulas, um colega mais velho falar
de Zeca Afonso. Cantou uma e outra balada, em tom quase sussurrante, e foi um
mundo diferente que se abriu.
Até aí, a
minha política era ser boa menina, tentar tirar boas notas, merecer o que me
tinha calhado em rifa nesta vida e pouco mais. A morte de Ribeiro dos Santos ,meses
antes, era falada, a boca baixa, mas só
entre alguns colegas. Nós, os mais novos,
recém-chegados, só aos poucos nos íamos introduzindo nos grupos mais
politizados.
A música, para
mim, foi o princípio! Foi aquele click!
Ao ler este
artigo do Expresso, relembrei esse tempo. Como era difícil ter acesso a certo
tipo de discos,…
Os textos do
Nuno Galopim e do João Lisboa no Expresso fazem-nos perceber que também era
difícil fazer música naquele tempo. Pelo menos música que poderia fazer a
diferença.
Narram a
epopéia da gravação de 3 albuns que fizeram história: Cantigas do Maio de Zeca
Afonso, “Mudam-se os Tempos Mudam-se as Vontades” de José Mário Branco e “Os
Sobreviventes” de Sérgio Godinho. Todos gravados em 1971 e ainda editados nesse
ano os dois primeiros, e em 1972 o de Sérgio Godinho.
Tudo isso
foi feito num palacete nos arredores de Paris onde funcionava um estúdio que
reunia condições de excelência. Foi aí que gravaram “Grândola, Vila Morena” e
aquele som de fundo inspirado no pisar das botas dos grupos de cantares
alentejano. Pessoalmente, lembra-me mais soldados a marchar… de qualquer modo,
a verdade é que gravaram o som no jardim desse palacete, durante a madrugada,
pisando a gravilha do chão. Consigo imaginar o gozo que devem ter sentido ao
ouvir o resultado. E, mais ainda, até onde essa canção nos levou como povo. E
já lá vai meio século!
Não vou
dizer que estes textos do Expresso sejam uma obra literária (é uma interessante
obra jornalistica, quanto muito) mas que são para nós, os mais velhos, uma boa
recordação não tenho dúvidas.
Extraí um
trecho de uma entrevista que José Mario Branco deu há uns anos sobre a música e
a poesia. Todos nós, que gostamos muito de música e também de palavras, sabemos
quão importante é que tudo se encaixe para termos realmente uma obra bem
acabada. Mas isto já é conversa para um outro dia, para um outro divagar.
Comentários
Só muito mais tarde tive disponibilidade para sentir a lírica desta gente. Muito diferente entre si mas toda de enorme qualidade.
nelson anjos