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Avril au Portugal

       “Abril em Portugal”, também conhecida por “Coimbra” – ou seria ao contrário? – é uma canção dos finais da década de 40 (?) do século passado, com música de Raul Ferrão e letra de José Galhardo. Contando com múltiplas versões em diversas línguas, serviu durante décadas, em particular durante o Estado Novo, juntamente com outras bandeiras, para aliciar turistas a virem conhecer as delícias do País,– para além dos brandos costumes, do amor a rodos e do clima ameno. Recordo de forma mais nítida a versão francesa (Avril au Portugal), para a minha geração a segunda língua. Que o SNI (Secretariado Nacional de Informação) – a máquina de propaganda do regime – não desdenhou usar para promover à exaustão o folclore cá da praça.

       Do abril de então para o evocado na capa do livro que hoje trago, transitaram e mantiveram-se até aos dias de hoje muitas das chagas de que falam estes “45 anos de combate à corrupção”. Trata-se afinal de fazer jus à tradição, que a cantiga também celebra. E que, naturalmente, implicam 45 anos de corrupção –  das formas mais artesanais e “caseiras” às mais elaboradas, implicando protagonistas de outro vulto. Luís Rosa dá a palavra a um conjunto de magistrados da área da justiça, que falam das suas experiências pelo “Portugal profundo” mas também pelo outro.

“(…) Estavam em causa dois funcionários do próprio tribunal judicial onde o jovem magistrado dava os primeiros passos na carreira. Ambos tinham aceitado “uma nota” – um para fazer com que determinado processo ficasse retido, o outro para fazer mais diligentemente determinada notificação. (…)” (O caso reporta a Tondela e ao então delegado estagiário Euclides Dâmaso. Estávamos no início dos anos 80).

      Diz Luís Rosa que “Os primeiros tempos da democracia, até pelas dificuldades económicas vividas pelo novo regime, não foram diferentes do que tinha sido no Estado Novo, na Primeira República ou na monarquia”. E sobre esta “pequena corrupção”, vinda do tempo em que o país era “pobre mas sério e asseado”, Maria José Morgado lembra:

“(…) Oliveira Martins fala da corrupção dos juízes que recebiam candelabros de prata no século XIX. Gil Vicente fala de situações semelhantes no Auto da Barca do Inferno. E o Padre António Vieira teve de fugir para o Brasil por causa de ter dito que roubar é crime. A corrupção explica-se por Portugal ter sido durante muito tempo um país pobre. Depois, o português acha mal a corrupção do vizinho, mas, se for a corrupção para arranjar emprego para a filha dele, isso já não tem importância nenhuma, porque já é para o bem da família. (…)”

       E Luís Rosa continua: “Dar uma nota a um polícia, para não passar uma multa, a um fiscal da câmara para fechar os olhos a uma ilegalidade numa obra, ao notário para apressar uma escritura que normalmente demoraria meses a ser marcada – tudo isso eram práticas que faziam parte do quotidiano dos cidadãos e dos pequenos empresários. Os funcionários públicos, por seu lado, viam-no como forma de compor o seu parco salário. Tudo junto eram práticas socialmente aceites.”

       Como conclui Euclides Dâmaso a filosofia de sobrevivência que vigorava ao tempo – e continua a vigorar, digo eu – resumia-se nesta expressão simples: “temos é de nos safar, toda a gente fez sempre assim”.

       Voltarei a este Abril de salário mínimo nacional (SMN) e de “corrupção desculpável”.

nelson anjos

Comentários

Este é um tema que não tem fim... Existirá um ou outro, que será falado, mas as consequências não serão muito significativas. Falando no topo gama da corrupção! O restante acaba por ser quase um princípio, pois muitas vezes só dessa forma, conseguem algo. Teremos de trabalhar muito para progressivamente possa existir uma mentalidade diferente no futuro.

Cecília Pedro

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