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A Luta Contra o Fascismo Hoje

       Começo onde concluí o texto anterior: Como Travar o Fascismo? – desenvolvendo uma cultura anti-fascista. “Só instituições resistentes e o antifascismo das pessoas comuns o travará” – escreve Paul Mason. Estou incondicionalmente de acordo, reforçando que a ideia de cultura não se pode circunscrever a um carácter abstrato e difuso, devendo antes materializar-se em medidas concretas, nomeadamente de natureza económica, que apontem para o esbater das desigualdades que se têm vindo a acentuar no âmbito da deriva neoliberal.

       E por cá? Sabendo-se que a cultura de que era portadora a generalidade da sociedade, a seguir ao dia 25 de Abril de 1974, era a que predominava no dia anterior? E que foi veiculada para as instituições, em geral, nomeadamente para os partidos? – Uma cultura fascista, sedimentada ao longo de quase meio século nas instituições do regime, incluindo a igreja, sem contraditório nem alternativa, excepto por parte de uma pequena minoria. E esta questão está longe de ter sido já suficientemente estudada. Defende Mason que, “para derrotar o fascismo, tem de se vencer a batalha das ideias e bem antes do seu avanço eleitoral decisivo”. E recorda também, a propósito, as conclusões de dois “mal-amados” pelo marxismo ortodoxo – Erich Fromm e Wilhelm Reich:

“No entanto, um número significativo de trabalhadores não seguia o padrão. Na verdade, só uma minoria tinha uma ligação baseada em valores com o seu partido. A força numérica do SPD (Partido Social Democrata Alemão) e do KPD (Partido Comunista Alemão) disfarçava o facto de que a esquerda “em grande medida não conseguira alterar a estrutura de caráter dos seus aderentes para que pudessem confiar neles numa situação crítica.” (p. 272, 273)

       E mais à frente:

“(…) Confirmava o que Reich tentara dizer ao KPD: que a “consciência de classe” evidenciada nos comícios e manifestações era frágil (…).

Ainda continuavam a ser membros dos respetivos partidos e, conscientemente, continuavam a acreditar nas suas doutrinas políticas; porém, bem no íntimo, muitos haviam desistido de qualquer esperança na eficácia da ação política.

Em contraste, os que se aproximaram dos nazis eram ativos e entusiastas.” (p. 273, 274)

       Mas o pensamento central de Mason, relativamente à questão de como combater o fascismo hoje, tem como trave mestra a ideia da Frente Popular, com um histórico que vai de sucessos relativos ao fracasso final, na França e na Espanha de entre as duas guerras: uma ampla aliança “juntando não só comunistas, socialistas e a classe trabalhadora, mas também os camponeses e a classe média urbana”. Sobre esta ideia os primeiros oscilaram entre o apoio, defendido pelos bolcheviques de Lenine em 1922, logo após a tomada do poder por Mussolini, e o seu contrário em 1924, com Estaline, para quem a social-democracia era a ala moderada do fascismo. Que viria a dar lugar à teoria do social-fascismo.

      Não obstante o histórico da(s) Frente(s) Popular(es), onde abundam não poucos equívocos e outras tantas páginas negras, Mason diz:

“Nos dias de hoje, se puderem indicar-me um país onde esteja iminente uma revolução de trabalhadores, ou onde haja um partido socialista suficientemente forte para derrotar sozinho o fascismo, de bom grado deixarei de lado a ideia de uma Frente Popular para aí derrotar o fascismo. Até então a Frente Popular continua a ser extremamente relevante nos lugares onde o fascismo é uma ameaça, onde a esquerda é fraca e onde o liberalismo vacila.” (p. 313)

       Muito embora todos os “mas”, e o que me parece ser um certo deambular errático, e por vezes contraditório, no pensamento de Mason, nomeadamente quando reconhece, por um lado a falência das democracias liberais e do modelo de economia que as sustenta, mas por outro apela a uma Frente que as defenda – “Quero que salvemos a democracia liberal, malgrado todos os seus defeitos e logros” (p. 112) – se não houver melhor solução, nem sequer a tese da “democracia militante”, de Karl Loewenstein, não escusarei o meu contributo. E, se for necessário o meu voto cinzento, lá irei também colocar a respetiva “cruz” (com a cara virada para o lado e os olhos fechados – o esquerdo e o direito). Como diz o outro: é a vida!

       Mas, e se muito embora muitos milhares de votos de “olhos fechados” não forem suficientes para obstar a que muitos mais milhares encham as urnas com um qualquer Chega? – Temos que pensar nisso. E já.

nelson anjos

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