Para onde vai Portugal?
Os
partidos, pelo menos os que temos, são hoje uma das mais conservadoras
instituições da sociedade. Não detêm saber para produzir soluções, são um
obstáculo a que isso aconteça, trabalham para o curto prazo.
Para aliviar a tristeza e a monotonia de
mais um velório eleitoral aqui deixo, como sugestão de leitura, a escrita de
Raquel Varela. Que, para além de uma mulher bonita é culta e inteligente.
Atributos cada vez mais escassos em campanhas eleitorais. Leitura imperdível. A
social democracia – independentemente da versão e do intérprete – vai nua e é
urgente a aventura de novos caminhos. Voltarei a este livro da autora, Para
onde vai Portugal?, de que deixo alguns excertos.
“O aprofundamento da democracia é hoje um desígnio central da
civilização, e exige mais intervenção da sociedade, recuperação do poder da
população sobre a res publica, em vez de se limitar a um cheque em
branco passado num ato eleitoral de quatro em quatro anos.” (p. 18)
“Nenhum partido sufraga hoje a defesa de uma sociedade
distinta, de um modo de organização social alternativo, e recusa qualquer
utopia social. Esta atitude observa-se programaticamente. Até o pleno emprego
embora vivamos hoje com 1 milhão e 400 mil desempregados – saiu das campanhas
públicas destes partidos, sem exceção, que insistem em apresentar os programas
emergenciais – rendimento mínimo, subsídio de desemprego – como panaceia para o
problema histórico da miséria provocada pelo desemprego e pelos baixos
salários.” (p. 22)
“Temos uma classe trabalhadora, a classe-que-vive-do-trabalho
(professor, médico, bancário, estivador, cantoneiro, bolseiro, enfermeiro,
engenheiro …), que percebeu os limites da delegação de poderes. Ainda não teve
força para, no seu lugar, erguer uma outra forma de organização social que
implique o exercício do poder, de forma direta, livre, igualitária e
democrática (não são chavões, um plenário que não dá voz a todos não tem
legitimidade).” (p. 26)
“… a questão fundamental a debater hoje não é se nas nossas
sociedades, uma vez bloqueado o caminho das mudanças por via de reformas, as
pessoas partirão para mudanças por ruturas revolucionárias. Isso é um dado
certo.” (p. 135)
“… jovens adultos que ganham 500 euros e que para não regredirem
(ir viver para um subúrbio, alimentar-se mal, etc.) se mantiveram em casa dos
pais até aos 25, 30, 35, 40 anos, pagando com isso o preço de uma
infantilização histórica de toda uma geração que desconhece a palavra
“independência” – os filhos da geração que fez a revolução contra a ditadura
(?) não tem liberdade sequer para sair de casa dos pais. Não têm asas.” (p.
148)
“Isso tem um impacto imenso na desvalorização das relações
afetivas, alerta Coimbra de Mattos, fazendo da família o lugar da necessidade e
não dos afetos mais livres. Desumaniza as relações afetivas, que passam do
reino humano da escolha ao reino animal da necessidade.” (p. 224)
Contra este estado de coisas que os
partidos, sem exceção, nuns casos ignoram e noutros promovem, contra o folclore
eleitoral quadrienal “pimba”, cada vez mais vazio de ideias, no próximo dia 26
não irei votar.
Nelson Anjos
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