A Prostituição Conjugal
(Este texto recupera partes e ideias que fazem parte de
outro, com o mesmo título, publicado no Jornal Mirante em 2018 (?) (Miranda do
Corvo))
Um
amplo leque de velhas questões associadas à também – dizem – mais velha
profissão do mundo, constituiu recentemente tema de debate na Assembleia da
República. Acontece porém que, por cá, e à semelhança de outros assuntos em que
a falta ao “politicamente correto” pode acartar custos que nem todos estão
dispostos a pagar – a vida está cada vez mais difícil! – os deputados foram contidos não arriscando
pisar linhas vermelhas que o “bom senso – o deles – recomendava. Que é como
quem diz: o respeitinho é muito bonito. Daí que, algumas declarações mais
audazes, e nalguns casos até de quem menos se esperaria, tenham vindo de alguns
órgãos da comunicação social. Ainda assim, do que li, o alcance das audácias
pareceu-me curto relativamente ao que o tema e conexos exige, e fui mais uma
vez reler sublinhados neste já velho clássico de Christine Dessieux: A
Prostituição Conjugal. Principalmente pela ideia central que veicula e
menos por umas quantas ideias laterais que não subscrevo.
Mostra a história das sociedades que as instituições
de uma dada época, no seu período de declínio, coexistem com as instituições que
anunciam o advento do novo quadro social, por um período que pode ser mais ou
menos longo. Tem sido assim, por exemplo, com o poderoso paradigma patriarcal,
herdado da tradição judaico-cristã, que atravessou com assinalável resiliência l’ancien régime, tendo chegado à
modernidade preservando o essencial da sua arquitetura. Refiro-me à Família. Onde
se reproduz o atávico estatuto social de inferioridade da mulher que, vindo de
um passado antigo, prevalece ainda nas sociedades modernas. Refletido, por
exemplo, no salário inferior para remunerar trabalho igual ao do homem, ou
ainda no trabalho doméstico não remunerado – trabalho sexual incluído –, assegurado
pela, até tempos recentes, designada dona
de casa ou doméstica.
Em A Prostituição Conjugal, Christine
Dessieux tipifica um conjunto de situações produzidas no quadro das sociedades
industriais ocidentais onde, sob a máscara da suprema “virtude e felicidade”
proporcionadas pela instituição matrimonial, homens e mulheres protagonizam, no
palco da grande farsa da hipocrisia social, a sua quota parte. A dependência
económica da mulher, relativamente ao homem, associada ao fardo de preconceitos
e tabus morais herdados de quadros sociais antigos, de que a própria Bíblia se
faz eco,
(Efésios
5:22-24) 22 Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao
Senhor; 23 Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo
é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo; 24 De
sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres
sejam em tudo sujeitas a seus maridos.
constitui, para Dessieux, o substrato em que
assenta o que designa por prostituição
conjugal. Os exemplos vão do velho “clássico” da rapariguinha com mais
ambições do que posses que vende os seus atributos físicos ao velho riquito, por
uns vestidos e uns sapatos de última moda, ou até um carro, e mais uns quantos
símbolos de “estatuto social – próximo da vulgar prostituição comercial de
rendimento imediato – ao caso socialmente mais acomodado ao recato do modelo
vigente: a família. Ève é uma mulher lindíssima que aprendeu ao longo dos anos
a rentabilizar os seus encantos. Jacques, o marido, é um quadro superior bem
sucedido, adora-a, enche-a de presentes caros, flores, e proporciona-lhe
viagens e outros eventos sociais que fazem as amigas roer as unhas de inveja. À
noite, no leito conjugal, ela retribui com a sua parte: mobiliza as mais
requintadas técnicas para dar prazer ao macho, mas, principalmente, com gemeres
lânguidos e gritinhos patéticos ensaiados, simula um prazer que nunca teve ou há
muito já não tem. Na manhã seguinte o bom do Jacques assina mais um cheque.
“(…)
Ève, com receio de vir a perder a segurança, nunca deixará o marido, embora o
deteste profundamente.
(…)
Parecem-se com prostitutas porque “fazem amor” impelidas por necessidades
materiais. Mas a profissional proclama a sua ocupação perante o mundo, enquanto
a prostituta conjugal se encobre atrás de uma máscara de falsa virtude.”
Fixando a atenção do leitor em aspetos
que, apesar da Internet, algum melindre ainda inibe, o livro de Christine
Dessieux afigura-se-me algo desequilibrado, mormente na distribuição de
responsabilidades. A mulher continua a ser a principal culpada; e o modelo família,
em vez de ser o objeto principal de questionamento é preservado.
Em
jeito de alegações finais: Exmºs Senhores Deputados, aqui se clama por alguma indulgência
e contenção, quando for hora de atribuir penas ou julgar. Afinal, e se a vossa amantíssima
esposa for apenas uma prostituta conjugal? Ou até – sabe-se lá! – Ter algum de
vós nascido de uma relação desse tipo? – Não se escandalizem. Se os colchões
conjugais falassem contariam histórias de autêntico terror.
nelson
anjos
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Cecília Pedro