A incomensurável virtude do NADA
Tive em tempos um colega de profissão, nos idos da ida Portugal
Telecom, cuja peculiar carreira profissional tanto poderia ser estudada no
âmbito das ciências ditas da natureza, como no âmbito da sociologia.
Sempre que era objeto de mais uma promoção, o que acontecia de forma amiudada, a
penumbra dos corredores era tomada por um coro de murmúrios já tornado habitual:
mas o que fez de relevante Fulano de Tal – era este o
seu nome – para ser mais uma vez promovido? E a pergunta, em regra sem
resposta, onde a inveja e o despeito por vezes lhe retiravam a natural
legitimidade, ficava a pairar até que a próxima graça se derramasse sobre o bem-aventurado.
Um dia houve em que, qual iluminação, à
interrogação que se sucedia a mais uma benesse concedida, “mas o que fez de
relevante Fulano de Tal para ser mais uma vez promovido?” seguiu-se fulminante
a resposta: NADA. Julgo ter começado aí
o meu interesse por Peter Atkins e pela sua teoria segundo a qual as leis da
Natureza se constituíram a partir do Nada:
“ (…) A minha pretensão, com todo este preâmbulo, é mostrar
que as provas que apresentarei para não ter acontecido nada de extraordinário
revelam que as leis da Natureza advêm daí. Mostrarei que pelo menos uma classe
de leis naturais deriva de não ter acontecido nada de extraordinário no dia
zero. (…) A partir deste momento, por nada passarei a entender absolutamente
nada. Entenderei menos que espaço vazio. Entenderei menos que vácuo. Se quiser,
a ausência hindu do ser. Para enfatizar o absoluto vazio do nada que quero que
o leitor tenha em mente, chamar-lhe-ei Nada. Este Nada não tem espaço nem
tempo. Puro vazio. Vazio além do vazio. Tudo o que tem é um nome. (…)”
Acrescentaria eu: o Nada perfeito. Ora,
como se sabe, segundo a teoria do caos o desenvolvimento de qualquer
processo é extremamente sensível às condições iniciais. Onde um qualquer micro erro
de avaliação conduz a derivas que tornam o resultado final imprevisível.
Lembram-se daquela metáfora do bater de asas de uma borboleta em Paris dar
origem a uma tempestade em Kiev? – é isso mesmo. No momento zero não existia o tal
Nada absoluto que iria dar origem a um universo de harmonia.
Mesmo sem saber o que havia então nos
falsos Nadas dos EUA, da Rússia e da Europa, sei o que há hoje. E estou
solidário com o povo da Ucrânia. Todo o compromisso, para além de declarações
de circunstância – muitas não passarão do papel – deverá ser concretizado em
apoio às populações refugiadas, homens e armas enquanto a guerra durar, e participação
ativa na reconstrução do país quando isso for possível. Tudo o que for menos do
que isto é Nada. Trata-se apenas de reparar as consequências do tal micro erro
inicial. Por mim sou europeu; logo, ucraniano.
E, já agora, não se esqueçam de ler o
“COMO SURGIU O UNIVERSO: As Origens das Leis Naturais” do Peter Atkins, onde as
leis mais gerais respeitam à natureza e aos homens.
nelson anjos
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Cecília Pedro