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Os Equívocos do Cristianismo e seus Derivados

      Algo desconjuntada, com pó e restos de teias de aranha antigas, a velha caixa de cartão lembrava um baú esquecido - algures no porão de algum velho veleiro há muito abandonado em qualquer último porto. Foi assim que há tempos me chegou às mãos. Algumas manchas de humidade, de contornos difusos, como é próprio do tempo e das neblinas salgadas desenharem, sugeriam antigos mapas de bordo.

       Dentro havia uma mão cheia de velhos livros, onde a traça já tinha deixado marcas. Ao longo de meio século, por países, cidades, ruas, amores e desamores onde eu tinha feito paragem, tinham feito  também a sua viagem. Peguei em dois ou três ao acaso e, quase sem interesse folheei um deles: Filosofia Marxista – Compêndio Popular. Numa das primeiras páginas dizia tratar-se de um concurso aberto pela Academia de Ciências Sociais do Comité Central do PCUSS, no âmbito do qual o trabalho do autor – V. G. Afanassiev – tinha sido selecionado. Corria o ano de 1960 e o livro destinava-se a difundir os fundamentos da filosofia marxista pelas mais amplas camadas de trabalhadores. Te-lo-ei adquirido nos primeiros anos de estudante, em Lisboa, – 1963 ou 64 – em regime de venda semiclandestina na velha Livraria Barata, que julgo já não existir.

       Na profusão de sublinhados reparei, pelo a propósito, nestes:

“(…) Desapareceram para sempre no país soviético as relações de classe de domínio e subordinação. Não existem entre nós classes nem grupos de pessoas privilegiadas. Todos os membros de nossa sociedade têm uma posição idêntica em face dos meios de produção, e que exclui a possibilidade de exploração e de apropriação do trabalho alheio. (…)”

E que tal esta outra?!

“(…) Coexistir sobre uma base sensata significa cessar a “guerra fria”, acabar com a corrida armamentista, estabelecer entre os países socialistas e capitalistas relações de boa vizinhança e excluir toda a possibilidade de surgimento de uma guerra mundial. O Partido Comunista da União soviética e todos os partidos marxistas dedicam o máximo de suas preocupações e de sua força ao cumprimento dessa nobre tarefa. (…)”

       Entretanto os factos: em 1956 já tinha tido lugar a fraterna invasão da Hungria; posteriormente, em 62, viria a crise dos mísseis em Cuba; e mais tarde, em 68, a primaveril invasão da Checoslováquia. Hoje, assistimos a uma “operação especial” na Ucrânia.

       Que não haja lugar a alarmes: afinal trata-se apenas de difundir a cultura cristã. George Steiner lembra que: “(…) Desde o Livro de Josué até Pol Pot que os homens massacram outros homens, naquilo que é por vezes impropriamente designado por “genocídio”. (…)” (A Bíblia Hebraica e a Divisão entre Judeus e Cristãos, Lisboa, 2006).

       E lembro eu que, se o Livro diz “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem;” (Mateus 5:44), também diz “Então fez o Senhor chover enxofre e fogo, da parte do Senhor, sobre Sodoma e Gomorra.” (Génesis 19:24).

 

nelson anjos

Comentários

Excelentes conclusões, da política da união soviética, e de outros países com a mesma ideologia; na prática, deve ter sido durante algum tempo, de certeza... duvido que a élite não tivesse os seus próprios caminhos sinuosos... pela cristandade, passasse o mesmo. Uns lutam por um caminho exemplar. Outros são corrompidos pelo poder e riqueza terrena que leva a uma outra guerra existencial... Deus é Amor; mas os seus sentimentos são transportados pelo homem, repartindo o absurdo do tormento pelas nações... quase que podemos dizer que chegou o anti- Cristo. Há muito tempo que estava feita a preparação para o que estamos a viver.
Cecília Pedro
Rita Anjos disse…
Aplico o popular provérbio:
"Com amigos destes quem precisa de inimigos ?"

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