António
Carlos Cortez. "O politicamente correto é um eufemismo para continuarmos a
ser coniventes com a mediocridade"
Gostaria
de ter a articulação suficiente para expor os meus pensamentos com a clareza
que alguns conseguem. Não conhecia António Carlos Cortez, mas gostei da
entrevista que dele li a propósito do romance que agora publicou (que fiquei
com vontade de ler): Um Dia Lusíada. Já referi no passado a questão da
qualidade em arte, no geral, e música em particular, e de como não considero
que o gosto do ouvinte, seja ele mais ou menos informado, defina, per se, o
valor artístico de uma obra. A este propósito gostaria de subscrever as ideias
de António Carlos Cortez. Deixo aqui algumas citações avulsas da entrevista que
o escritor deu ao jornal Sol, e o link para quem quiser ler na íntegra.
https://sol.sapo.pt/artigo/768804/antonio-carlos-cortez-o-politicamente-correto-e-um-eufemismo-para-continuarmos-a-ser-coniventes-com-a-mediocridade
“(…)José Cardoso Pires, José
Saramago, Augusto Abelaira, Alçada Baptista, Maria Velho da Costa (…) e o Lobo
Antunes. Não temos hoje leitores preparados para ler esses escritores. Este
livro que escrevi é uma homenagem a essa Literatura com L maiúsculo. Não
é um pacto de não-agressão à literatura com l minúsculo, que é levada ao
colo por uma espécie de acordo tácito entre o não-leitor e o não-escritor. (…)
É resultado de políticas de educação completamente erradas. No nosso mercado
não há uma distinção clara entre o trigo e o joio. O meu protagonista, o Elias
Moura, é extremamente cáustico em relação a isso, ele próprio tem dúvidas
em relação ao que pode ser o seu livro. E eu também tenho dúvidas.”
“Manuel António Lourenço
(…) diz a páginas tantas que há um acordo tácito hoje entre uma indústria do
livro que, por saber que não há leitores para a alta cultura, produz um tipo de
livro que não é exigente em relação ao leitor na medida em que os leitores
também não são exigentes em relação ao livro.”
“Estamos a ter apenas salas para
filmes ‘Hello Kitty’. Não estamos a saber elevar o gosto público. Não nos
podemos admirar que a nossa vida democrática seja pobre – pobre de debate, de
polémica, pobre de correntes de ideias, de pensamento. A literatura e as ideias
têm sido desprezadas de há uns bons 25, 30 anos a esta parte. E não temos uma
classe política verdadeiramente ilustrada, há um culto do lugar-comum que não
só é empobrecedor como é ofensivo, porque se parte do princípio de que somos
todos estúpidos.”
“A certa altura temos uma crítica
muito contundente da ‘vidinha’: «Já tenho emprego, Já me vou casar, Já sou
respeitável, Já tenho carro, Já estou na universidade, Já tenho trabalho, Já
sei sacanear o colega, Já faço compras de Natal, Já pago impostos, Já fujo aos
impostos»…”
“(Elias Moura) lamenta a
Guerra Colonial, sabe do absurdo que essa guerra foi, não hesita em denunciar o
fascismo como modo provinciano de ser português, e tem a coragem de dizer que
tudo isso de certo modo permaneceu. Mais: tem a coragem de dizer que tudo isso
deu origem a uma outra espécie de fascismo. O politicamente correto é apenas um
eufemismo para continuarmos a ser coniventes com a mediocridade.”
Francisco Anjos
Comentários
"... porque tem durado tanto o Salazarismo."
nelson anjos