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POPULISMO DO POVO – o genuíno

       Populismo: Lá fora e cá dentro”, de José Pedro Zúquete, é um levantamento impiedoso de manifestações de populismo, com origem diversa, em tempos e referências ideológicas, da esquerda à direita, a que ninguém escapa. Ninguém? Então e o populismo do povo? O genuíno? Onde ficou? – mas adiante que já lá iremos.

       De Francisco Louçã a Paulo Portas, passando por Otelo, Sá Carneiro, Basílio Horta e tantos outros, o autor não deixa ninguém sem um mimo, lembrando a todos algum momento mais marcante – e nalguns casos hilariante –, de glória populista.  Do populismo de arruada, de campanha eleitoral, a construções teoricamente mais elaboradas. Tudo no mesmo saco. Mesmo assim, e considerando a bitola da malha usada – povo e elites, ou “os de baixo” e “os de cima” –, não se pode deixar de estranhar que não tenha sido também apanhado na rede, por exemplo, um Soares ou um Cunhal, num qualquer momento de exaltação mais exacerbado. Ou ainda, com mais facilidade, um desprevenido caçador e homem de touradas (Portugal também é isso!), como Alegre.

       No plano da literatura Zúquete também não tem contemplações: desde logo, com os neo-realistas e Redol à cabeça. Não teria ficado mal, contudo, um aceno de simpatia a Torga ou a Cardoso Pires. Embora o primeiro não integrasse declaradamente a corrente visada, e o segundo nunca fosse consensual. Quando Torga diz, no volume I do seu “Diário”, que “entre o porco e o dono não há destrinça”, referindo-se aos padrões de higiene em uso na aldeia de Vila Nova (Miranda do Corvo), onde iniciou a sua carreira como médico, estava nos antípodas do primeiro mandamento do populismo: a louvação ou, no extremo, a bajulação, das virtudes do bom povo.

       Posto isto, e muito embora os diversos entendimentos existentes acerca do que é o “populismo” – Pedro Zúquete reconhece-o – penso que todos eles remetem para um populismo original: o populismo do povo. E este, Zúquete, de certa forma omite-o. Trata-se de um fenómeno em tudo semelhante ao que Luís Trindade, em ensaio já aqui trazido, traça para o salazarismo. Quando se questiona porque é que, em vez de se perguntar porque durou tanto o salazarismo, não se pergunta antes porque tem durado tanto o salazarismo. Pressupondo uma cultura política que antecede Salazar e que este fundamentalmente se terá limitado a utilizar. Questão inquietante – diz Trindade e eu também – e que deveria merecer por parte dos especialistas estudo aprofundado – digo eu. (Luís Trindade, O Espectro dos Populismos: Ensaios Políticos e Historiográficos, Lisboa, 2018).

       Ora, aqui chegados, transcrevo para a questão do populismo a mesma reflexão que Luís Trindade nos propõe para o salazarismo: não existiria já também, antes dos populistas, uma cultura populista desenvolvida nas sociedades, instalada no povo, que os populistas se têm limitado a sistematizar e a utilizar?

       Muito embora todos os “mas”, no debate em curso, onde todas as perspetivas são legítimas, penso que “Populismo: Lá fora e cá dentro” é mais uma proposta sobre o assunto, a merecer leitura, reflexão e crítica.

       Por exemplo: não é verdade que se assiste, desde há muito, a uma perda de qualidade política, por parte da generalidade dos partidos tradicionais, e da democracia em geral, independentemente do aproveitamento que disso queiram fazer os populistas quando a invocam?

nelson anjos

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