O Triunfo dos Porcos
O Triunfo dos Porcos é uma sátira
mordaz, sob a forma de fábula, por onde desfila toda a sordidez que a disputa do
poder em regra engendra. E o fenómeno é de tal modo universal que até na pequena
quinta (concelho) onde habito – Miranda do Corvo – me cruzei com algumas das
personagens centrais da novela de Orwell. Os porcos Snowball e Napoleão,
bem como o histórico das suas desavenças, levou-os certamente daqui o malicioso
autor para o seu livro. Caso contrário, como explicar tantas coincidências?
As disputas entre Snowball e Napoleão,
em cuja origem estaria a estreiteza do curral onde cada um pretendia assegurar
hegemonia sobre o outro – o velho clássico, neste caso não de dois galos para o
mesmo poleiro mas de dois porcos para o mesmo curral – levaram o primeiro,
depois de acesa refrega, a ir vender os seus serviços a uma quinta adversária.
Tendo, na versão local, substituído até o pijama cor de rosa por outro cor de
laranja com bolinhas azuis. A estouvada égua Mollie não destoa, permitindo-se
algumas carícias mais ousadas, tendo na mira a melhoria da ração; e as ovelhas
abrem docilmente as pernas na hora de serem mungidas, sob o estímulo de uma
cenoura ou maçã, agradecendo no final do ato com um compungido mééééé !
Em períodos eleitorais ninguém põe em
causa a consabida superior inteligência dos porcos. Que, como se sabe, são os
únicos capazes de produzir ideias. Os outros limitam-se a votar. E a chorar
alguma lágrima condoída, como é o caso de alguns afilhados e protegidos de Snowball,
abandonados agora à sua sorte e temendo perder alguma benesse que o servilismo
de anos lhes permitiu alcançar.
A fábula de Orwell termina com porcos e
homens tornando-se indistintos. Mais tarde ou mais cedo também Snowball e
Napoleão voltarão a fundir-se no mesmo fraternal abraço. O poder uniformiza.
Por isso me parece um truísmo – redundância – o título da obra: o triunfo é
sempre dos porcos. E a derrota também. Para os outros fica o caminho.
nelson anjos
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