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Regresso ao José Luís Peixoto... os leitores mais assíduos que me perdoem a insistência. Disse a vários amigos (porque conversas sobre livros e autores que ficam a viver dentro de mim, como se fossem um bocado meu que desconhecia, desses só é possível falar com aquelas pessoas com quem se tem amizade) que no dia em que for anunciado o Nobel da Literatura ao José Luís Peixoto, não ficarei, de todo, surpreendida. Será apenas a constatação de algo inevitável.

Na Autobiografia José entrança-se com José Saramago em tempos diferentes mas, apesar desse detalhe, simultâneos; José faz-se autor do livro que algum personagem lê no desenrolar da ação; José faz-se confidente do leitor deste romance, entra no pensamento, nas memórias, lembra-nos nomes...

...lembro-me do professor Ruben Fonseca explicar o que é metacognição. Lembrei-me disto e ocorreu-me que este romence seria um exercício de metaliteratura. Não o disse a ninguém, mas é. Este envolvimento de personagens com o escritor e com o leitor e com o tempo a fazer de detalhe e a ser desrespeitado é, sem dúvida nenhuma, um excelente exemplo de metaliteratura. Não sei sequer se a palavra existe, mas Autobiografia é isso...

Um capítulo mais à frente José senta-se com Saramago e conversam sobre o livro que estamos a ler e definem este diálogo como metaliteratura. Todas as coisas que eu pensei ficaram muito pequeninas e inúteis à luz desta conversa entre dois gigantes. Por isso a citação, desta feita, vem no fim. Um excelente exemplo de metaliteratura.

Então, somos a mesma pessoa?

Pensei que já estavamos de acordo.

Mas essa noção contraria as leis elementares da física, espaço e tempo.

Se veio para a literatura à procura de ciência, está no lugar errado. Sou diferente de quem era, mas sou a mesma pessoa. A situação é igual. José, Saramago, achava que o encadeamento dos nossos nomes era coincidência?

Sim, mas há um problemas.

Há muito mais do que um problema. Ou pareceu-lhe que o nó do capítulo 20, este diálogo, chegava para resolver todas as explicações em falta? Liberte-se da obrigação que impôs a si próprio. Olhe para o mundo, está em toda a parte. O mundo não sente obrigação de explicar-se quem precisa de explicações que as procure.

Sim, mas há um problema.

Rita Anjos

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