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Elogio da Bicicleta

        Nos últimos tempos tornou-se prática comum, e quase exclusiva, por parte dos analistas sociais, o recurso ao ciclo, como modelo de base para a sua atividade. Conforme o objeto da análise, fala-se do ciclo António Costa, ciclo Rui Rio, ciclo PS, ciclo “geringonça”. Parece-me contudo que, para além destes ciclos de raio curto, um outro muito mais abrangente, que os envolve a todos e que os mesmos analistas vão evitando referir, vai fazendo o seu curso aproximando-se inexoravelmente do seu termo: refiro-me ao ciclo constituído pelo modelo económico vigente – o capitalismo – e culturas e instituições que ao longo do seu desenvolvimento se lhe associaram e o foram estruturando.

       Estou em crer que, pelo menos isto, e pelo menos o PCP – ou algum dos seus setores – ainda não o terá esquecido. E tenta nesta altura – não sei se a melhor ou sequer ainda a tempo – desatolar-se do pântano social-democrata-liberal onde, na minha opinião vem chafurdando há já tempo demasiado. Alianças ou acordos de conjuntura não têm que implicar a anulação – ou sequer esbater – as identidades dos parceiros e suspender as demais atividades que lhes dão forma. Refiro-me a PCP e BE. E pode-se sempre dizer NÃO, mesmo sem saber ainda com clareza a que dizer SIM.

       No quadro social atual, que pode sintetizar-se em “sistema”, direita e “esquerda vazia”, valha-nos, na ausência de esquerda efetiva, a bicicleta. Como se sabe, as revoluções tecnológicas sempre constituíram um elemento determinante do suporte que permitiu as revoluções sociais. Há muito que, nalguns dos países mais evoluídos, já não é o número de automóveis um indicador de desenvolvimento humano: é a bicicleta. No tope 5 estão, segundo números recentes, respetivamente a Holanda, a Dinamarca, a Alemanha, a Suécia e a Noruega. Por cá, o provinciano automóvel continua a ser o rei da festa (se for Mercedes ou BM, melhor!).

O Elogio da Bicicleta, de Marc Augé, tem poucas páginas que se leem de um fôlego, e termina afirmando: O ciclismo é um humanismo. Ou, páginas antes: “Ciclistas de todas as nações, uni-vos!”. De Mercedes não chegaremos a tempo: os Mercedes são lentos.

nelson anjos


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