Avançar para o conteúdo principal

 



O Triunfo dos Porcos

       Ocorreu-me revisitar – vá-se lá saber porque pérfida e obscura associação – esta conhecida obra de George Orwell, a propósito do último processo eleitoral autárquico cuja fase de balanço ainda decorre.

     O Triunfo dos Porcos é uma sátira mordaz, sob a forma de fábula, por onde desfila toda a sordidez que a disputa do poder em regra engendra. E o fenómeno é de tal modo universal que até na pequena quinta (concelho) onde habito – Miranda do Corvo – me cruzei com algumas das personagens centrais da novela de Orwell. Os porcos Snowball e Napoleão, bem como o histórico das suas desavenças, levou-os certamente daqui o malicioso autor para o seu livro. Caso contrário, como explicar tantas coincidências?

     As disputas entre Snowball e Napoleão, em cuja origem estaria a estreiteza do curral onde cada um pretendia assegurar hegemonia sobre o outro – o velho clássico, neste caso não de dois galos para o mesmo poleiro mas de dois porcos para o mesmo curral – levaram o primeiro, depois de acesa refrega, a ir vender os seus serviços a uma quinta adversária. Tendo, na versão local, substituído até o pijama cor de rosa por outro cor de laranja com bolinhas azuis. A estouvada égua Mollie não destoa, permitindo-se algumas carícias mais ousadas, tendo na mira a melhoria da ração; e as ovelhas abrem docilmente as pernas na hora de serem mungidas, sob o estímulo de uma cenoura ou maçã, agradecendo no final do ato com um compungido mééééé !

       Em períodos eleitorais ninguém põe em causa a consabida superior inteligência dos porcos. Que, como se sabe, são os únicos capazes de produzir ideias. Os outros limitam-se a votar. E a chorar alguma lágrima condoída, como é o caso de alguns afilhados e protegidos de Snowball, abandonados agora à sua sorte e temendo perder alguma benesse que o servilismo de anos lhes permitiu alcançar.

       A fábula de Orwell termina com porcos e homens tornando-se indistintos. Mais tarde ou mais cedo também Snowball e Napoleão voltarão a fundir-se no mesmo fraternal abraço. O poder uniformiza. Por isso me parece um truísmo – redundância – o título da obra: o triunfo é sempre dos porcos. E a derrota também. Para os outros fica o caminho.

nelson anjos


Comentários

Ricardo Grácio disse…
E que caminho iluminado é esse? Eis aquilo de que gostava de ouvir falar nestas agudas e mordazes crónicas preservadas atrás do poder do ecrã.

Mensagens populares deste blogue

  Cá dentro o professor Rui Correia fala do que passa dentro da escola, dentro dos alunos, dos professores e dos pais, mas não os isola em ilhas, relaciona-os em todas as suas desarmonias. O professor Rui não aponta dedos nem atribui culpas, mas reconhece a urgência da escola e lá dentro, os professores, servirem os alunos que a frequentam, reconhecendo neles a casa  de onde vêm todas as manhãs, o seio familiar onde se movem e aprendem a ser pessoas, os lugares que frequentam dali para fora... é que dentro de cada aluno vive essa pessoa múltipla que muitas escolas (e dentro delas muitos professores) insistem em não ver, não considerar na equação. Cá dentro, o professor Rui oferece uma bagagem de estratégias para que os menos criativos se inspirem e se tornem eles inspiradores. Mas cá dentro há também os mínimos, que ao pecar por excesso de urgência e atualidade, são diariamente atropelados. O mínimo de uma letra legível, o mínimo do cálculo mental, o mínimo da História, o míni...
  Os professores portugueses não sabem ensinar Ricardo Araújo Pereira Expresso – 20 janeiro 2023     Enquanto professora não tenho outro remédio senão concordar com as sábias palavras do Ricardo Araújo Pereira. Assim, o que aqui se propõe é o documento MUSAI – Medidas Universais de Suporte à Aprendizagem e Inclusão, para o aluno João Costa. Peca por tardio, mas, uma vez que nos dias que correm, é praticamente impossível reter alunos (vulgo «chumbar»), consideremos que este aluno se encontra ao nível de um primeiro ciclo do ensino básico. Segue-se o documento:   Rita Anjos           Ano Letivo 2022 / 2023 Monitorização e Avaliação da eficácia das MEDIDAS UNIVERSAIS DE SUPORTE À APRENDIZAGEM E INCLUSÃO - MUSAI (Artigo 20.º do Decreto-lei n.º 54/2018, de 6 de julho)   Nome ...
  Elogio da Homossexualidade        Começo pelo menos interessante que, como se sabe, é a parte já resolvida do problema. Homossexualidade: sim ou não? Saltemos por cima do testemunho de gregos e romanos. Para efeitos de tempos modernos basta-nos Stuart Mill: Sobre a Liberdade . Está lá o suficiente: “(…) A única parte da conduta de qualquer pessoa pela qual responde perante a sociedade, é a que diz respeito aos outros. Na parte da sua conduta que apenas diz respeito a si, a sua independência é, por direito, absoluta. Sobre si, sobre o seu próprio corpo e a sua mente, o indivíduo é soberano. (…) A única liberdade que merece o nome é a liberdade de procurar o nosso próprio bem à nossa própria maneira, desde que não tentemos privar os outros do seu bem, ou colocar obstáculos aos seus esforços para o alcançar. (…)”        Ponto final parágrafo. Quanto ao mais, e em termos meramente subjetivos, afigurando-se-me a homos...