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O Homem que não Tira o Palito da Boca

 

“(…) São poucos, por conseguinte, os acontecimentos que emocionam os homens e as mulheres que habitam o musseque do Sambila, em Luanda. Nem choros de crianças, nem gritos de mulheres espancadas pelos maridos, nem farras barulhentas, nem ruídos de brigas em plena rua, nem tiros, nem sirenes da polícia, ou de ambulâncias, nem demolições, nem notícias de assaltos, assassínios, óbitos esperados ou imprevistos ou epidemias desconhecidas – nenhum desses factos é considerado suficientemente inusitado para comover os habitantes do Sambila, levando-os a alterar a sua rotina de várias décadas. (…)

       (…) Essa “mornez histórica” de que falava o poeta foi, literalmente, estilhaçada no dia em que a Virgem Maria apareceu no Sambila. (…) “.

       O excerto é retirado de uma das estórias do livro O Homem que não Tira o Palito da Boca, de João Melo, escritor e político angolano. Para além da “mornez histórica” com que o autor resume o viver do bairro do Sambizanga, em Luanda, popularmente conhecido por Sambila, por si só a Virgem Maria – ou Maria Sabão – oferece uma metáfora suficiente para representar uma certa “democracia” que me ocorreu à cabeça ao ler esta história.

       Deixo ao leitor o desafio de descobrir a tal “democracia”. Não será difícil se tiver em conta que Angola, principalmente o mundo urbano, é o espaço onde o passado colonial português deixou, de forma mais acentuada, a sua pegada. De tal modo que – desculpe-se a concessão ao estereótipo politicamente incorreto – muitas vezes o branco parece preto e o preto parece branco. Não é assim meu irmão ?! – Leia, divirta-se, e ria à gargalhada, sabendo que, neste livro, é principalmente de si próprio que está a rir.

       Apenas um reparo para o autor, que a imodéstia de quem escreve esta breve crónica admite que alguma vez lhe possa chegar: o glossário que se encontra no final do livro – O Homem que não Tira o Palito da Boca, Editorial Caminho, 2009, Alfragide – parece-me extremamente curto. Quem conhece, por exemplo, o significado de “caxexe”, expressão, entre muitas outras, do falar português de Angola, que surge no texto?

nelson anjos


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