“O Retorno” foi publicado em 2011 e recebeu os prémios
Especial da Crítica e do Livro do Ano do
Público e do Expresso…… Penalizo-me por só agora ter descoberto a Dulce Maria
de Carvalho ao ler este seu romance e a ”Autobiografia Não Autorizada”.
Sobre o romance: É um documento da nossa história recente
vista pelos olhos de um jovem de 15 anos que em 1975 vem parar à Metropole,
onde nunca tinha estado, na condição de retornado. Quem nessa época já fizesse
pleno uso das suas capacidade de observação e consciência, poderá hoje
revisitar na sua memória todos aqueles acontecimentos mesmo estando do outro
lado da barricada, isto é, como quem diz não sendo retornado.
Chamei-lhe barricada, e foi mesmo a palavra que me surgiu,
pois havia uma tensão latente entre os que chegaram, trazidos pela necessidade
de fugir à guerra e a uma terra que deixara de ser a deles, e os que cá
estavam, num país que acabara de acordar com a revolução.
O que o jovem Rui vê quando chega à Metropole é um povo em
revolução mas, ao mesmo tempo, triste e fechado. De forma muito bem doseada,
constatamos isso ao longo das páginas que relatam o período de mais de um ano
em que Rui e sua família vivem num quarto de um hotel de cinco estrelas próximo
de Lisboa.
Dessa época tenho presente muita coisas: O afluxo de gente
que veio das colónias e que foi instalada (ou melhor, amontoada) em hotéis,
cozinhando nos quartos e com roupa a secar à janela, o IARN e os “benefícios” a
que os retornados tinham direito e que os de cá não tinham; toda aquela má
vontade entre uns e outros; a falta de futuro para os que vieram e o receio dos
que cá estavam pelo que esse meio milhão de pessoas poderia trazer a esse mesmo
futuro.
Foi nessa altura que conheci os meus dois melhores amigos de
faculdade, ambos retornados, que me ensinaram muita coisa sobre a África deles
(ambos tinham lá nascido e vivido até a descolonização). Aprendi que aquilo que
pensava saber não se aplicava a todos os que viveram nas colónias: que o
colonizador, explorador de pretos e sem escrúpulos, era só um estereótipo…
Voltei a relembrar as conversas que tínhamos e como neles
havia a ideia de que um dia a paz se instalaria e eles poderiam regressar. Mas
essa esperança foi-se perdendo à medida que se iam adaptando ao frio do Inverno
de cá…
Não ler esta obra é perder um bocadinho daquilo por que
passámos há pouco mais de 4 décadas e é também não ter o prazer de usufruir do
encantamento que a escrita desta Senhora Escritora nos proporciona.
Exerceu tanto fascínio sobre mim que, como disse no início,
já vou na segundo livro… mas isso fica para outro dia.
Marília
Nov 2021
Comentários
Para mim, para além das histórias que tenho em casa vinte e quatro horas por dia – a minha mulher é angolana criada no Bairro Popular, na periferia de Luanda – tenho também aquelas que testemunhei ou em que fui parte. Lembra-me ela, todos os anos por altura do natal, como choravam as meninas do bairro, ao verem, na festa do emprego do pai, na fábrica de torrefação do café ou de refinação da cana do açúcar, as bonecas que tinham cabelo e mexiam os olhos, que recebiam as meninas brancas, comparadas com as suas: pequenas, sem cabelos, de olhos e braços fixos, baratas. E que tornavam o natal um tempo triste. Mas lembra-se também do Sr. Silva, da mercearia do bairro, onde a mãe a mandava ir buscar fiado qualquer avio, quando já não havia dinheiro em casa, e que às crianças nunca dizia que “não”. Mesmo nos casos em que sabia ser grande a probabilidade de não receber o pagamento no fim do mês. E da professora Alice, que ajudava todas as crianças do bairro, dedicando-lhes mais tempo, e muitas vezes também com lápis e cadernos às que tinham menos meios ou meios nenhuns.
Por mim, lembro-me da júlia, sobrinha de guerrilheiro do PAIGC e prostituta no Pilão – bairro mal afamado da periferia de Bissau – que se prostituía com a tropa colonial para obter informações dos militares que fazia chegar ao tio. Era prostituta e fazia favores ao PAIGC ou era militante do PAIGC e servia-se de práticas de prostituição para conseguir os seus objetivos? Nunca soube e talvez se trate de uma pergunta errada. E que dizer dos militares da tropa colonial, opositores ao regime e à guerra, que lhe faziam chegar informação sem cobrar por isso serviços sexuais?
E que dizer dos filhos de colonos que foram guerrilheiros dos movimentos de libertação? E de outros que se bateram pela causa da independência e que conheci na prisão? E que dizer de antigos guerrilheiros que dizem hoje que os seus atuais governantes são piores do que eram os colonos?
Para simples comentário isto já vai longo. Nem a história nem as estórias cabem num simples cliché. Mas, como diria o Galileu: “… lá que houve colonialismo, houve.” Só para terminar: também gostei do Retorno da Dulce Cardoso.
nelson anjos
A cada um cabe contar as suas, e as que considere relevantes.