As Grandes Questões do Nosso Tempo
“(…) Mas também penso que todo o partido deve lutar contra a
sua tendência para se autofinalizar e para se tomar pelo todo; que todo o
partido de tendência burocrática se deve empenhar e se auto-reformar
constantemente, e que se deve romper com o partido que seja ao mesmo tempo
sectário, burocrático, militar e jesuíta. Penso que se pode tomar partido, não
só nos partidos, mas também nas associações, nas ligas e nas coligações que se
imponham consoante os fins visados. Penso que é necessário ultrapassar as
formas de partidos tais como existem presentemente. (…)” (Sublinhado meu).
Edgar Morin – As Grandes Questões do
Nosso Tempo – leitura de 1984, tempo que continua a ser o nosso, com muitos
sublinhados e muitas anotações nas margens, terá sido a última tábua pregada no
caixão das minhas já muito debilitadas convicções relativamente ao modelo partido.
Também ele, por sua vez, há muito caixão de nobres ideias e causas que era – é
– importante salvar. Direi o mesmo relativamente a outras formas de
patriarcado, como por exemplo a família.
“(…) Tudo isto necessita de uma reconversão: passar da crença
ingénua de que nos encontramos no coração das trevas e de que temos de caminhar
na noite. É preciso passar da conquista tão dura de certezas ao convívio ainda
mais duro com a incerteza. Da eliminação das contradições ao corpo a corpo com
as contradições. (…)
(…) Devemos romper para sempre com a ideia da luta final, da
solução final, do futuro radioso: “Nada de solução final para a questão social,
nada de reconciliação definitiva do homem com a natureza e consigo mesmo, nada
de futuro radioso que ponha termo a todos os nossos males de existência. Haverá
sempre possibilidade de regressão, de malogro, de ruína, de desintegração;
haverá sempre renascimento dos ferimentos da desigualdade, da subordinação, da
exploração, que nos obrigarão a lutar sem descanso contra as novas
desigualdades, as novas subordinações, as novas explorações.” (La Méthode, II,
pg 451).”
Em
Edgar Morin não há lugar para o Paraíso – a felicidade eterna. Tudo é precário.
As bem aventuranças, prometidas mais pelos seus seguidores do que pelo Mestre –
o Nazareno, – da mesma forma que as prometidas mais pelos marxistas do que por
Marx, são miragens, utopias:
“(…) Sabemos que o nosso aniquilamento e o aniquilamento dos
nossos, do nosso país, da humanidade, da vida, é a prazo certo e imediatamente
possível. Sabemos que o mundo também é mortal. Temos de viver e pensar nas
fronteiras do nada. (…)”
Mas o nada de Morin é sempre
antecedido de algo que continua a valer a pena, mesmo quando aquele é certo:
“(…) Embora desejássemos mais do que tudo no mundo ver cessar
a humilhação, o desprezo e a mentira, já não necessitamos da certeza na vitória
para continuar a luta. As verdades exigentes renunciam à vitória e resistem por
resistir. (…)”
nelson anjos
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