Não basta mudar as moscas …
Claro que não basta mudar as moscas,
caro autor. Decisivo é acabar com a merda. Que, como se sabe, é o habitat
natural daquelas: as moscas.
Refiro-me ao livro de Jaime Ramos sobre
o estado da república portuguesa. Vêm a propósito os outdoors da campanha para
as autárquicas, a que já aludi na crónica anterior, e que Pacheco Pereira, em
entrevista recente, dizia lembrarem cada vez mais os da RE/MAX, na área do
imobiliário. Para além das dimensões físicas, que os dinheiros da “bazuca” vieram
desnivelar mais, não têm outra coisa que os distinga. Por
exemplo, “AVANÇAMOS COM CONFIANÇA” (PS), “UM RUMO PARA MIRANDA” (CDU), ou
“MIRANDA MERECE” (CDS), são formas diferentes de dizer a mesma coisa: nada.
E, todos juntos, dizem o mesmo.
“AVANÇAMOS COM CONFIANÇA, UM RUMO
PARA MIRANDA.
MIRANDA MERECE”
Slogan que tanto serve para as
autárquicas de Miranda como para a direção do Desportivo Futebol Clube de
Alguidares de Baixo; para a direção da Associação de Caridade das Virgens
Septuagenárias ou para a Confraria do Pastel de Nata:
“AVANÇAMOS COM CONFIANÇA, UM RUMO PARA O PASTEL DE NATA.
O PASTEL DE NATA MERECE”
Trata-se de um slogan elucidativo do que
é uma democracia de serviços mínimos, de salário mínimo, a produzir cidadãos
mínimos que, obviamente, também não exigem mais do que o mínimo. Uma cultura de
cidadania mínima com laivos de Estado Novo.
O livro de Jaime Ramos constitui um
levantamento notável de muitas das limitações onde se atola esta “democracia” –
que o autor chama de formal e eu também –, para as quais avança algumas
soluções. E, se não concordo com muitas delas, relativamente a outras não tenho
dúvidas. Exemplos de ambas:
O subtítulo – “Lisboa, Amante Cara de
um País Pobre” – remete para um ruralismo antigo, romântico, que não
subscrevo. Aprecio-o em Eça de Queiroz de “A Cidade e as Serras” mas, no mundo
real, o velho confronto entre o rural e o urbano não se esgota nas dimensões do
romanesco. Ainda assim, sabemos que foi apenas quando, e onde, o homem se
organizou em grandes núcleos populacionais – cidades –, que conseguiu a chamada
“massa crítica” que lhe permitiu construir aquilo que a história designa por
grandes civilizações: Atenas, Roma, Alexandria, Cartago, e tantas outras. E que
o Estado também nasceu com a cidade. O próprio mundo cristão, desde a sua génese
distanciou-se do mundo rural e reclamou a cidade: Jerusalém. Os camponeses – os
pagãos – e as suas crenças eram tratados com desdém, de forma crítica e pouco
amistosa.
Por cá, foi também da Lisboa do Tejo que
partiram, carregados de vícios, de virtudes e de novas doenças, naus para todos
os cantos do mundo. E aí foi restaurada também a independência perdida para
Espanha; e se implantou a República; e aconteceu o 25 de Abril. E nada disto
aconteceu – não por obra do acaso – em Vale de Cima ou em Vale de Baixo. Vale
de Cima e Vale de Baixo sempre se limitaram a ir atrás dos acontecimentos, depois
de espreitarem por detrás do postigo para que lado pendiam as coisas.
“Os partidos ficaram vazios de ideologias
e convicções e transformaram-se em aparelhos de conquista e captura de poder.
Não estão em condições para dar formação política e moral aos filiados, nem são
capazes de travar interesses pessoais.” – lê-se na página 69. Não tenho
dúvidas. E a fumaça colorida das comissões parlamentares de inquérito, tem como
missão principal, mais toldar a visão dos cidadãos do que esclarecer. (Naturalmente
que, no meio desta estrumeira a céu aberto há que salvaguardar gente honesta,
como é o caso, entre poucos outros, por exemplo de Mariana Mortágua). Como
epitáfio de tudo isto temos os resultados de um estudo recentemente divulgado
pela media: quase dois terços dos cidadãos manifestam recetividade a formas
autoritárias de governo.
Também é claro para mim que a prioridade
de um sistema público de ensino deve ser ensinar, não esquecendo a preocupação
com uma intensa formação cívica, como se diz em diversas partes do livro. E
não, como é também abundantemente dito noutras, que essa prioridade deva ser
orientada para a descoberta dos “melhores”: “A primeira prioridade de
um sistema público de ensino num país democrático é descobrir os melhores, os
mais capazes, e apoiá-los no desenvolvimento das suas potencialidades”
(p.117). Não posso estar mais em desacordo. Desde logo porque não pode ser
ignorado o peso que têm, na formação das tais “capacidades”, as diferentes
circunstâncias sociais com que cada um se depara quando nasce. Por outro lado, e
se outras razões não houvesse, as capacidades não são um fluido homogéneo,
havendo uns que as têm altamente direcionadas para umas áreas do conhecimento,
e reduzidas para outras; e vice-versa.
Entre muitas outras questões que o livro
de Jaime Ramos levanta, aos meus acordos e desacordos escapa a questão da
regionalização. Sim ou não? – Seja-me permitido o direito à ignorância e à
dúvida: não sei. Quanto ao livro, mesmo decorridos dez anos após a sua publicação
continua a justificar leitura, não prescindindo da necessária crítica.
E como é de livros que aqui se trata,
lembro também o que diz Eduardo Galeano no seu Livro dos Abraços: “Os
votantes votam mas não escolhem”. Não me conformando com a condição de
votante, menos ainda quando o objetivo é mudar as moscas, nas próximas
autárquicas não votarei.
nelson anjos
Comentários
Quanto ao voto, não prescindo desse meu direito que levou tanto tempo a ser conquistado!
Cecília Pedro
Apesar das dúvidas concordo com o que é escrito e fico curiosa pela leitura. Estamos cada vez mais próximos da escala do Portugal dos Pequenitos.