Avançar para o conteúdo principal

 


Valter Hugo Mãe, publicou em outubro de 2016, Homens Imprudentemente Poéticos, três anos após a edição do incontornável Desumanização. Após 25 anos de publicações, o autor é já considerado um marco incontornável da literatura portuguesa atual. A sua obra, traduzida em inúmeras línguas, tem trazido a Hugo Mãe reconhecimento universal. Co-fundador da Quasi edições, torna-se conhecido com a atribuição, em 2007, do Prémio Literário José Saramago com o romance o Remorso de Baltazar Serapião.

Este livro do escritor conta a história de uma pequena aldeia, perdida num Japão longínquo e passado. Gira em torno da inimizade entre o artesão Ítaro e o oleiro Saburo, e da promessa tácita e intima de secretamente se assassinarem.

As personagens centrais do romance vão demonstrando as diferenças fundamentais que os afastam um do outro. Saburo, o oleiro, que perdeu a mulher (num episódio que Ítaro havia previsto), vive aprisionado a um passado que crê poder retornar. As amarras da perda encurralam-no numa sensibilidade e permeabilidade ao quotidiano. Por sua vez, Ítaro, fazedor de leques, foi impelido desde cedo para a gestão e sustento da casa. Quando a morte de algum bicho se desenrola à sua vez, antevê o futuro. Este dom, que é também uma maldição, estreita-lhe os laços com o que virá. Após prever a sua própria cegueira, vive na expetativa da tragédia.

A presença feminina é, não só uma premissa aberta neste livro, como estas têm também o poder de desbravar e conduzir todo o enredo. Matsu é uma jovem cega, irmã de Ítaro, que surge envolta num misticismo dócil. Com uma visão sensível do mundo e das coisas, move-a a gratidão pela vida e a felicidade atípica numa vida dura. Vive no sonho, esperando algum dia amaciar o irmão.

“O artesão protestava: a neve derrete, é só água. Matsu respondia: eu sei. Com o leque que me fizeste perco a sede.”

Ainda neste núcleo familiar, Kame, a mãe perto, a criada que também é família. Uma posição maternal que absorve os impactos das tensões da vida familiar e social. Mulher sem passado, cuida, coordena e sofre pela família que não é a sua. Por fim, mas não menos importante, Fuyu. A esposa falecida de Saburo surge como uma deusa atípica e a personificação do amor. Embora imaterialmente presente, a sua aura e o seu quimono perduram pela aldeia.

Assim, Homens Imprudentemente Poéticos é também uma ode à mulher e à condição feminina. Aliando à sensibilidade ímpar, reside neste género a racionalidade e firmeza moral que orienta todo o tom da obra.

No fundo, e por fim, esta é uma história que contrapõe a vida e a morte. Se por um lado desenrola a decadência, o sofrimento e a escuridão de perecer, a luz também se enlaça na vida.

Com uma escrita moderna, Valter Hugo Mãe manipula a língua com tal beleza que este livro culmina numa espécie de poema em prosa. Para além destes aspetos de ordem mais formal, o teor do conteúdo deste título é uma viagem ao imaginário japonês. As pequenas histórias, a sociedade mítica, espiritual e por vezes alegórica resulta de um trabalho de campo do autor. Isto acaba por acrescentar, mais que não seja, o sentimento de verosimilhança nos excertos e o leitor é imediatamente convocado a imergir na história. Ao leitor cabe o processo de introspeção e meditação, e a leitura inicial é puramente de contemplação.

Em suma, este livro de Valter Hugo Mãe resulta em primeiro lugar, num trabalho de mestre da língua portuguesa. É através dela e perante ela, que se desenrola uma história de poesia escrita em prosa e de outras associações improváveis – a morte e a vida.

Pedro Mendes


Comentários

Mensagens populares deste blogue

  Prosperidade Sem Crescimento   “(…) A sociedade defronta-se com um dilema profundo. Resistir ao crescimento é arriscar o colapso económico e social. Persegui-lo incessantemente é pôr em perigo os ecossistemas de que depende a nossa sobrevivência a longo prazo. (…)”        Começa assim o capítulo XII do livro de Tim Jackson, Prosperidade Sem Crescimento – Economia Para um Planeta Finito .        Um New Deal Verde – uma réplica do programa gizado para fazer face à Grande Depressão dos anos 30, do século passado, baseado nos princípios defendidos por Keynes, agora pintados de verde – foi o coelho que ocorreu aos economistas tirar da cartola para fazer face à crise de 2008. Mas desde logo a contradição foi evidente: o crescimento verde … não é verde. Porque continua a ser um modelo de economia assente no crescimento ilimitado, para vigorar num espaço limitado: o planeta Terra.      ...
  Os professores portugueses não sabem ensinar Ricardo Araújo Pereira Expresso – 20 janeiro 2023     Enquanto professora não tenho outro remédio senão concordar com as sábias palavras do Ricardo Araújo Pereira. Assim, o que aqui se propõe é o documento MUSAI – Medidas Universais de Suporte à Aprendizagem e Inclusão, para o aluno João Costa. Peca por tardio, mas, uma vez que nos dias que correm, é praticamente impossível reter alunos (vulgo «chumbar»), consideremos que este aluno se encontra ao nível de um primeiro ciclo do ensino básico. Segue-se o documento:   Rita Anjos           Ano Letivo 2022 / 2023 Monitorização e Avaliação da eficácia das MEDIDAS UNIVERSAIS DE SUPORTE À APRENDIZAGEM E INCLUSÃO - MUSAI (Artigo 20.º do Decreto-lei n.º 54/2018, de 6 de julho)   Nome ...
  A Democracia Local em Portugal        A breve epígrafe, logo na primeira página do livro de António Cândido de Oliveira , anunciando que “ o principal desígnio desta coleção resume-se em duas palavras: pensar livremente ”, e considerando também que o conceito de democracia tem mais a ver com ideias de política do que com aspetos administrativos , no sentido técnico-profissional do termo, levaria a pensar que “ A Democracia Local em Portugal ” não fosse aquilo que o autor fundamentalmente escreveu: um breve resumo comentado de Regulamento de Administração Pública.        A coleção “Ensaios da Fundação” – Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) – de que o volume em apreço é o número 116, bem como outras publicações da FFMS, fora da coleção, abarcam já um vasto leque de temas que, dos que li, me deixaram sempre, uns mais outros menos, a disposição para o elogio. Saúda-se pois o magnífico serviço – é disso que se tr...