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Avril au Portugal (III)

       A história é antiga. Remonta à origem da espécie. E, desde então, sempre que homens e mulheres se cruzam repete-se. Com Maria e José não foi diferente. Ela era uma jovem camponesa da Galileia, detentora de um cativante palminho de cara. Vivia com os pais e ajudava nas lides da casa e na pequena lavoura que, com algumas cabeças de gado assegurava o sustento da família. Ele era um jovem bem parecido e iniciara-se já na profissão de carpinteiro.

       Como em todas as circunstâncias idênticas o inevitável aconteceu. Um fortuito encontro de olhares hoje, uma palavra mais ousada amanhã – “hoje vai chover”, blá blá blá, “eu ajudo-te a levar a bilha da água”, blá blá blá – e, uma bela tarde, quando se encontravam ambos a descansar à sombra de uma oliveira, vá-se lá saber como, desequilibraram-se, caíram um por cima do outro e … nove meses depois – como já naquele tempo acontecia – da barriga da jovem, que entretanto crescera, brotou o pimpolho que iria transformar a vida dos pais num autêntico inferno (onde já se vira um catraio daqueles desafiar o saber dos doutores do Templo!?). E tudo isto na mais casta virgindade, virtude e ausência de pecado. Já que nenhum dos progenitores tivera a malfadada sorte de passar pela catequese, onde normalmente horríveis “tias solteironas”, arvoradas em catequistas, enchiam a cabeça das crianças com os terríveis castigos que o “Senhor” fazia desabar sobre a cabeça daqueles que ousassem o pecado da carne, ainda que apenas em pensamento. À criança foi dado o nome de Jesusde Nazaré, por ser aí que iria viver. Mas embora a tradição bíblica se centre no Filho, é da Mãe – ou antes, do seu aproveitamento – que aqui hoje se vem falar.

       O problema surge e ganha corpo, desde logo com a miríade de sósias – ou duplos, em linguagem de técnica cinematográfica – que ao longo dos séculos foi surgindo, disputando-se entre si o título da mais milagreira. Ele é a Senhora Disto, ele é a Senhora Daquilo, ele é a Senhora Daqueloutro e, como não podia deixar de ser, nós, que pelo menos nesta matéria nunca gostamos de ficar atrás de ninguém, criamos por cá também um autêntico enxame de Senhora(s). De entre as quais se viria a destacar a Senhora de Fátima, com um invejável palmarés de “milagres”, direito a coroa e respetivo título: Rainha. Num país, à data – 1917 – com cerca de 74% de analfabetos que não sabiam ler (censos de 1900), e os restantes 26% que, supostamente sabendo, não eram menos analfabetos que os primeiros. (Daí que, quanto a “milagres”, tenha ainda o Bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, que comer muita açorda para nos chegar aos calcanhares).

       Acontece porém que, do testemunho dos três videntes de Fátima – os conhecidos três pastorinhos – de milhares de outros observadores, de interrogatórios, do famoso relatório do Padre Nunes Formigão, dos esforços incansáveis do Bispo de Leiria D. José Alves Correia da Silva, e das Memórias da Irmã Lúcia, aquilo que de facto hoje permanece é uma estância turística que dá milhões à Santa Madre Igreja que, muito embora vendendo o céu não abdica das bem-aventuranças da terra. Os tão propalados “milagres” não passam de contrafação de loja de chinês (que me desculpem os chineses!) e o Santuário de Fátima não é hoje mais do que o Templo de onde há dois milénios o Nazareno escorraçou os vendilhões. Entretanto, a Senhora de Fátima prossegue incansável uma já longa senda de tráfico de influências e venda de favores a quem melhor pagar: dantes era a “cunha” da mãe para que o filho não fosse para a guerra; a “cunha” para que a filha arranjasse marido; a “cunha” da esposa para que o marido deixasse a amante, que lhe sugava o dinheiro (e outras coisas mais) que faltavam em casa. Hoje mantém-se a “cunha” para que o marido perca o vício do vinho; a “cunha” da mulher para que o marido que lhe bate todos os dias, mesmo continuando a agredi-la não a abandone; a “cunha” para que venha chuva para as sementeiras; a “cunha” para curar o “mau-olhado”; a “cunha” para curar a “morrinha” que deu no porco; a “cunha” para que a porca emprenhe; a “cunha” para que a filha que está grávida “tenha uma boa hora” e dê à luz uma criança escorreita e saudável; a “cunha” para o filho passar de classe mesmo que não mereça – principalmente se não merecer; a “cunha” para ser promovido(a) a Diretor(a) Disto ou Daquilo, lá na empresa onde trabalha, mesmo passando à frente de outros mais capazes – principalmente se houver outros mais capazes; a “cunha” do selecionador para que a seleção ganhe o europeu, independentemente de jogar melhor ou pior que os adversários; a “cunha” para que o partido ganhe as eleições, de preferência com maioria absoluta; a “cunha” para ir para o céu quando morrer. Um século de “cunhas”, também conhecidas por promessas: conhece maior ciclo de corrupção caro leitor?

       Pois é: mesmo depois de se saber o que a Senhora de Fátima vai fazendo por aí … os insuspeitos banqueiros, os impolutos gestores e os incorruptíveis governantes é que são os culpados da situação! (Ressalve-se o bom nome da cidadã de Nazaré – Maria, ou Miriã, em hebraico, mãe de Jesus segundo a tradição bíblica – que naturalmente não tem nada que ver com isto).

nelson anjos

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