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A Confissão da Leoa

Mia Couto

 

Em A Confissão da Leoa, Mia Couto, à semelhança do que tem acontecido com os seus livros mais recentes, inventa menos palavras. Acaba por ser um livro menos fantasioso, menos mágico na forma como nos envolve na leitura, no entanto, a história não parece perder com esta escrita mais séria de Mia Couto. Se calhar por ser um livro que fala de um tema sério, o espaço para interpretações não devia ser tanto.

A história de A Confissão da Leoa é narrada a duas vozes, a de Mariamar, habitante da aldeia de Kulumani, que tem sido assolada por diversos ataques de leões, e Arcanjo Baleiro, o caçador contratado para matar os leões que ameaçam os habitantes da aldeia. Curiosamente todas as vítimas dos leões, até agora, foram mulheres e os leões acabam por ser apenas uma leoa.

Mariamar é uma jovem mulher, que viveu toda a sua vida em Kulumani. Teve uma vida atribulada, marcada pela guerra, pela pobreza, pela violência e pela ignorância. Nunca teve muitos motivos para sorrir, oprimida pela família, uma mãe que sempre a desprezou e um pai que a violentava, e onde apenas o avô a compreendia e protegia. Cresceu no meio da violência que é reservada às mulheres, por homens ignorantes e cobardes, presos a superstições e a tradições desumanizantes, fugindo para dentro de si, como forma de se proteger, de não enlouquecer. No meio de tanta tristeza não deixa de sonhar. Sonha em sair da aldeia, em ter filhos, em ser amada por um homem bom que a proteja. Sonha mesmo sabendo que não são concretizáveis os seus desejos. Sonha porque não lhe resta mais nada.

Arcanjo Baleiro vem de uma família de caçadores. É contratado para se deslocar a Kulumani para matar os leões que andam a atacar as mulheres da aldeia. Traz consigo, para além da espingarda, a alma carregada de tristeza. O coração pesado de dor e revolta. Traz consigo um amor não correspondido pela cunhada, mulher do seu único irmão, que está internado num hospício por ter morto o pai de ambos há muitos anos atrás. Algo que atormenta Arcanjo e o impede de dormir à noite. Assaltado pelos fantasmas desse dia em que acorda com o disparo da espingarda e encontra o pai banhado em sangue e a espingarda na mão do irmão, pouco mais do que um adolescente. Um acidente? É a versão com que vive durante os anos que se seguem, sem nunca perdoar totalmente o irmão pelo que fez. Sem nunca perceber na totalidade o que se passou naquele dia.

A Confissão da Leoa retrata a mulher, a mulher africana, vítima de violência, vítima de superstições e tradições que continuam enraizadas na cultura, nos sítios mais recônditos, onde a autoridade vigente é a dos deuses, aquela que sempre guiou a vida das pessoas. Sítios onde o conceito de governo central é algo abstrato, algo que lhes bate à porta em época de eleições e em tempos de guerra. A Confissão da Leoa é um grito de revolta e um elogio à força e à importância da mulher na comunidade e no mundo.

 

Excertos:

"Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito céu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção do céu fica acrescentada. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar."

"Não era ao mar que eu queria que me levassem. Desejava apenas regressar ao colo da minha mãe e que ela me embalasse e eu voltasse a ser menina, Esse era o único mar que eu queria. Entendi então o motivo por que o padre Amoroso falava tanto do dilúvio final. Era isso que eu aspirava: uma inundação que varresse esse mundo. Este mundo que obrigava uma mulher como Hanifa a ter filhos, mas não a deixava ser mãe; que a obrigava a ter marido, mas não permitia que conhecesse o amor."

"Todas as manhãs a gazela acorda sabendo que tem que correr mais depressa do que o leão ou será morta. Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deve correr mais rápido do que a gazela ou morrerá de fome. Não importa se és um leão ou uma gazela: quando o Sol nascer o melhor é começares a correr."

Pedro Mendes



Comentários

Não conheço este texto de Mia Couto mas conheço outros, que me levam a mantê-lo ainda na minha cada vez mais curta lista de autores a ler.

Tornou-se há muito, lugar comum, dizer que a realidade é sempre mais surpreendente que a ficção. Mesmo considerando que, na generalidade das situações, aquilo a que temos acesso é não tanto a "realidade" mas principalmente exercícios, tentativas, para a conhecer. A física e o conhecimento do cosmos, - e rebocadas por aqueles também as ciências sociais - nos últimos cem anos, leva-nos o espírito para níveis que dificilmente, cada vez mais, me parecem ao alcance da chamada "literatura" que se vai fazendo. Que me parece cada vez menos interessante e vou cada vez mais deixando para trás.

nelson anjos

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