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O MAR, O MAR

IRIS MURDOCH

 



 “O Mar, O Mar”, é um dos livros mais interessantes de Iris Murdoch, que lhe rendeu, em 1978, o prémio de melhor romance do ano.

 “Não desperdicemos o amor, ele é tão raro. Não podemos, por fim, amar-nos em liberdade, sem a horrível sede de posse, sem violência nem medo? O que importa é amar, não estar ‘apaixonado’. Não deixemos que haja mais despedidas. Que haja paz entre nós para sempre, não somos mais jovens.”

 A história é centrada em Charles Arrowby, um antigo e famoso diretor de teatro que decide isolar-se e morar no litoral de Inglaterra, numa casa antiga, ‘Shruff End’, que pertencia a velha senhora Chorney. Todos os dias, sozinho, Charles aprecia o mar em frente da sua casa. Encanta-se com as suas muitas nuances de cor e com a lentidão ou brutalidade das ondas. Começa então a escrever um livro autobiográfico e, assim, no decorrer da história, vamos conhecendo, aos poucos, o seu passado no teatro, as suas muitas amantes atrizes e todo aquele seu velho mundo. No início, o livro tem um desenvolver vagaroso, focando-se na relação de Charles com a sua casa, os arredores da cidade e a sua tão amada culinária. Mas tudo ganha outra força quando Arrowby descobre que o seu primeiro grande amor se encontra a residir na mesma cidade. É então que começa a sua obsessão por uma Hartley já idosa e com olhos cansados, que aliás, é casada ainda com o mesmo homem pelo qual abandonou Charles.

 A atmosfera torna-se agitada tal como o mar à noite e as personagens da vida passada de Charles começam a visitá-lo nos seus pensamentos. Tudo vira uma bagunça emocional de passado e presente. Cada personagem apresenta um sentimento específico em relação ao protagonista, seja de ódio, amor, ressentimento, amizade. E é um caos muito bem montado. Um caos contraditório que se move através de pandemónios calados que depois acabam gritando. Iris Murdoch pinta-nos um ambiente acolhedor e muito intimista, fazendo-nos sentir verdadeiramente todas as coisas, desde a pontada aguda dentro de cada personagem, ao amor imbuído, à fraternidade, à mágoa, ao tempo passando e passando, à loucura e à placidez. A beleza notória com que descreve o mar e as forças da natureza paralisa-nos. Uma escrita simples, poética e muito inteligente.

 “Se existe um tormento mental inútil maior do que o do ciúme, este é, talvez, o remorso. Mesmo os sofrimentos de uma perda podem ser menos dolorosos; e, naturalmente, essas duas agonias se aliam, como agora acontecia comigo. Digo remorso, não arrependimento. Creio que nunca senti arrependimento de forma pura; talvez ele não exista em forma pura. O remorso implica a culpa, uma culpa sem remédio nem esperança, para cuja lancinante mordida não há cura.”

A constatação de Charles Arrowby – o narrador de “O Mar, O Mar” – pode muito bem servir de síntese para a longa narrativa que nasce no intuito de ser um livro de memórias e finda no que ele próprio designa, num dos vários arroubos metaficcionais, como uma novelesca autobiografia.

Pedro Mendes

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